Star Trek – A Série que Ajudou a mudar o mundo

Por Sidemar Castro

Jornada nas Estrelas (Star Trek) inspirou uma geração de fãs e nerds que se tornaram cientistas, autores ou influenciadores que promoveram inovações tecnológicas  

Em 8 de setembro de 1966, Star Trek – A Série Clássica (disponível na Netflix, juntamente com as outras séries derivadas), estreava nos Estados Unidos com o episódio “The Man Trap”, que não foi o primeiro a ser produzido, mas a emissora CBS achou o “mais comercial”. Um episódio piloto com outro capitão e uma primeira oficial mulher no comando foram considerados “intelectuais demais”, porém, de forma inédita, os produtores resolveram que a séria iria ao ar desde que fossem amenizadas algumas “ousadias” para a época, como uma mulher no comando ou um “marciano orelhudo” que lembrava demais o diabo. Os anos 60 estavam em efervescência por mudanças sociais e políticas, mas havia ainda enorme resistência do status quo. No Brasil, o seriado iniciaria sua exibição em 1968, na extinta Excelsior, de São Paulo, como Jornada nas Estrelas. O criador da série, Gene Roddemberry cedeu no feminismo, mas bateu pé com a presença do orelhudo, que virou meio humano meio vulcano, e se tornou o personagem mais amado e lembrado da série. O ator que fez o capitão teve de ser trocado por um ator canastrão vindo de faroestes e de outras séries do próprio Roddenberry, com caravanas pelo oeste selvagem, que de carta forma, geraram o conceito de Star Trek (literalmente, uma jornada pelas estrelas, assim como eram as caravanas pelo oeste desconhecido e selvagem).  

Visto de hoje, pode parecer exagero que uma série da TV americana dos anos 60 com apenas três temporadas e uma relativamente baixa audiência (razão de seu cancelamento após apenas três temporadas) tenha contribuído para “mudar” o mundo, mas uma análise de como suas inovações tecnológicas impactou na sociedade futura (contemporânea) mostra exatamente isso. Adorada por uma geração de jovens cientistas, universitários e formadores de opinião, a série os motivou a criar invenções que buscavam tornar real o que era exibido na série, assim como influenciou o meio cultural. Isso, através das quebras de barreiras referentes a racismo, feminismo e aceitação de uma sociedade globalizada e multirracial. O próprio Senhor Spock, vivido pelo ator Leonard Nimoy, ator de origem judaica, era um mestiço de humano com vulcanos. A oficial de comunicações Uhura (a bela atriz negra Nichelle Nichols) continuou na série a pedido de Martin Luther King, que achava importante que mulheres negras tivessem presença em papéis dignos e referência para outras jovens negras. Como revelou anos depois a atriz Whoppi Goldberg, que amava tanto a série a ponto de conseguir uma “ponta” vez ou outra como a barwoman Guinan, de misteriosa origem alienígena, na Enterprise de Star Trek – A Nova Geração (sete temporadas, na Netflix). Aliás, ela retomará o papel de Guinan na segunda temporada de Star Trek Picard (no Brasil, na Amazon Prime). Aliás, foi com Nichelle que a TV americana mostrou um dos primeiros beijos inter-raciais, ato impensável naqueles anos. O episódio foi censurado em alguns estados do sul dos EUA, onde imperava um tipo de apartheid. A série também tinha episódios que evocavam a Guerra Fria, colonialismo e outras questões polêmicas, tudo disfarçado da censura social dos meios de comunicação em massa pelo manto da ficção cientifica, visto como mera fantasia juvenil.    

Capitão Kirk, Primeiro Oficial Spock e Oficial Médico McCoy

Na tecnologia, um dos exemplos mais lembrados é o telefone celular. O capitão Kirk (William Shatner) e os tripulantes da espaçonave Enterprise (nome homenageado pela NASA em um dos seus ônibus espaciais) usavam comunicadores que se abriam num toque. O popular “StarTAC”, um dos primeiros celulares do tipo lançados, teve seu design inspirado nos comunicadores da Enterprise, com esse nome para não infringir direitos autorais da série, mas a referência é clara. Martin Cooper, inventor do celular que trabalhou com a Motorola, admitiu que o comunicador de Star Trek foi a inspiração para o seu trabalho. Hoje, segundo o Banco Mundial, mais de 75% da população mundial usa celular. Ainda na série clássica, havia um tipo de tablet (lá chamado “tricorder”), usado por Spock (Leonard Nimoy), que escaneava tudo a seu redor recolhendo informações do ambiente. O médico da nave, dr. McCoy (DeForest Kelley) também usava scanners – tais como são comuns hoje no uso da ressonância magnética, só que obviamente menores. Há pesquisas que caminham para isso. Ele também inoculava medicamentos com uma injeção sem agulha – a pistola de vacinação pressurizada surgiu mais tarde.

Amit Singhal, engenheiro responsável pela busca do Google há mais de 15 anos, sempre diz que o seu sonho é recriar o computador da Enterprise, que entende qualquer pergunta e tem a resposta mais imediata e útil possível. A equipe da nave também tinha um dispositivo que traduzia automaticamente para o inglês tudo o que falavam. E a tenente Uhura usava um fone de ouvido wifi. Tradutores universais (mesmo que ainda não tão eficientes quanto os da série) já são realidade, online ou com pequenos aparelhos. Computadores pessoais, ou mesmo um tipo de tablete com touchscreem eram comuns nas séries Star Trek. Videoconferências eram ideia antiga, mas pouco práticas no mundo, mas nas séries eram comuns. O GPS usa sistemas de localização bem semelhantes aos usados pelos sensores de localização e rastreamento na série idealizada por Gene Roddenberry na década de 1960.   

