Alienígenas Também Traem – Capítulo 1

Meu nome é Lucca Carrara, e eu ganho a vida como detetive particular.

Soa mais glamoroso do que realmente é. Por mais de uma vez, eu, literalmente, tive que fuçar no lixo das pessoas, e tenho quase certeza de que o sobretudo amarelo do velho Dick Tracy nunca ficou fedendo à urina e carne podre.

As moscas, as moscas são um saco, eu odeio elas.

O que mais aparece por aqui são casos de adultério, é o carro chefe do meu negócio, é o que paga as contas no final do mês. Deus me livre viver em um mundo cheio de pessoas decentes e que honram as promessas feitas na frente do padre; eu morreria de fome.

Você tem vontade de chorar em casamentos, docinho?

Eu também, mas provavelmente por razões bem diferentes.

Duas coisas que eu aprendi neste ramo: dificilmente uma suspeita é só uma suspeita, e, homens são bem menos cuidadosos do que mulheres.

Ambos traem, esqueça esse papo furado de que homem trai porque não presta e mulher porque não recebe carinho, isso é besteira da grossa, conversa fiada inventada por alguma madame que foi pega no flagra com o professor de tênis.

Na maioria das vezes é a mesma coisa, uma mistura de tesão e escrotidão.

Pessoas querem transar, pessoas são escrotas, fim da história.

A diferença é que homens se acham espertos demais; sabe do que estou falando? Um bando de idiotas com o ego inflado até quase explodir, que estão tão ocupados pensando com a cabeça de baixo, que não se importam em ocultar o rastro. Porra, eles nem se tocam que existe um rastro.

Aquele teu amigo que ficou se gabando no vestiário porque traçou a nova secretária é aposta certa, vai acabar se entregando, e a esposa vai arrancar o couro dele no divórcio.

Não que a fidelidade tenha saído de moda, ela nunca esteve, mas também não precisa subir pelas paredes, existem exceções, pontos fora da curva, cabeça de bacalhau, gente honesta, fiel, tenho certeza de que você e sua companheira ou companheiro são assim, almas gêmeas, amor eterno, o pacote todo. Relaxe! Agora, se a cabeça estiver coçando, se é que me entende, para que ficar na dúvida? É só me procurar, o telefone está nas páginas amarelas. Discrição é meu segundo nome, e se houver mais alguém na jogada, eu vou descobrir.

Detetive Lucca Carrara (desenho por Wagner Kurts)

Veja o caso da senhora Alvarez, passando as últimas noites em claro, suspeitando do homem com quem divide a cama há anos, refém da dúvida, imaginando ele trocando carícias com a outra em um quarto de motel barato; veio até mim, olhos marejados, lenço na mão, eu conheço o tipo.

– Meu marido está me traindo, eu tenho certeza.

Ela é jovem, mas o corpo não colabora, alta, nariz aquilino, cabelos negros amarrados em coque, magra, sem peito, sem bunda, sem atrativos, uma tábua.

– Certeza é uma palavra forte – acendo o cigarro e jogo o isqueiro sobre a mesa – já o viu com outra?

– Não, ver, eu nunca vi; acho que perderia a cabeça, mas eu sei, a mulher sempre sabe. O que eu preciso é de provas, de uma confirmação, é por isso que estou aqui.

– Certo, vamos com calma, devem haver razões para a suspeita, algo que lhe chamou a atenção.

– Razões? Muitas, meu Deus, ele nem parece mais a mesma pessoa com quem me casei.

– Leve o tempo que precisar, conte-me os detalhes.

– Posso fumar também?

– Sinta-se à vontade – empurro o maço em sua direção, ela tira um cigarro, eu ofereço fogo, o isqueiro demora a acender, a fumaça toma conta do ambiente, a nicotina clareia minhas ideias.

– Eu havia parado – a mão que segura o cigarro treme de nervosismo – Jurei que nunca mais colocaria um na boca, porque, bom, porque essas coisas matam, mas depois que tudo começou, pensar nele com uma vagabunda qualquer, com aquela…desculpe, eu só quero que isso acabe.

– Uísque para acompanhar?

– Não, não, obrigado. O meu Jorge era a pessoa mais doce do mundo, carinhoso, gentil, simpático, diferente do meu ex-namorado, diferente dos outros caras com quem eu sai, pelo menos era isso que eu achava. Deus, como pude ser tão cega?

– O amor cega; o comportamento dele mudou?

– Muito; ele raramente chegava tarde em casa, nunca foi de frequentar festas ou bares, mas de uns tempos para cá começou a trabalhar até altas horas, pelo menos é o que tem dito, mas é péssimo mentiroso, e eu percebo que tem algo de errado. Semana passada chegou bêbado, trançando os pés, fedendo à cerveja.

– Mudança de comportamento é um indício, mas, por experiência própria, muita coisa pode fazer um cara afundar na bebida; ele pode estar tendo problemas no serviço, daí as horas extras. Tem muita gente desempregada lá fora, muita gente com a corda no pescoço; não estou afirmando que é isso, apenas que é possível, não queremos tirar conclusões precipitadas. Com o que seu marido trabalha?

– É advogado, divide um escritório com o sócio na Avenida Central.

– Advogado, certo – anoto e tento não demonstrar minha antipatia pela profissão – e em que ramo atua?

– Direito penal, com especialização em super-humanos.

