Ninguém conversou com Daniel Saks (Editor das Revistas Calafrio e Mestres do Terror)

Por Fernando Fontana

1) Daniel, você é o editor e responsável por manter as revistas Calafrio e Mestres do Terror, dois clássicos absolutos do horror nacional. Você se lembra quando e onde começou o seu interesse pelo terror?

R: Oi Fernando, tudo bem? Gosto do horror como gosto de outros gêneros de entretenimento, alguns mais, outros menos. O que sou muito fã mesmo é de quadrinhos nacionais. Nós brasileiros somos excelentes nas HQs do gênero horror, humor e pornográfico, além do, não podemos negar, nicho infantil que é um dos maiores sucessos de mercado do mundo com o Maurício de Sousa. E o horror é a identidade do quadrinho nacional, ele motivou uma indústria de estúdios nos quadrinhos aqui do Brasil. As várias gerações de artistas que produziram horror (os mesmos que também produziram pornográfico) desde os anos 1950 são uma nata dentro da imensa produção nacional. Uma comparação válida é dizer que os quadrinhos de horror estão para as HQs nacionais como a pornochanchada para o cinema nacional. Ambos quase inexistem hoje, mas ninguém esquece ou deixa de relacioná-los.

2) Essa foi sua experiência pessoal, mas o que você acha que gera esse fascínio das pessoas pelo sobrenatural? O que motiva alguém a assistir um filme ou ler uma história que fará com que ela sinta medo?

R: Se a pessoa sentiu medo com a leitura ou a dramatização, significa que aproveitou mais que as pessoas insensíveis. O medo é o primeiro instinto de qualquer ser vivo, talvez seja esse o fascínio pelo sentimento nos seres racionais. Há muito que ser explorado sobre isso, até a origem das religiões (que remete aos neandertais) pode estar relacionado ao medo íntimo. O que não pode ser deixado de lado é a curiosidade pelo desconhecido, e a mistificação do inexplicável (isso sim, muito ligado às religiões). Particularmente encaro o horror como a fantasia, enquanto o consumo, experimento uma fuga da realidade. Se o enredo for capaz de me afetar, haverá um alívio natural quando estiver concluído, algo semelhante ocorre quando acordamos de um pesadelo. Em relação ao benefício desse tipo de entretenimento, em conversa com um especialista em educação, ele me explicou que um adulto só conseguirá compreender o ambiente que o envolve se na infância ele teve uma experiência de fantasiar a realidade e incorporar o imaginável; por isso é recomendado e saudável que crianças se vistam como seus personagens favoritos, imaginem monstros debaixo da cama, aprendam mitologias…

3) A primeira versão das revistas Calafrio e Mestres do Terror foram publicadas de 1981 a 1993, certo? Tinham como editor o mestre Rodolfo Zalla, que também desenhou diversas histórias. Como foi o seu contato com o Zalla e como surgiu a ideia de trazer as revistas de volta à vida?

R: Essa história de eu ter virado editor dos dois títulos podemos encarar como uma sucessão de eventos. Em 2015 fui a São Paulo para o aniversário da minha avó, estava na casa da minha tia que mora perto do apartamento em que o Zalla vivia, o procurei para ganhar um autógrafo e comprar uma edição que me faltava, consegui os dois! Durante a conversa, em que apareceu também o Osvaldo Talo, o mestre comentou ter muitas páginas inéditas e ele havia recém cancelado a série Calafrio Edição de Colecionador, comentei que um amigo no interior do Paraná tinha uma editora independente especializada em HQs de terror, que poderia comprar tais páginas. Os dois fizeram contato e acordaram em trazer os dois títulos clássicos de volta, meu amigo me chamou para ser editor principalmente para eu financiar a atividade e me responsabilizar pela redação das revistas. Eu já especulava que seria financeiramente muito arriscado, mas por razões pessoais estava muito honrado e empolgado. Hoje meu amigo desistiu de suas atividades editoriais e eu assumi a editora como um selo independente, a Ink&Blood Comics. Eu estar trabalhando e negociando com o Zalla deve ser um paralelo ao Romário convidar um peladeiro qualquer para formar uma escolinha de futebol.

4) Foram muitas histórias publicadas, e, eu sei, é muito difícil escolher as melhores entre elas, mas que tal você nos dizer algumas das suas preferidas, em qual edição elas saíram e por qual razão elas se destacam.

