Por Fernando Fontana

“No Japão, de acordo com a 14ª Pesquisa Anual de Fertilidade, dos solteiros na faixa etária entre 30 a 34 anos, 26,1% nunca tiveram nenhuma relação sexual, o que representa 2,09 milhões de virgens entre eles”

Apesar do nome, o Mangá Documentário “Virgem Depois dos 30” não é uma comédia no mesmo estilo de “O Virgem de 40 Anos” (2005), filme protagonizado por Steve Carell, pelo contrário, é um mergulho nas vidas de pessoas com sérios distúrbios psicológicos, causando transtornos para si próprios e para os demais.

Esqueça a virgindade, ela não é a doença, é o sintoma, e não é um problema em si. A questão é que não estamos falando de virgindade por opção, mas de uma incapacidade de se relacionar com pessoas, especialmente com o sexo oposto, causando grande sofrimento.

Ilustrado por Bargain Sakuraichi, trata-se de uma adaptação do livro publicado originalmente por Atsuhiko Nakamura, em 2016.

Página do Mangá “Virgem Depois dos 30”

Nakamura teve a ideia de escrever sobre o assunto, quando trabalhava na área de cuidados com idosos. O Japão é a nação que abriga mais idosos no mundo (26,3% da população possui mais de 65 anos), e falta mão de obra para cuidar deles. Como consequência, segundo o autor, boa parte dos virgens de meia idade, incapazes de atuar em outras áreas, acaba sendo escoada para o setor.

O comportamento de um deles (o primeiro dos virgens descritos no mangá) era tão nocivo, que diversos funcionários pediram demissão por não suportarem a convivência com o mesmo, levando o centro à beira da falência.

As histórias reais dos homens descritos por Nakamura, não se resumem a um único estereótipo; possuem escolaridade, renda e vícios diferentes, mas, em comum, apresentam comportamento e atitudes que os afastam das pessoas.

Estamos falando de homens adultos que gastam todo seu tempo livre e dinheiro restante em sua paixão por Idols (cantoras adolescentes, que podem ou não integrar um grupo de música), até indivíduos que trabalham em subempregos, e moram em um cubículo, onde passam as horas assistindo animes, não tem amigos ou namorada, e descuidam completamente de sua aparência, saúde e higiene pessoal (há casos mais severos em que os dentes apodrecem e caem por falta de escovação).

Em entrevista para o autor, um deles revela que não se preocupa mais com coisas como aposentadoria ou plano de saúde, e que, no futuro, consegue se enxergar vivendo na rua, como um indigente, e não há nada que leve o leitor a acreditar que a previsão deixará de se tornar uma realidade.

Isolados e sem perspectiva de mudança, muitos simplesmente se conformam com sua situação e aceitam que jamais irão se relacionar com uma mulher de verdade. Surge então a paixão por personagens bidimensionais, sejam elas de mangás ou animes; busca-se a mulher perfeita, com as características da personagem amada e também virgem, intocada, para que jamais haja comparação com outros homens.

Sakaguchi (nome fictício), personagem do Mangá “Virgem Depois dos 30”, 44 anos, cuidador de idosos e com comportamento extremamente agressivo.

Como mecanismo de defesa, embarcam em um mundo de fantasia, preferindo acreditar que estão nesta situação não por terem evidentes problemas de relacionamento, mas por escolha pessoal ou culpa dos demais. Alguns enxergam a si próprios como injustiçados, não tendo sua superioridade intelectual reconhecida pelos seus pares.

A sensação ao ler o mangá é um misto de raiva e pena, reforçada pela arte de Sakuraichi, que desenha os protagonistas com aspecto repulsivo, até mesmo com certa fixação por narizes escorrendo e flatulências.

Não é por acaso que ele os desenha dessa forma, trata-se de fazer com que o leitor os enxergue da mesma forma que boa parte da sociedade.

Com comportamento depressivo, automutilação e tentativas de suicídio, não se trata de uma leitura leve . O autor apresenta um problema real na sociedade japonesa, que é reforçado nas últimas páginas do último capítulo, com uma imagem que é um soco na boca do estômago e que te deixa com ânsia de vômito (sem exageros).

Publicado pela Editora Pipoca e Nanquim, com 244 páginas, capa cartão impressa com tinta especial e sobrecapa, marca-página e extras com textos complementares do autor, entra fácil como uma das melhores leituras deste ano.

_____________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, além de colaborar com o Canal Metalinguagem onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *