Por Fernando Fontana

Esta tinha que ser a primeira crítica deste site, porque vamos combinar, não dava para perder a oportunidade de usar este título.

Não é a primeira vez que este personagem aparece (ou não) nas telas do cinema; em 1933, tivemos “O Homem Invisível” do diretor James Whale, onde o cientista Jack Griffin ingere uma poção que o deixa invisível, ao mesmo tempo em que remove sua sanidade, fazendo com que ele persiga sua noiva. O filme rendeu duas sequências, “A Volta do Homem invisível” (1940) e “A Vingança do Homem Invisível” (1944).

Com roteiro e direção de Leigh Whannell (Jogos Mortais e Sobrenatural), esta releitura do clássico de H. G. Wells, acerta em cheio ao trazer para o presente o medo que atinge inúmeras mulheres ao redor do mundo, ao mesmo tempo que consegue nos fazer temer uma simples cadeira vazia.

Na trama, Cecília, em mais uma excelente interpretação de Elizabeth Moss (Mad Men e The Handmaid’s Tale), é uma mulher presa em um relacionamento tóxico e abusivo com Adrian (Oliver Jackson-Cohen), um cientista especializado no ramo da ótica.

Cecilia / Elizabeth Moss

Nos primeiros minutos, percebemos o medo que Cecilia sente do homem com quem divide a cama, aterrorizada com a possibilidade de que ele perceba sua tentativa de fugir de sua casa/cativeiro.

No filme da década de 30, o cientista fica louco devido à fórmula que lhe dá o poder da invisibilidade, aqui, a insanidade decorre de um sentimento de posse, de controle absoluto sobre corpo e mente da mulher, buscando determinar o que ela veste, come, fala ou mesmo pensa.

Sabemos que tudo isso ocorria graças à descrição de Cecília e à interpretação de Moss, que faz dela uma mulher acuada, sufocada, e incapaz de seguir em frente, porém o roteiro poderia ter dedicado um pouco mais de tempo à relação doentia entre ambos, reforçando nossa repulsa pelo cientista.

Este pesadelo parece encontrar um fim quando Adrian supostamente comete suicídio, no entanto, uma série de acontecimentos bizarros leva a protagonista a acreditar que seu marido não só está vivo, mas encontrou uma forma de ficar invisível e de persegui-la.

Neste ponto, o diretor Whannell poderia optar por fazer com que os expectadores duvidassem da existência do “Homem Invisível”, deixando uma brecha para uma possível perda de sanidade de Cecília, decorrente de uma mente afetada por anos de abuso físico e mental, mas segue por outro caminho, com cenas que deixam claro que o vilão é real.

Por outro lado, temos uma metáfora perfeita para relacionamentos abusivos e “Gaslighting”, termo cunhado a partir do filme britânico “Gaslight” (1940), cuja trama nos mostra Bella Mallen (Diana Wynyard) sendo convencida aos poucos pelo seu esposo Paul Mallen (Anton Walbrook) de que está ficando louca.

Adrian / Oliver Jackson-Cohen

Cecilia não apenas teme que Adrian possa estar espreitando em qualquer lugar, pronto para feri-la novamente, mas começa a duvidar de sua sanidade, uma vez que todos ao seu redor, incluindo amigos e familiares, insistem que tudo que está acontecendo não passa de sua imaginação.

Dormir é impossível quando não se sabe se será atacada durante o sono.

Há até mesmo a sugestão de um estupro, possivelmente envolvendo o consumo de grande quantidade de calmantes e o desejo de Adrian ter um filho, mas isso não é aprofundado.

Há algumas reviravoltas na trama, e uma delas parece estar ali unicamente para dar à protagonista a chance de recuperar o controle e se vingar.

É bom que se diga, filmes, assim como toda obra de arte, não tem o mesmo impacto em todos os expectadores, já que uma série de fatores influencia em como cada pessoa irá absorve-lo. “O Homem Invisível” é bom tanto para homens quanto para mulheres, mas certamente atinge com mais força elas do que eles, principalmente se for alguém que já passou por um relacionamento abusivo.

No geral, é um filme que acerta muito mais do que erra, e quando acerta, toca em um tema de grande relevância para nossa sociedade, que ainda presencia diariamente homens agredindo e matando mulheres por se considerarem seus donos, recusando o término de um relacionamento. Com essa nova abordagem, torna-se, ao contrário de tantos outros, um remake que faz por merecer existir.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Direção e roteiro: Leigh Whannell

Classificação: 14 anos

Elenco: Elizabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Harriet Dyer

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