R: É injusto listar destaques, ainda mais sobre histórias, que envolvem nomes e talentos diretamente. Posso dizer que cada edição (aí sim é mais fácil analisar) me marcou de uma forma, seja pelo conteúdo, seja pelas críticas dos leitores. Me esforço para que sempre a minha favorita seja a última lançada, e mantenho essa linha de pensamento e superação. Hoje as primeiras que me vêm a mente são a Mestres do Terror 68, 71 e a Calafrio 62. É mais fácil explicar que algumas edições não são as minhas favoritas por ter havido menos trabalho editorial da minha parte.

5) Você também gosta de assistir filmes de terror, ou se interessa apenas pelos quadrinhos? Entre os filmes que você já assistiu, quais você acha que são os mais assustadores de todos os tempos?

R: Assisto sim filmes, hoje em dia muito mais do que ao longo de minha vida, para não ficar com tanta desvantagem em relação aos leitores. Confesso que sou um dos insensíveis para terror e comédia no cinema, acho um aracnofobia mais assustador que um Halloween. E desanimo totalmente com franquias de personagens como Freddy Krueger e Jason. Gosto muito de três filmes estrangeiros em particular: Pague Para Entrar, Reze Para Sair; Um Lobisomem Americano em Londres; e A Hora do Espanto (o clássico, claro). Já nacionais vou eu para uma situação injusta, mas adoro os filmes do Ivan Cardoso roteirizados pelo Rubens Lucchetti, tem todo o clima de pornochanchada e trazem de tudo, terror, comédia, erotismo, policial, além de elencos maravilhosos! Meu favoritíssimo entre eles, As Sete Vampiras. Na TV adorava o seriado de Contos da Cripta, duvido que sejam superados, embora goste de material moderno como American Horror Story.

6) Como tem sido a recepção do público nesta nova fase da Calafrio? Como você enxerga o atual mercado de quadrinhos? Há espaço para novas publicações? 

R: Vou inverter a ordem. Sempre há espaço. O que deixa saudade no mercado é justamente o caráter editorial de publicação, essa característica atual mais autoral é uma forma de mais gente ser publicada, no entanto parece ter afastado o profissionalismo dos artistas e editores em relação aos leitores. Quadrinho é entretenimento barato, ou pelo menos deveria ser. Eu sou um fã e entusiasta de quadrinhos, se meu filho pedir R$30,00 para comprar um gibi de um autor divulgado no Youtube, vou recomendá-lo não fazer, pois não conheço autor. Se pedir o mesmo valor para comprar um gibi de um personagem que ele gosta, já considero, pois sei que haverá um trabalho editorial responsável por trás do material. E ainda acho R$30,00 um absurdo por um gibi, e autofagista para uma indústria que precisa ressuscitar, um gibi deveria custar algo entre um litro de leite e um jornal diário de grande circulação. Sobre a nova fase da Calafrio e da Mestres do Terror, o público está concentrado em fãs saudosistas que acompanharam as revistas no passado, depois o público de eventos, alguns leitores novos, e outros esporádicos. Ainda há muito o que crescer em vendas para se afirmar que as revistas estão em uma fase autossustentável.

7) Tanto na Calafrio quanto na Mestres do Terror, o roteiro e o estilo das ilustrações variam bastante. O que é preciso para se tornar um roteirista ou desenhista nelas?

R: Embora ao longo desses mais de quatro anos do projeto ser buscada uma consolidação da equipe de criadores, não há um grupo fixo de colaboradores. As edições estão preparadas para receber material para avaliação e as mais variadas propostas. Eu gosto tanto de estilos rígidos, como de alternativos, e vou sempre procurar mesclar em uma edição gerações e estilos diferentes de colaboradores. Para quem envia trabalhos, é necessário saber que há uma qualidade mínima de arte e roteiro a ser respeitada, e nem sempre acertamos de primeira, um conselho que dou é leia um trabalho publicado e compare o seu ao dele, a humildade nos leva a melhorar. Mesmo sendo revistas independentes, as HQs serão pagas para serem publicadas. Dois fatores muito importantes: 1 – o primeiro é que não há muito tempo para se trabalhar com as revistas, tenho minha rotina profissional e o tempo livre para dedicar às pessoas próximas e minhas atividades, então ganha mais atenção e prioridade quando me enviam uma HQ pronta, não preciso ficar negociando primeiro com um roteirista, depois com desenhista, depois acertar ponteiros e diferenças criativas entre os dois,… Também faço a parte comercial, logística e redação das revistas. 2 – o segundo é uma atenção para quando o artista se compromete com o trabalho, a palavra compromisso e responsabilidade não são enfeites. Muitas vezes os leitores criticam uma HQ, ou um dado colaborador, eu só peço que confiem no trabalho dessa pessoa, pois eu tive meus motivos para confiar e não publicar o trabalho de outro.