Teletransporte, uma das tecnologias da Série que ainda não conseguimos reproduzir

O choque da arma “feiser” (uma variação do raio laser) era muito usado pelos tripulantes para tontear adversários em vários níveis. O “taser” das forças policiais na atualidade tem um princípio semelhante. Também era comum nas várias versões da série, cegos usando visores para enxergar, como o tenente LaForge (LeVar Burton) na Nova Geração, que enxergava até espectros do infravermelho e ultravioleta; próteses oculares ligados a óculos especiais estão sendo testados hoje em dia. Processadores de comida serviam para criar drinques sofisticados e refeições para a tripulação, como as atuais impressoras 3D, que se desenvolvem a cada dia. Não que todas essas tecnologias futuristas e maravilhosas fossem invenções originais da série (muita coisa foi antecipada na literatura anos ou décadas antes), mas foi Star Trek quem as popularizou para fora do âmbito dos leitores de ficção científica através da TV aberta. Os roteiristas de Star Trek, como Harlan Ellison ou D. C. Fontana, eram escritores de ficção científica antenados com o que havia de mais moderno em pesquisas científicas de então e, a partir delas e de sua cultura de leitores da FC literária, tentavam antecipar o que poderia vir no futuro. Mas muita coisa, como sempre, reflete na ficção científica o ambiente do mundo em que os escritores vivem. Assim, a “Federação dos Planetas Unidos” não era apenas uma espécie Organização das Nações Unidas (ONU) dispondo de uma frota pesquisadora, mas também fortemente armada com torpedos fotônicos, mas de certa maneira representavam o “mundo livre”, o Ocidente, enquanto seus adversários do Império Klingon ou os romulanos eram uma caricatura do Pacto de Varsóvia dos países na órbita da antiga União Soviética durante a Guerra Fria. O que não impedia que houvesse críticas óbvias ao imperialismo da bondosa Federação tanto quanto nas tentativas da Frota Estelar de influenciar planetas mais primitivos para fora da esfera dos inimigos da Federação. Não por acaso, o nome oficial da nave, USS Enterprise (United Star Ship), emulava o USS (United States Ship) da marinha americana. Enterprise também pode ter uma leitura “ideológica”, já que pode ser entendido como “empreendimento”. Mas tudo isso são especulações que divertem a vasta comunidade de fãs da franquia, os “trekkers”.

Star Trek Picard, nova série da Amazon Prime

Algumas tecnologias de Star Trek, no entanto, são tão avançadas, que ainda estão por vir, ou talvez nunca existam: o caso mais eloquente é o do teletransporte, usado na série, na verdade, para baratear os custos de filmagem – bastava um efeito visual simples, retirar os atores de cena e postá-los num outro cenário. Com isso, já dispensavam a construção de cenas mais caras como transporte espacial, voos orbitais e aproximação planetária e pouso (embora tivessem a nave auxiliar Galileu, pouco usada). Também podiam economizar em paisagens planetárias. As poucas que apareciam eram pinturas ou então fotos modificadas, como de Brasília, recém-inaugurada, que com seu visual futurista se passou por um prédio de outro planeta. Quanto ao teletransporte, essa tecnologia é objeto de pesquisa de verdade (embora ainda improvável) de muitos cientistas, que conseguem “teletransportar” por enquanto apenas partículas, muito longe de fazer o mesmo com pessoas e objetos como em Star Trek. Mas os pesquisadores sempre citam o seriado em suas entrevistas, seja como forma de ilustrar seu trabalho ou porque, como alguns que assistiram a série na infância, passaram a vida estudando como recriar suas tecnologias ainda fictícias.

Comemorando 54 anos em 2020, Star Trek ganhou ao longo dos anos novas séries, a maioria disponíveis na Netflix, como Star Trek – A Nova Geração (sete temporadas), Star Trek – Deep Space Nine (sete temporadas), Star Trek – Voyager (sete temporadas), Star Trek – Enterprise (quatro temporadas) e duas temporadas de uma série clássica animada. Atualmente, a polêmica Star Trek – Discovery, um reboot da série anterior à clássica, caminha para sua terceira temporada e Star Trek – Picard, que continua anos depois de A Nova Geração, estrelada pelo capitão, agora almirante Jean-Luc Picard (Sir Patrick Stewart) espera a segunda. Há especulações para possíveis novas séries com o capitão Christopher Pike, que antecedeu Kirk no comando da Enterprise e da Sessão 31, todas derivadas de Discovery.

Nos quadrinhos e literatura, há décadas de revistas e livros sendo produzidos, mas o cinema contou com 13 longas metragens, baseados na série clássica ou na Nova Geração, além de três reboots chamados “linha Kelvin”. Especula-se que Quentin Tarantino gostaria de fazer a sua própria versão de Star Trek.

Star Trek é uma série que foi onde nenhuma série jamais esteve.

 “O espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!”

Narração da abertura da série clássica e de A Nova Geração

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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