* A insustentável invisibilidade da Ficção Científica *

Primeira coluna: o significado de Nemo

Por Sidemar de Castro

Nemo.

Com certeza você já ouviu esse nome. Não, não é o peixinho procurado da animação da Pixar. Pelo menos, não somente. Ele se refere a um personagem muito mais antigo, capitão do lendário submarino Náutilus do romance Vinte Mil Léguas Submarinas, do escritor francês Jules Verne, um dos pais da ficção científica, o gênero que deve ser o tema dominante desta coluna. Nemo é a palavra latina para “ninguém”, portanto, um título apropriado para uma coluna num site chamado Senhor Ninguém.

A ficção científica é o que se chama de “literatura de gênero”, que assim como o policial, terror, fantasia e outros menos cotados, são uma espécie de “filme B” das Letras. Nos meios acadêmicos e culturais, a literatura de gênero está um nível abaixo daquilo que se convencionou chamar mainstream, a “corrente principal” da literatura, ou seja, a que leva os jabutis e nobels da vida e aparece nos cadernos culturais dos grandes veículos de comunicação. O grupo dominante da cultura literária.

A ficção científica (FC) era o gênero que críticos consagrados da cultura brasileira, como Otto Maria Carpeaux que a considerava, nas suas próprias palavras, “a praga do século XX”. Mesmo tendo grandes e seminais obras internacionais como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e 1984, de George Orwell, mesmo tendo inclusive autores nacionais consagrados como Machado de Assis, Monteiro Lobato, Dinah Silveira de Queiróz, Rachel de Queiróz e João Guimarães Rosa, entre outros, publicado pelo menos algum conto, quando não livro, dentro do gênero – como, por exemplo, “Não verá país nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão – mesmo que o escritor insista em não considerá-lo FC (mas é uma distopia, um subgênero da ficção científica – sim, o preconceito pega). 

No entanto, segundo Nelson de Oliveira, o escritor mainstream que lançou a chamada “geração noventa” da literatura brasileira, esta entrou numa encruzilhada de falta de criatividade e repetição dos mesmos velhos temas e clichês: o passado subdesenvolvido, o interior modorrento, as favelas, marginais, o cotidiano da cidade grande ou o ego em crise do escritor branco de classe média. Em busca de uma saída para o marasmo literário brasileiro (com muitos jabutis, nenhum nobel…), Nelson a encontrou na sua leitura preferida da juventude: a ficção científica. Apesar de, no Brasil, país de pouca tradição científica, a FC ainda ser vista com certo preconceito por boa parte da cultura e dos meios acadêmicos, Nelson procura aproximar o gênero da “corrente principal” da literatura, não apenas escrevendo seus próprios romances de ficção científica, como promovendo antologias temáticas, de duas das quais participei com contos: Portal 2001 (referente ao filme de Kubrick) e Portal Fahrenheit (à obra de Ray Bradbury, Fahrenheit 451).

Na verdade, a ficção científica sempre teve um caráter meio marginal em todo o mundo, estando muito mais próxima da cultura pop, das revistas pulps, do cinema e dos quadrinhos. Mas as mudanças no mundo, do final do século XX para este novo século tem mostrado uma transformação social tão intensa por conta da velocidade da informação e desenvolvimento da tecnologia, com enormes efeitos sobre a civilização, que já não é possível mais tratá-la como um gênero menor ou, pelo menos, ignorá-la. Dos comunicadores de mão de Star Trek (Jornada nas Estrelas) nos anos 60, que inspiraram o atual celular (só isso já daria outro artigo), ao ciberespaço de Neuromancer de William Gibson dos anos 80, que se tornaram a sociedade regida pelo impacto das redes sociais de hoje, dos robôs tirando empregos de humanos ao próximo advento da Inteligência Artificial (um desafio que o Homo Sapiens não tem desde os tempos do Homem de Neanderthal), é quase impossível deixar de enxergar a importância da ficção científica como análise da condição humana. Como diz o pesquisador e escritor israelense Yuval Harari, autor de Sapiens e Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã, o ser humano busca, através da ciência, a imortalidade. Esse é um dos temas preferidos da FC.

