Ninguém desceu até o Fundo do Poço (crítica com Spoilers)

Por Fernando Fontana

Os cinemas, assim como boa parte da sociedade, está paralisado em função da pandemia de COVID-19, em uma tentativa desesperada de impedir a morte de diversas pessoas, em sua maioria, idosos.

Não poderia haver momento mais propício para a Netflix lançar “O Poço”, filme de suspense espanhol, dirigido pelo pouco conhecido Galder Gaztelu-Urrutia, e que vem chamando a atenção dos assinantes e da crítica especializada.

Nele, o protagonista, Goreng (Ivan Massagué) entra voluntariamente no “Poço”, prisão que dá nome ao filme, para finalmente conseguir parar de fumar, e para terminar de ler o seu livro “Dom Quixote”.

Ele não tem ideia de onde está entrando.

Seu primeiro companheiro de cárcere, Trimagasi (Zorion Eguileor), é quem irá explicar a Goreng e ao público, ao mesmo tempo, as regras e o funcionamento do lugar.

O Poço é composto por vários níveis, e nem mesmo Trimagasi sabe quantos; em cada nível, ficam dois prisioneiros, no centro de cada cela há um vão, por onde desce uma mesa com comida, que deve ser consumida em um curto período. Nos primeiros níveis, a mesa é farta, repleta de massa, carnes, doces, frutas, vinho e muito mais, mas o nível inferior fica com aquilo que o nível superior não comeu, ou seja, os restos.

Os primeiros níveis comem o que querem, os demais contentam-se com os restos

Os primeiros níveis comem até se esbaldarem, dá e sobra, nos intermediários, há o suficiente, mas nos últimos níveis, nada chega.

A palavra preferida de Trimagasi, em suas respostas e explicações é “óbvio”, e ela corresponde com perfeição à alegoria que o filme retrata. É óbvio que se trata de uma metáfora sobre a sociedade em que vivemos, com os ricos tendo acesso ao melhor que se pode ter, os de classe média ficando com as sobras, mas felizes por terem mais do que os pobres, e, finalmente, os pobres e miseráveis, para os quais nada sobra.

Sim, é óbvio, mas é quando o filme foge do óbvio que se torna ainda melhor.

Toda pessoa tem direito a levar um objeto para o Poço; não por acaso, Goreng escolhe levar um livro, “Dom Quixote”, como mencionado anteriormente. Dom Quixote é um romance que narra as aventuras de um fidalgo que perdeu a razão, e parte pela Espanha, agindo como Cavaleiro, tentando proteger os mais fracos. Dom Quixote luta por ideais há muito tempo esquecidos, e não compreende que a realidade onde está inserido é muito diferente daquela que ele imagina.

Tal qual Dom Quixote, Goreng é um idealista e luta pelos mais fracos

No primeiro dia, ao ver os restos de comida que chegaram, Goreng sente nojo, e não toca na comida, já Trimagasi, come como se não houvesse amanhã. Com o passar dos dias e a fome apertando, aos poucos, sem escolha, o protagonista esquece o nojo e começa a comer.

A fome, a de verdade, não essa que sentimos entre uma refeição e outra, não permite que se escolha o que se vai comer.

O ser-humano adapta-se, sobrevive.

Passados 30 dias, os prisioneiros são transferidos, aleatoriamente, para outro nível, podendo ser mais alto ou mais baixo. Os que estiveram nos níveis mais baixos, conhecem a agonia da fome, de ver a plataforma chegar e não haver nada para se comer nela, mesmo assim, ao subirem de nível, comem muito mais do que o necessário.

Para os níveis intermediários, os restos dos níveis superiores são o suficiente.

Goreng nota isso, e tal qual Dom Quixote, tenta convencer aqueles que estão nos níveis próximos, que se todos comerem apenas o suficiente, haverá comida para todos.

Interessante notar que Trimagasi, ao ver a tentativa de Goreng dividir a comida, assim sobrando mais para os níveis inferiores, pergunta se ele é comunista.

Em tempos de profunda polarização, não é difícil achar alguém que tenha sido classificado como comunista, apenas por defender uma menor concentração de renda ou auxílio aos mais pobres.

Outra personagem faz o mesmo, Imoguiri (Antônia San Juan); ela acredita que o diálogo é capaz de convencer as pessoas a agirem de forma civilizada. Quando este recurso falha, resta a ameaça, mas essa só pode ser utilizada para com aqueles que estão nos níveis inferiores, pois como o próprio protagonista diz:

“Não posso cagar nos que estão acima de mim”.

Na ausência total de comida, pessoas perfeitamente normais se transformam, sendo capazes de atos monstruosos, sangue jorra, carne humana é devorada.

A direção de fotografia utiliza em vários momentos forte iluminação vermelha, denotando o perigo, o medo e a tensão presentes.

O Poço é claustrofóbico, visceral e não nos fala apenas sobre a natureza da sociedade, mas, principalmente, da natureza humana.

Questionado sobre a mensagem política, o diretor diz que não há pretensão de ensinar, mas de fazer o espectador refletir sobre como se comportaria em uma determinada situação, estando nos níveis superiores ou inferiores.

Se a alegoria é óbvia, a resposta não é, muito menos a mensagem no final, que deixa margem para interpretações.

Deixe nos comentários sua opinião sobre o filme e seu final.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, também colabora com o Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

1 Comment

  1. Roj Ventura disse:

    Achei legal porque o filme mostrou que o comunismo é incompatível com a natureza do ser humano, e mostrou também que tentativas de implantar o comunismo envolvem violência.
    Mas o final foi tão babaca quanto o final da trilogia Matrix.

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