Por Fernando Fontana

“Apenas depois de perdermos tudo é que seremos livres”

Baseado no livro homônimo de Chuck Palahniuk, e dirigido por David Fincher (Seven, O Curioso Caso de Benjamin Button, A Rede Social), Clube da Luta é um daqueles filmes que, horas depois de ser assistido, ainda fica martelando a sua mente.

Edward Norton interpreta o Narrador, cujo verdadeiro nome não sabemos em momento algum; ele sofre de insônia, está há seis meses sem dormir, com os dias se arrastando, como se estivesse permanentemente anestesiado. Para preencher este vazio existencial, como tantos outros, torna-se um escravo do consumismo, comprando sem parar em catálogos, e se perguntando: “Que tipo de sala de jantar me define como pessoa”.

Em sua primeira camada, o filme não esconde sua crítica feroz ao estilo de vida que adotamos por osmose, comprando não por necessidade, mas porque a ideia de sucesso como indivíduos, está atrelada ao quanto consumimos.

O Narrador (Edward Norton)

“Quando você compra móveis, você pensa, é isso aí. Este é o último sofá que eu vou comprar. Seja lá o que for, o problema do sofá está resolvido”.

Narrador

O Narrador trabalha em uma grande fabricante de automóveis como Controlador de Recall. Ele viaja pelo país verificando acidentes e aplicando uma fórmula onde analisa se o custo de processos decorrentes dos acidentes será maior ou menor do que o custo de um Recall dos veículos comercializados. Se o eventual custo dos processos for menor, a fábrica simplesmente não faz o Recall, ignorando completamente as vítimas fatais que surgirão por conta de uma peça defeituosa.

“A propaganda põe a gente para correr atrás de carros e roupas. Trabalhar em empregos que odiamos para comprar merdas inúteis”

Tyler Durden

Não é de se admirar que não durma bem.

Ele encontra alívio ao começar a frequentar grupos de apoio para pessoas com doenças terminais. Não está morrendo, mas as pessoas não sabem, e ao ficar calado, todos assumem o pior. Ninguém o julga, ninguém está preocupado com a marca da roupa que veste ou o saldo de sua conta bancária, todas essas coisas perdem o significado diante da proximidade da morte.

Tuberculose, parasitas no sangue, câncer, ele frequenta vários desses grupos e volta a dormir como um bebê, mas o surgimento de uma impostora arruína sua cura para a insônia.

Marla Singer (Helena Bonham Carter)

Marla Singer (Helena Bonham Carter), também frequenta todos os grupos de apoio, incluindo o de câncer testicular (sim, eu sei, voltaremos a falar sobre isso no final do texto), sua falsidade reflete a do Narrador, sua mentira revela a dele.

Sem alternativa, ele a aborda; no princípio exige que pare de frequentar os mesmos grupos, mas, depois, entra em acordo, divide-os, cada um fica com parte deles. 

Eles trocam telefones, e a vida segue em frente, ou, assim parecia.

Em uma de suas muitas viagens de avião, o Narrador encontra e conversa pela primeira vez com Tyler Durden (Brad Pitt), um fabricante e vendedor de sabão, que lhe dá um cartão de visitas com seu telefone.

Vemos que ambos possuem a mesma maleta, e o fato é mencionado como uma simples curiosidade, mas, o como expectador viria a saber, é muito mais do que isso. Clube da Luta, assim como Sexto Sentido, filme de M. Night Shyamalan, que também estreou em 1999, é um filme que muda completamente quando assistido pela segunda vez, e que, sem dúvida, merece essa experiência.

Ao retornar para casa, o Narrador descobre que seu apartamento explodiu, e que todas as suas coisas, móveis, louça, roupas, enfim, tudo, se perdeu. Uma vida inteira adquirindo “soluções versáteis para a vida moderna” voando pela janela.

Em meio aos destroços que vieram parar na calçada, ele encontra um pequeno pedaço de papel com o telefone de Marla, que, miraculosamente, sobreviveu ao incêndio. Ele liga para ela de um telefone público, mas não cria coragem para falar, ao invés disso, desliga e liga para Tyler, marcando um encontro em um bar.

Tyler Durden (Brad Pitt)

Entre uma cerveja e outra, Tyler o convence de que a perda dos bens materiais não é a pior coisa do mundo, pelo contrário, pode ser libertador.

“Eu digo, não queira ser completo! Pare de querer ser perfeito…as coisas que você possui, possuem você”.

Tyler Durden

O narrador se muda para a residência de Tyler, uma casa em ruínas, que é o completo oposto de seu antigo apartamento. Escadas e paredes parecem estar prestes a desmoronar, há goteiras, sujeira, jornais e revistas velhas por toda parte, o encanamento e a eletricidade funcionam precariamente.

Estranhamente, ele se adapta facilmente ao estilo de vida de Tyler, com quem funda o Clube da Luta, um local onde homens podem lutar e observar lutas, não por dinheiro, mas para se sentirem vivos e livres da domesticação imposta pelo sistema.

Brad Pitt em Clube da Luta

“Esse cara do trabalho, Ricky, não conseguia lembrar se encomendou caneta azul ou preta, mas por dez minutos, ele foi um deus, quando surrou o maitre de um restaurante local”.

Narrador

Durden é tudo o que o Narrador sempre quis ser, é confiante e está em sua luta particular contra a sociedade de consumo. Em seu trabalho como operador de projetor de cinema, ele coloca pequenos trechos de filmes pornô em filmes para a família (que duram uma fração de segundo, mas estão lá), nos restaurantes onde se cobra uma fortuna por um prato, trabalha como garçom e cospe, urina e peida nos alimentos que serão consumidos pela alta sociedade.

Quando Marla Singer liga para o telefone da casa de Tyler, quem atende é o Narrador; ela alega ter consumido uma grande quantidade de comprimidos e que está para morrer. Ele coloca o telefone no gancho e quem o pega logo em seguida é Tyler. É ele que parte em socorro de Marla, é com ele que ela transa inúmeras vezes, enquanto o narrador apenas ouve os gemidos de prazer.

Não dá para negar, não falta violência e sangue no Clube da Luta, e muita gente torceu o nariz na época em que o filme foi lançado, achando que o filme exaltava esse tipo de comportamento.

Não, Clube da Luta não é sobre violência, pelo menos não essa que envolve socos, ossos quebrados e rostos deformados.

Ele pode ser visto, é claro, como uma crítica ao consumismo, mas, vai além disso. Bruno Albuquerque, instrutor do curso “Decifrando Cinema” e dono do Canal “Clube de Cinema de Duas Portas” no Youtube, afirma que o verdadeiro propósito de Clube da Luta, é falar sobre alienação, não apenas a decorrente do sistema em que estamos inseridos, mas qualquer alienação, incluindo aquelas nas quais mergulhamos justamente para fugir do sistema.

Após o Clube da Luta se alastrar por diversas cidades dos Estados Unidos, e Tyler Durden se tornar uma lenda, ele inicia o Projeto Destruição, reunindo vários dos frequentadores em sua residência e dando a eles tarefas aparentemente sem sentido, envolvendo dano à propriedade, iniciar brigas e perde-las, entre outras.

Macacos Espaciais, seguidores de Tyler Durden

Tyler chama os membros do Projeto Destruição de “Macacos Espaciais”. Um macaco espacial faz referência ao animal que aperta botões e realiza ações no automático, sem saber a razão pela qual faz aquilo.

Os macacos espaciais do Clube da Luta estão tão desesperados para se livrar da alienação do sistema vigente, que aceitam se entregar aos seus instintos mais primitivos, lutando até a exaustão, abandonando o medo, sentindo algo, porém, sem perceberem, abandonam a alienação anterior e adentram outra, aceitando, sem questionar, qualquer ordem de seu novo líder: Tyler.

Em Tyler nós confiamos!

O Narrador percebe o rumo que as coisas tomaram, e tenta impedir Tyler, em uma luta desigual.

Buscando Tyler, visitando os lugares onde ele esteve, vem a grande revelação:

Tyler e o Narrador são a mesma pessoa, o primeiro é uma criação da mente do segundo, que buscava desesperadamente encontrar um sentido para sua vida.

Como dito antes, tudo muda no filme, a partir do momento em que Narrador e expectador tomam ciência da verdade.

Ele se encontra com Marla, revela seus sentimentos, e tenta protege-la, para então, finalmente confrontar Tyler e conseguir derrota-lo, recuperando o controle de seu corpo e mente.

Ironicamente, o filme que critica alienação e o consumismo, aumentou as vendas dos livros de Chuck Palahniuk, vendeu milhões de DVDs e camisetas, e teve suas frases mais marcantes compartilhadas à exaustão nas Redes Sociais.

Faz parte do jogo.

Há uma última questão a ser abordada aqui.

Marla Singer é real?

Sabemos que Tyler Durden é uma criação da mente do Narrador, não há dúvida quanto a isso, porém, seria Marla, outra criação sua?

Há evidências que corroboram essa teoria.

Primeiro, Marla começa a frequentar um grupo de câncer testicular, o que, por razões óbvias, é bastante estranho, e, no mínimo, chamaria a atenção daqueles que o frequentam, mas ninguém a questiona ou conversa com ela, com exceção do Narrador.

Em meio aos destroços dos móveis que foram parar na calçada após a explosão de seu apartamento, o Narrador encontra um pequeno pedaço de papel com o telefone de Marla. O fato do papel ter sobrevivido ao incêndio e ser localizado em meio ao caos, também reforça a possibilidade do delírio, mas há uma cena em específico que parece determinar que Marla não existe de fato.

Após o narrador deixar o telefone no gancho enquanto Marla ameaça se matar, permitindo que Tyler a ouvisse, ela começa a contar até dez.

Antes que a contagem termine, Tyler Durden já está na sua porta, e ela própria afirma que ele chegou rápido demais.

Seria fisicamente impossível para o Narrador (já que ele e Tyler são a mesma pessoa) chegar até o apartamento de Marla antes dela terminar de contar até 10, porém, isso é aceitável quando este encontro ocorre apenas na cabeça do Narrador, Tyler e Marla, ambos imaginários.

Se você discorda, e acha que Marla é real, deixe sua opinião nos comentários.

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Fernando Fontana é adulto e escritor amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”. Também é colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre cinema e quadrinhos do século passado.

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