8) Onde e como os interessados podem adquirir a revista Calafrio e Mestres do Terror? As edições antigas também estão disponíveis?

R: Há uma série de lojas físicas e/ou online parceiras pelo Brasil todo. Não é feita distribuição nacional por motivos óbvios para muita gente fluente no meio. Sempre priorizo que os leitores comprem pelos lojistas mesmo que isso derrube minha margem, além de custar menos para o consumidor (por causa da postagem), meu orçamento é planejado em cima do pedido das lojas. Além de que dessa forma valorizo os pontos de vendas, que também padecem de um mercado fraco. Para se informar das lojas mais próximas, ou aqueles que não tiverem acesso fácil a uma delas e precisarem comprar diretor com o editor, podem solicitar através do e-mail

7 Comments

  1. Tony Fernandes disse:

    Parabéns para o Fernando Fontana e para o meu velho amigo Daniel Saks, pela excelente entrevista. Regatar esses dois títiulos clássicos do terror nacional é, em dúvida, de vital importância para o setor editorial brasileiro. Eu e o Daniel, ao longo dos anos, trocamos muitas ideias por e-mail sobre HQs. Sempre se mostrou muito interessado em saber coisas sobre os bastidores do metiê. Sabia que ele era colecionador e pesquisador, mas confesso me surpreendi quando ele me disse que tinha adquirido do saudoso mestre e velho amigo Rodolfo Zalla os direitos para relançar Calafrio e Mestre do Terror. Essas aquisições foram feitas por ele justamente num período extremamente difícil para as HQs nacionais e o que mais me chamou a atenção é que um jovem como ele enveredasse pelo mundo das histórias tétricas. Em geral, jovens são fissurados em HQs de super-heróis… mas ele, sabiamente, decidiu investir em um gênero que sempre vendeu bem no país, num momento em que os quadrinhos brasileiros estava à beira da falência nas bancas de jornais, após a popularização da WEB. Muitos editores indies (independentes surgiram nos últimos anos), verdadeiros guerreiros intrépidos que corajosamente investem e insistem em lançar produtos por conta própria com tiragens ínfimas, porém o Daniel difere dessa grande gama de editores\atores e aficcionados, por sua preocupação pela qualidade gráfica de suas publicações e pelo critério que tem usado para selecionar bons roteiristas e desenhistas mantendo sempre um nível alto de publicação. Muitas publicações indies pecam pelo baixo nível do material publicado. Entretando, só após ler esta entrevista e que pude saber um pouco mais sobre este jovem e intrépido empreendedor e por seu interesse no gênero terror. Parabéns, pela excelente qualidade da entrevista, meus amigos. Desejo aos dois muito sucesso. Tá valendo.

    • Daniel do Canto Oliveira Saks disse:

      Grande Tony, muito obrigado pelas suas palavras, não tão isento disso tudo. Foi você que primeiramente me publicou, na época um artigo acadêmico em seu blog. Todas as nossas longas conversas foram boa parte do embrião que virou o meu projeto editorial. Só tenho a lhe agradecer. Um abraço, mestre!

  2. Eto disse:

    Investir em mercado de gênero no Brasil é mesmo uma luta, parabéns ao Daniel por sua dedicação em manter vivos esses clássicos!

    • Daniel do Canto Oliveira Saks disse:

      Valeu Eto, tomara que esteja acompanhando as revistas e que envie suas observações sobre elas.

  3. Eugênio Duarte de Almeida disse:

    Excelente entrevista. O resgate da Calafrio e da Mestres do Terror foi um feito de um heroísmo inenarrável e que eu acompanho com muito entusiasmo. Sei muito bem das dificuldades enormes para se manter um trabalho desses e o mínimo que todos nós, que apreciamos tudo isso, podemos fazer é manter s nossa fidelidade na aquisição das edições e também divulgar em nossas redes para que outros as conheçam e se interessem.

  4. Gilson Santos disse:

    Gostaria de receber um e-mail para adquirir as vezes Edições Atuais da calafrio e Mestres do terror..
    Aqui na região não temos nenhum empresa que esteja fazendo as aquisições destes exemplares..
    Segue Meu e-mail
    gilson.nornes@hotmail.com

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