Enterprise da Série Star Trek

A ficção científica está deixando de ser “invisível”. A “elite” do pensamento cultural já não pode mais ignorá-la. Segundo a definição da wikipedia, “a ficção científica é um gênero da ficção especulativa, que normalmente lida com conceitos ficcionais e imaginativos, relacionados ao futuro, ciência e tecnologia, e seus impactos e/ou consequências em uma determinada sociedade ou em seus indivíduos, desenvolvido no século XIX”. Mais do que nunca, podemos ver tais mudanças e impactos acontecendo ao vivo, dentro mesmo do período de vida de mais de uma geração, agora, no século XXI.

Dito isso, vamos ao que interessa, afinal, nesse primeiro artigo.

Nemo.

O capitão Nemo apareceu pela primeira vez em 1869 em 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne. Submarinos já existiam, naquela época, mas eram extremamente limitados e experimentais. Verne concebeu o Náutilus como uma máquina totalmente autônoma movida a eletricidade. Seu construtor, o capitão Nemo, é um engenheiro misterioso, não se conhecendo sua nacionalidade, nem de sua tripulação. Não mantém laços com país algum e a humanidade, vivendo somente dos recursos do mar. E tem, assim como seus tripulantes, um ódio profundo por navios de guerra, que geralmente levam a pique. Tudo o que o mundo sabe é que existe o que hoje poderíamos chamar de OSNI (Objeto Submarino Não Identificado), que muitos tomam por um monstro marinho, atacando navios de guerra em toda parte do mundo. Até que o professor Aronnax, um naturalista francês, Conseil, seu criado, e Ned Land, arpoador canadense, que haviam partido no Abraham Lincoln para pesquisar ou caçar esta quimera, acabam sendo resgatados do mar, quando o navio é atingido pelo Náutilus. Apesar de prisioneiros, podem andar pelo submarino e acompanhar suas aventuras ao longo dos sete mares do mundo, numa longa jornada submarina, que entre outras proezas incluem uma luta contra um kraken, um polvo gigantesco, visitar as ruínas da Atlântida, atravessar a calota polar ártica por debaixo do mar e, naturalmente, assistir impotentes, navios de guerra sendo abalroados. Tudo isso ao longo de 20 mil léguas submarinas. (* nota do colunista, com spoiler – se não leu, ou pretende ler o livro, ignore).

Embora hoje o Náutilus pareça arcaico com seus motores elétricos, na época era pura ficção científica. O que era FC foi suplantado pela realidade quando, em 1958, o USS Nautilus (nome em homenagem ao livro), primeiro submarino do mundo movido a energia nuclear, realizou a travessia do Polo Norte de fato.

O capitão Nemo retornaria em nova aventura no livro A Ilha Misteriosa, de 1874. Mais recentemente, como se tornou de domínio público, o escritor de quadrinhos Alan Moore o tornou um de seus personagens na Liga Extraordinária.

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Mobilis in mobile (móvel no elemento móvel) lema do Náutilus, que era a própria essência da ficção científica nas Voyages Extraordinaries de Jules Verne.

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(*) Sabe-se hoje que, em sua primeira versão, Nemo era polonês, e os navios que destruía, do Império Russo. Na época, a Polônia era uma nação dominada. O editor Hetzel, sabendo do enorme sucesso dos livros de Verne na Rússia, um país então muito francófono, pediu que ele removesse a nacionalidade do personagem. Por outro lado, em A Ilha Misteriosa, Verne muda a história e revela que Nemo era um príncipe hindu, e o alvo de seu ódio o Império Britânico. Por isso ele é assim retratado na Liga Extraordinária de Alan Moore. Nemo iria aparecer uma última vez em Voyage à travers l’impossible (Jornada pelo Impossível) peça de teatro escrita em conjunto com Adolphe d’Ennery.


Sidemar de Castro

Escritor preferencial de FC e quadrinista nas revistas Calafrio e Mestres do Terror

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