Por Fernando Fontana

Beleza Americana, filme lançado em 1999 e dirigido por Sam Mendes (no que talvez seja seu melhor trabalho), tem como protagonista Lester Burnham (Kevin Spacey), que logo no princípio, “desce dos céus” para nos contar o final da história: Ele irá morrer!

A questão então não é o que acontecerá com Lester, mas como e por que.

Ele é casado com Carolyn (Annette Bening), e tem uma filha adolescente, Jane (Thora Birch); Trabalha, possui uma bela casa no subúrbio, com um jardim de rosas muito bem cuidado e aparado, dois carros na garagem e um futuro promissor pela frente; Sua família é o exemplo perfeito do “American Way of Life”

Lester Burnham (Kevin Spacey), um homem de meia idade infeliz com sua vida

Aparentar ser o que não é, essa é a chave para compreender “Beleza Americana”. Olhada através de um telescópio, a família de Lester é uma pintura, um comercial, mas basta se aproximar um pouco mais, para que as rachaduras fiquem visíveis.

Lester está cansado, é um homem de meia idade, que não está feliz com seu emprego ou com seu casamento, e com ambos ocupando quase todo seu tempo, dá para se ter uma ideia do porquê ele já se considera morto, muito antes de morrer de fato.

“Olhem para mim. Me masturbando no banho. É o melhor momento do meu dia, depois só piora”.


Trabalha há quatorze anos escrevendo para uma revista de publicidade, e seu gerente, Brad, recém contratado, pede que ele faça um resumo detalhado de suas contribuições para a empresa, uma vez que estão passando por uma reformulação e terão que demitir funcionários.

Em casa, mal conversa com a filha, que sente vergonha do pai, e a esposa, o trata com desprezo, criticando-o constantemente, ainda que jamais em público.

Carolyn é extremamente dedicada à sua carreira de corretora de imóveis, tem obsessão com organização, e, principalmente, imagem.

Carolyn Burnham (Annette Bening), uma mulher obcecada com as aparências

“Meu trabalho é vender uma imagem e tenho que viver essa imagem. Faça-me um favor, pareça feliz”


A cena em que vemos pela primeira vez a família jantando diz muito sobre eles; se assemelha a um retrato, tudo cuidadosamente planejado, a disposição dos pratos e talheres, as velas, a música de fundo, e, é claro, milimetricamente posicionado no centro da mesa, um vaso com rosas vermelhas.

As rosas desempenham papel importante em todo o filme, sempre que estamos diante de uma falsa imagem, de uma fantasia, elas estão presentes.

Lester, a esposa e a filha estão sentados afastados, indicando que já não existe qualquer tipo de intimidade entre eles.

Esteticamente perfeito, o jantar esconde uma família cujos membros já não se suportam

A profunda letargia de Lester é quebrada apenas quando ele conhece Ângela Hayes (Mena Suvari), líder de torcida e amiga de sua filha, com quem começa a ter fantasias eróticas.

Tanto Ângela quanto Jane, percebem a forma como Lester a encara e a deseja, porém, se para Jane, é motivo de vergonha, para Ângela é agradável.

A Líder de Torcida é tem necessidade de ser admirada e desejada, faz questão de narrar suas aventuras sexuais e seu pior pesadelo é ser considerada comum.

Ângela Hayes (Mena Suvari) gosta de saber que Lester fantasia com ela

Por trás dessa máscara, Ângela, é, provavelmente, a mais insegura de todas as personagens. Não por acaso, nas ocasiões em que Lester sonha acordado com a adolescente, há uma enorme quantidade de pétalas de rosa a envolvendo. Trata-se de uma fantasia com uma garota que finge ser o que não é.

“Não acredito nele. Quer dizer, ele não me olhou uma vez sequer”


Um personagem que desencadeará uma mudança no comportamento de Lester e de sua filha, é Rick Fitts (Wes Bentley), adolescente que acabou de se mudar com sua família para a casa vizinha dos Burnham.

