O Vale Nerd: O Homem Aranha e a Representatividade

Por Everton Nucci

Olá, todos vocês, bem-vindos ao vale!

Eu sou Everton Nucci, tecnólogo, desenvolvedor de sistemas, servidor público, além de nerd, ator, dramaturgo, escritor, cantor, gamer (tudo isso nas horas vagas) e membro da comunidade LGBTQIA+ (para os íntimos: “membro do vale”).

Sei o que você está pensando: “Nossa, quantas letras! Quantos atributos! Precisa mesmo de tudo isso?. A resposta para essa pergunta é: Sim e Não! O que eu quero é demonstrar algo com o qual o leitor possa se identificar, ganhar a sua empatia. São muitas letras e muitos atributos, pois seres humanos, sexualidade e identidade de gênero são assuntos vastos e complexos.

Nessa coluna irei falar do universo LGBTQIA+ na cultura Nerd, mas isso não significa que heterossexuais e cisgêneros não devam ler também, afinal a última coisa que eu quero nesse momento, é criar mais segregação nesse mundo polarizado no qual estamos vivendo.

O que eu quero com essa coluna é estabelecer uma linha de diálogo, na qual eu possa demonstrar aos Nerds do Vale (por isso o nome da coluna) que eles encontram representantes na cultura pop da qual tanto gostamos,  além de demonstrar aos que são de fora do Vale, que ninguém está aqui para criar a tal “ditadura gay” ou implantar a nefasta (e inexistente) “ideologia de gênero”. Nós queremos o que todos querem: nos sentir representados.

Neste ponto eu começo a tocar em um assunto realmente delicado, a representatividade! Atualmente, o termo “representatividade” passou a ser automaticamente vinculado ao meio LGBTQIA+ e se tornou sinônimo de “lacração”, “militância”, dentre outros adjetivos pejorativos, entretanto, representatividade não é isso. Para não me apegar a uma definição de dicionário, irei recorrer a um exemplo Nerd e trazer para o tema “representatividade” o maior super-herói de todos os tempos: o Homem-Aranha (a coluna é minha e o ranking é meu), sim meus queridos Peter Parker é, na minha opinião, o maior exemplo de representatividade das HQs clássicas.

Com Grandes Poderes vem Grandes Responsabilidades

Sem dúvida, o Homem-Aranha é um dos super-heróis mais amados do meio Nerd, mas, a que se deve esse fato? Seria seu uniforme super fashion? Seus gloriosos super poderes? Seu afiadíssimo senso de humor? A resposta é representatividade. Todo jovem Nerd leitor de quadrinhos já leu ao menos uma HQ do aranha, e é muito fácil de se identificar com ele quando se está no auge da puberdade, afinal ele não é um milionário super inteligente cheio de apetrechos como o Batman, ou o Homem de Ferro, não é um alienígena super poderoso defensor dos fracos como  Superman, um deus nórdico como Thor, um super soldado, uma amazona, um cientista brilhante, um espião ou qualquer uma dessas personalidades adultas, inatingíveis, e difíceis de um adolescente se identificar; é possível admirar, mas não se identificar.

Peter Parker é um adolescente, órfão, pobre, nerd, tímido, e que sofre bullying na escola, sem conseguir se declarar para a garota que ama. Isso meus caros, é a representatividade, qualquer adolescente cheio de dúvidas e incertezas na vida, de alguma forma, se identifica com as características de Peter Parker, nem que seja uma só delas, e quando isso acontece ele se sente representado naquela HQ.

Não é difícil entender porque eu classifico o Homem-Aranha como o maior herói de todos os tempos. Para que eu me identificasse ainda mais com ele, só se ele não fosse hétero. Vale ressaltar que, quando falo de Homem-Aranha, estou falando exclusivamente de Peter Parker, não venha me falar de Miguel O’hara, Miles Morales, Ben Reilly, Kaine Parker, Gwen Stacy, Annie Parker, Cindy Moon, Peter Pork e etc.

Esses outros homens-aranha não me representam! Grande ênfase no “me”, visto que essa é única e exclusivamente a minha opinião. Reflitamos, eu era jovem, branco, nerd, introvertido, vítima de bullying, sem habilidades para namoro, dentre outras coisas, portanto, foi fácil para mim “me” sentir representado nas páginas daquelas HQs, sentindo empatia por aquele personagem, mas e se eu fosse um jovem negro, imigrante num país notoriamente racista e xenofóbico? Pois é, para que essas pessoas também se sintam representadas foi criado o Homem-Aranha Ultimate de Miles Morales, pelo mesmo motivo foi criada a personagem Kamala Khan, ou o personagem Virgil Hawkins (só para sairmos um pouco da Marvel), por esse mesmo motivo queremos personagens Gays, Lésbicas, Trans e etc nas HQS.

Parker Vítima de Bullying

A representatividade nas grandes mídias é uma necessidade do consumidor, afinal, eu compro as HQs, os jogos, os ingressos do cinema, eu quero me identificar com as personagens que lá estão. Num mundo globalizado como o de hoje com mídias sociais e a possibilidade de se criar o próprio canal no YouTube, as minorias já ganharam voz. E a indústria teve que se adaptar para continuar competindo nesse mercado voraz. Afinal se um jovem gay não encontrar representatividade nos cinemas ele vai parar de frequentá-los, e vai ficar apenas em seu celular assistindo aos vídeos do seu Youtuber gay favorito. Engana-se quem pensa que essa é apenas uma mídia de nicho e que nunca poderia competir com Hollywood. Na verdade, só pensa isso quem nunca teve que comprar o caríssimo boneco do Lucas Neto para o sobrinho. O que eu quero dizer com isso é que a representatividade é uma evolução natural da indústria, um reflexo do mundo real.

Como bons Nerds que somos queremos consumir cultura POP. Eu quero mais personagens LGBTQIA+ para poder comprar camisetas com sua estampa, para comprar a skin dele no MMO no qual gasto minhas horas livres, para comprar sua action figure e pôr na minha estante. A representatividade (e o capitalismo) deve estar lá, pronto para nos servir.

A diversidade humana é um amplo terreno para a indústria trabalhar, todos querem sua cota de representatividade nas telas, nas páginas, na rede e isso é bom. É a nova era surgindo; hoje, filmes como “Pantera Negra” e “Capitã Marvel” faturam milhões em bilheteria, tempos atrás isso seria impensável. Eu como Nerd do Vale, mal posso esperar para ver um super-herói LGBTQIA+ nas telas, quando isso acontecer estarei lá na pré estréia com meu ingresso na mão pronto para me sentir representado naquele mundo de fantasia.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, marvete sem noção,  nintendista sem razão e Queer por autodefinição.

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