Por Fernando Fontana

Quantos mortos acha que estão no fundo desse lago? Virá um dia em que ninguém poderá falar uma palavra sobre quantos corpos joguei nesse lago. É para isso que ser o poder.

Lorde Cho Hak-Ju

Desde 1968, quando George Romero lançou o seu “A Noite dos Mortos Vivos”, cinema e televisão usaram e abusaram dos comedores de carne humana para contar suas histórias de terror, incluindo a série “The Walking Dead”, que chega à sua 11ª temporada, e comédias como “Zumbilândia” (2009), que subverteu o gênero e transformou o apocalipse zumbi em algo genuinamente divertido (e não estou falando em uma daquelas sátiras caça-níquéis, o filme é bom e ainda tem Bill Murray no elenco).

Fato é que estava difícil encontrar algo novo e interessante sobre zumbis, até que, no ano passado, sem fazer muito alarde, surgiu “The Kingdom” na Netflix,, série sul-coreana que vem reforçar o bom momento pelo qual passam o cinema e a televisão daquele país (caso você tenha passado umas férias em Marte, recentemente o filme sul-coreano “Parasita” levou para casa uma enxurrada de prêmios, incluindo Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original).

Na trama, que se passa no século XVI, durante a dinastia Joseon, o rei da nação encontra-se muito doente, e, por ordens da jovem rainha Cho (Hye-Jun Kim), encontra-se incomunicável, até mesmo para o príncipe herdeiro, Lee Chang (Ju Ji-Hoon), que, impedido de visita-lo, começa a desconfiar do isolamento do pai.

Príncipe herdeiro, Lee Chang, da série “The Kingdom”, um homem honrado e decidido à retirar o povo da miséria imposta pelos nobres.

A rainha Cho é a segunda esposa do rei, e encontra-se grávida. Ela pertence ao Clã Haewon Cho, família mais poderosa do reino, comandada por seu pai, Lorde Cho Hak-Ju (Seung-yong Ryoo), principal ministro do rei e arquiteto de uma trama para manter o Clã no poder.

Se seu filho nascer antes do falecimento do rei, e for um menino, assume o trono quando tiver a idade certa, caso contrário, o príncipe Lee Chang torna-se o novo rei.

Aqui já encontramos duas diferenças entre “The Kingdom” e tantas outras obras do gênero. Primeiro, ele não se passa na época atual, mas em um reino onde as principais armas são a espada, a lança e o arco. Até existem armas de fogo, mas são mosquetes primitivos e em pouca quantidade.

Lorde Cho Hak-Ju (Seung-yong Ryoo), cujo objetivo é manter o poder a qualquer custo.

Segundo, a trama é de fazer inveja à Game of Thrones (quando ainda era bom, antes dos tenebrosos últimos episódios), com manobras políticas, reviravoltas, traições e luta pelo poder. Apesar das diferenças, persiste o fato de que o maior perigo não vem dos monstros, e sim dos humanos, que poderiam derrota-los, caso se unissem.

Assim como em “The Walking Dead”, a palavra zumbi não é utilizada, ao invés disso, os mortos vivos são chamados simplesmente de monstros, apropriado nome para quem tem como único objetivo devorar carne humana.

Normalmente, filmes e séries de zumbis não se preocupam em mostrar como tudo começou, mas a praga, como fica conhecida no reino, tem parte de sua origem revelada no primeiro episódio. O princípio de tudo aqui ganha relevância porque está fortemente atrelado à trama da luta pelo poder.

Com exceção dos nobres e dos oficiais de alta patente, não demora muito para percebermos que o povo passa fome, vive doente e em condições precárias, em grande parte, decorrente das guerras em que a nação se envolveu (a mais recente contra o Japão) e pela falta de ação do Clã Haewon Cho. A miséria da população acaba sendo indiretamente uma das causas do início da infestação de mortos vivos.

Os miseráveis, agora, mortos vivos, devoram a todos.

Se a fome atinge apenas os pobres, os monstros não se importam se devoram os ricos, os poderosos ou os miseráveis. A praga atinge todos por igual. Esse tipo de crítica social é marca registrada dos filmes de George Romero, onde os zumbis acabam se tornando uma metáfora de nossa sociedade (mortos se arrastando em um Shopping Center, no filme “Despertar dos Mortos”, por exemplo).

Se estamos falando de uma série de “zumbis”, é importante que os mortos vivos convençam, e nesse aspecto a maquiagem e a direção de arte não decepciona, olhos esbranquiçados, ensanguentados, sujos, correndo feito demônios sedentos por sangue, eles são um perigo real.

As atuações são ótimas, com destaque para Ju Ji-Hoon, que nos faz acreditar na honra e bondade do príncipe herdeiro, assim como seu desejo legítimo de aliviar o sofrimento do povo, e Seung-yong Ryoo, interpretando o patriarca do Clã Haewon Cho, que com seu olhar vazio, passa uma sensação constante de domínio da situação e ameaça.

Com sua atuação e auxiliado por um ótimo roteiro, Ryoo consegue nos fazer odiar seu personagem e querer que ele tenha um fim horrível (Joffrey Baratheon mandou lembranças).

Seo-bi (Doona Bae), uma médica que busca a cura para a infestação de mortos vivos.

Doona Bae interpreta Seo-bi, médica que se vê lançada no meio da praga, e busca incessantemente por sua cura. A personagem é um misto de delicadeza e coragem, que não são atiradas na cara do espectador, mas transmitidos através de um olhar ou de um gesto.

Kim Sang-ho é o fiel guarda do príncipe, Muyeong; a dinâmica e os diálogos entre estes personagens estão entre os melhores da série.

O restante do elenco não faz feio; com personagens bem desenvolvidos e motivações claras, você passa a se importar com o destino deles, sente a perda de alguns, comemora a derrota de outros. Séries e filmes que se mostram incapazes de gerar esse tipo de sentimento perdem o espectador logo nos primeiros episódios.

Esse, definitivamente não é o caso de “The Kingdom”, assim que termina um episódio, você imediatamente quer assistir o próximo, e a série não perde o fôlego em nenhum momento, nos levando até um final que não decepciona.

Com uma trama elaborada, ótimas atuações, e cenas de lutas bem coreografadas, os mortos vivos deixam de ser a atração principal, para ser mais um ingrediente da série, recomendada até mesmo para aqueles que já estavam saturados de obras com zumbis.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção”, e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem” (ambos disponíveis na loja deste site). Além disso também é colaborador do Canal Metalinguagem , onde escreve todas as semanas sobre quadrinhos e filmes antigos.

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