Seu pai é o Coronel Frank Fitts, um homem preconceituoso, que pauta sua vida e a de todos ao seu redor pelo controle e pela disciplina, e que sequer se permite rir diante do filho. Ao se apresentar para qualquer pessoa, Frank sempre informa ser um Coronel e fuzileiro naval, pois pensa ser isso que o define como pessoa.

Em decorrência da atitude de Frank Fitts, seu filho, Rick, passou dois anos internado em uma instituição psiquiátrica, e sua esposa, apresenta distúrbios mentais, vivendo em um mundo somente seu, ouvindo vozes, com medo do que o marido possa fazer, por conta de uma casa desarrumada ou de visitas fora de hora.

O suposto controle que Frank exerce sobre Rick e sua esposa não passa de ilusão; a esposa parece ter perdido a conexão com a realidade, e o filho apenas finge obedecer sem questionar o pai, embora obtenha seus rendimentos da venda de maconha e tenha uma visão de mundo oposta.

A beleza encontrada nas coisas simples como um saco de plástico dançando junto com folhas secas

“Ás vezes há tanta beleza no mundo. Parece que não posso suportar, e meu coração parece que vai sucumbir”.


Enquanto fumam maconha juntos, Lester observa Rick abandonar sem qualquer dificuldade um emprego, assim que é destratado pelo empregador. Ele passa a admirá-lo, pede demissão de seu trabalho, compra o carro de seus sonhos e começa a trabalhar em uma lanchonete, fritando hambúrgueres, para, segundo suas próprias palavras “ter o mínimo de responsabilidade possível”.

O novo comportamento de Lester amplia o distanciamento entre ele e a esposa, que começa um caso com o mais famoso corretor de imóveis da região, Buddy Kane (Peter Gallagher), um homem com fala e comportamento tão artificiais que soa quase caricato. Sua filosofia de vida, de projetar uma imagem de sucesso e viver pela carreira, é idêntica à de Carolyn.

Em uma nova cena de jantar, as rosas vermelhas desaparecem da mesa, e os verdadeiros sentimentos vem à tona, a imagem da família perfeita começa a desmoronar.

Se por um lado, Lester nunca esteve tão feliz, o filme começa a nos mostrar que seu novo estilo de vida será o responsável por leva-lo ao fim, e nos deixa em dúvida sobre quem será o responsável pela sua morte.

O que Lester faz é revelar a falsidade por trás do comportamento dos principais personagens. O casamento perfeito de Carolyn acabou, o Coronel Frank, após uma sequência de eventos que o levam a um mal-entendido, revela-se um gay enrustido, e, finalmente, Ângela, que aceita ir para a cama com Lester por saber que ele é fascinado por ela, diz ser virgem e teme não ser boa o suficiente.

Lester e Carolyn, quando a imagem de família perfeita já não funciona mais

É no momento em que Ângela revela nunca ter ido para a cama com outro homem, que toda a fantasia de Lester desaparece e ele a enxerga como realmente é, apenas uma jovem insegura.

O ato não se consuma, não há necessidade, Lester está em paz consigo mesmo, e é em paz que ele morrerá, assim como previsto no começo da história.

Sua paz deriva de, finalmente, ter percebido onde está a verdadeira beleza da vida, muito longe dos bens materiais e das aparências, ou de uma jovem e bela líder de torcida.

“Acho que eu deveria ficar puto com o que me aconteceu, mas é difícil ficar zangado quando há tanta beleza no mundo. Às vezes acho que estou vendo tudo de uma vez e é demais. Meu coração se enche como um balão prestes a estourar. E então, me lembro de relaxar, e de tentar para de apegar-me a isso. E, então, tudo flui através de mim como chuva, e só posso sentir gratidão, por todos os momentos da minha vida idiota”

Lester Burnham

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, também colabora com o Canal Metalinguagem onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos

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