Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem-vindos ao Vale!

Eu sou Everton Nucci e dentre outras coisas, sou cinéfilo, ator, dramaturgo e membro da comunidade LGBTQIA+ ou para os íntimos “membro do Vale”.

Fun fact: a expressão Vale surgiu quando alguém do meio religioso afirmou ter visitado o inferno e voltado à terra (John Constantine, é você?). Em seu “testemunho” a tal pessoa descreveu ter visto um local exclusivamente destinado a punição eterna dos LGBTQIA+, o “vale dos homossexuais”, resultado?

A comunidade adotou o nome “Vale” por puro deboche; pois é, o Brasil não é para amadores!

Esta coluna é dedicada a falar da representatividade do Vale na cultura POP, em especial na mídia Nerd, mas se você é hétero e cisgênero, saiba que essa não é uma coluna exclusiva, mas sim, inclusiva. Na última coluna eu falei de representatividade e hoje vou falar sobre um assunto diretamente ligado: A Empatia, peça fundamental para que se possa entender a necessidade do próximo. 

A representatividade é importante para que todos os seres humanos possam se sentir parte de um todo, e não uma exceção à regra, pois, se o cinema sempre retrata as mulheres bonitas como magras, louras e frágeis, como as mulheres negras, “gordas”, autossuficientes, podem se sentir representadas? Se todo herói de ação é um machão, musculoso, descamisado, como o garoto “magro”, delicado e “afeminado” pode se sentir representado?

Algumas pessoas podem dizer que isso é excesso de militância, ditadura do politicamente correto, culpa da “lacrosfera do projaquistão”. Alguns apresentadores de televisão podem dizer que tem “viado” demais nas novelas, aparece até em novela de cangaceiro.

Para esses apresentadores eu digo: Ser gay não depende de profissão, podem existir gays cangaceiros, pedreiros, lutadores de MMA, e até apresentadores de TV. Pois é, não há nenhuma “regra do sindicato” que obrigue os gays a serem cabeleireiros, maquiadores ou decoradores.

O que eu digo é que falta empatia a essas pessoas. Algumas delas já se sentem representadas na mídia e, portanto, não veem nada de errado no “status quo”, talvez falte a elas a capacidade de olhar para o lado e enxergar os outros, olhar-se no espelho e se perguntar: “Será que a pessoa ao meu lado se sente representado na TV, cinema, livros ou quadrinhos, da mesma forma como eu me sinto?”.

Essa é a pura definição de empatia, é a capacidade de se pôr no lugar do outro e entender como ele se sente.

A história dessa série está muito relacionada com a de seus criadores, em especial, das irmãs Lana e Lilly. Isso porque a série traz em seu núcleo principal personagens gays, bis, e trans, e ambas as irmãs são mulheres trans.

Lana Wachowski

O Jornalista Érico Borgo, certa vez afirmou que (enquanto ainda se identificava formalmente como homem) Lana era uma das pessoas mais chatas de se entrevistar em Hollywood, sempre com seus óculos escuros e cara amarrada, ela odiava falar nas entrevistas e destilava mau humor com os repórteres, entretanto, quando passou a se apresentar como mulher, Lana revelou ser uma pessoa alegre, simpática e que adorava falar sobre seus projetos.

A mudança (para melhor) era nítida. Já Lilly passou por um caso mais complicado, quando ela ainda não havia compartilhado publicamente sua identidade de gênero (e todo mundo que é do Vale já passou por uma fase assim), sofreu com forte pressão da mídia, teve sua privacidade invadida e foi até mesmo ameaçada por tabloides. A questão é que a diretora tinha muito prazer em falar sobre seus trabalhos e projetos, mas não gostava de falar sobre vida pessoal, somado ao preconceito sofrido por pessoas trans, isso gerou um estresse ainda maior.

O assédio só parou quando ela anunciou publicamente sua identidade de gênero.

Não me entendam mal, ao olhar a situação do lado de fora todo o ocorrido pode parecer estranho e até repentino (como dois machões criadores da pancadaria fetichista de Matrix são na verdade mulheres?), mas a verdade é que por trás da vida pública há uma história pessoal. Lana, por exemplo, conta que já no colégio se sentia indecisa quando tinha que pegar uma fila, ela sabia que pertencia à fila das meninas, mas suas roupas diziam o contrário. Lilly afirma ter conseguido passar pelo processo de transição graças ao apoio da esposa, colegas, por se inspirar na coragem da irmã e por receber muito apoio profissional.

Lilly Wachowski

Muitos LGBTQIA+ precisam recorrer a psiquiatras e psicólogos para se livrar de traumas ligados ao preconceito sofrido na sociedade, família, igreja, colégio. É por isso que eu afirmo que a empatia é algo tão importante, digo mais, a empatia deveria ser um exercício diário de cada indivíduo, uma sociedade mais empática certamente seria menos injusta, violenta e desequilibrada.

Muito dessa história pessoal está em Sense8; a série é um verdadeiro tratado do que é a empatia. A história de ficção acompanha 8 pessoas ao redor do mundo que de repente se veem mentalmente conectadas, assim surge o “cluster” de Will, Capheus, Riley, Lito, Sun, Wolfgang, Nomi e Kala. Na próxima semana, falarei mais sobre a série, sua história e personagens.

E se você gosta de Sense8 e quer conversar comigo a respeito deixe seu comentário logo abaixo. A dica do dia é o filme “Cloud Atlas”, como na série Sense8, o filme acompanha várias histórias diferentes (e as personagens LGBTQIA+ estão entre elas) mas diferente da série, as histórias estão em épocas diferentes e não em locais diferentes no mundo.

Além de um elenco superestrelado (com nomes como Halle Barry, Tom Hanks, Hugh Grant, interpretando mais de uma personagem na tela), o filme ainda conta com uma direção maravilhosa que alterna entre momentos de traição, ficção, romance, comédia espionagem, além de ser o primeiro assinado por Lana após sua transição em 2012.

Por hoje é só, até a próxima e fiquem em paz.

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Everton Nucci é dentre outras coisas, cinéfilo, ator, dramaturgo e membro da comunidade LGBTQIA+ ou para os íntimos “membro do Vale”.

2 Comments

  1. Gabi ❤️ disse:

    Escreva! Escreva! Escreva mais! Escreva sempre!
    Apaixonada por suas palavras!

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