Justiça para Super-Humanos

– Penal com especialização em super-humanos – apago o cigarro no cinzeiro e me recosto na cadeira – não é exatamente um trabalho entediante. Espera um minuto, Jorge Alvarez, é claro que me lembro dele; conheci na época em que trabalhava no DCS, era capaz de convencer um esquimó que geladeira é item de primeira necessidade.

– É ele, é meu marido.

– Interessante, lembro da vez em que ele soltou um sujeito que eu prendi.

– Isso é um problema?

– Não, claro que não; ele me deixou puto na época, mas acontece que o infeliz era inocente, armaram para o coitado, plantaram as evidências. Eu devia ter percebido, mas estava de cabeça cheia e jurava que o cara tinha culpa no cartório, uma das muitas decisões lamentáveis que tomei na vida.

– Jorge tem essa regra, só aceita defender quem ele acredita ser inocente.

– Bacana, o problema é que ele não é o único bom de papo, se visitar a cadeia vai descobrir que o lugar está coalhado de inocentes; quase não há culpados atrás das grades.

– Não, meu marido é bem criterioso quanto a isso; se houver qualquer dúvida quanto a inocência do cliente, ele abandona o caso na hora.

– Podemos começar por aí, talvez ele esteja enfrentando problemas com algum dos seus clientes, alguém que não gostou de ter seu caso rejeitado. O ramo que ele escolheu é perigoso, ter que lidar o tempo todo com gente que pode te matar com um espirro.

– Você acha que ele pode estar sendo ameaçado?

– Não acho nada, não ainda; além das horas extras e da bebida, mais alguma coisa mudou no comportamento?

– Sim, pequenas coisas, como, por exemplo, o celular, ele nunca colocou senha ou se preocupou com isso, nossa vida sempre foi um livro aberto, mas, agora, não larga do aparelho, e eu notei que ele sai de perto para atender algumas ligações.

Ela não está por perto, pode falar.

– Algo mais?

– Mais? Precisa de mais?

– Só estou tentando fazer meu trabalho.

– Eu não sei, ele parece mais frio, distante, e já faz um tempo que não me procura para, bom, você sabe, não me procura de forma mais íntima.

Aí está, o que foi que eu disse sobre homens? Eis aqui mais um fato, um garanhão que troca a esposa de 40 por duas de 20 dificilmente consegue dar conta do recado, já uma mulher de 40 pode se divertir por horas com dois garotões de 20, isso porque ela não precisa de um tempo para colocar o soldado de prontidão, entendeu? O marido da senhora Alvarez deve estar comendo um belo bife acebolado fora de casa, e não está deixando espaço para o feijão com arroz da patroa, é lógico que ela vai desconfiar.

– Senhora Alvarez, creio que já tenho o suficiente para começar. Vou precisar de uma fotografia do seu marido, algo recente, e que preencha este formulário.

– Formulário?

– Não se preocupe, não é nada demais, informações básicas, endereço de residência, do trabalho, horários, hobbies, melhores amigos, coisas que ajudam na investigação.

Ela não demora para preencher tudo e me entrega os papéis – aqui – ela diz – eu carrego uma foto nossa na bolsa, é do ano passado, ele não mudou muito desde então, pelo menos não fisicamente.

Eles estão na frente de um circo, ela está segurando um algodão doce e sorri, ele se esforça para mostrar os dentes, não parece a vontade, olhos e cabelos castanhos, baixo, barba, não é galã de novela, a cabeça parece meio desproporcional, calça jeans, camisa gola polo, cores discretas.

– Vejamos – checo as informações – acho que está tudo aqui, quarenta e dois anos, advogado, ensino superior completo, colecionador de selos, sério? O campo local de nascimento ficou em branco.

– Ah sim, o local onde ele nasceu – ela pigarreia antes de continuar, parece ainda mais desconfortável – temos que falar sobre isso.

– Se a senhora não souber, não tem problema, não é algo essencial.

– Não é isso, eu sei, mas o senhor não vai acreditar.

Eu levanto os olhos da papelada – não vou acreditar onde ele nasceu? Difícil – eu sorrio – já vi muita coisa nessa vida.

– O senhor vai achar que eu sou maluca.

– A senhora já deu uma olhada lá fora? – Aponto para a janela – tem gente entortando barras de ferro com os dentes e disparando raios pelo umbigo. Quem não ficou maluco é porque não entendeu o que está acontecendo.

– Marte – ela diz.

– Foi onde ele nasceu.

– O planeta Marte?

Senhorita Jéssica, pode mandar entrar o próximo cliente

– Sim, sim, mas, por favor, pelo menos deixa eu terminar de falar.

– Entendi – eu abro a gaveta e retiro o velho Jack e um copo, que encho com uma dose generosa de uísque.

– Você vai me mandar embora, não vai? – Ela pergunta com olhos suplicantes.

– Só um instante – respondo com o dedo em riste enquanto entorno metade do conteúdo do copo.

– O senhor acredita em mim? Vai me dar uma chance?

– Dona, honestamente falando – coloco o copo na mesa e acendo outro cigarro – teria que ser muito fodido das ideias para acreditar nessa história.

– Não, mas você disse que o mundo ficou maluco, você disse que…

– Eu pego o caso.

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Fernando Fontana é adulto e escritor amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, ambos com o detetive Lucca Carrara, protagonista deste conto e à venda na Loja deste site. Fernando também é colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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