Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindos ao vale!

Eu sou Everton Nucci e, como prometido, hoje irei falar sobre a série Sense8, correção, sobre a  amada, inovadora, icônica, transcendental e mobilizadora de multidões virtuais, Sense8: A série de ficção da Netflix criada e produzida pelas Irmãs Lana e Lilly Wachowski e J. Michael Straczinsky.

Sense8 é uma daquelas séries que provocam um enorme estardalhaço em seu lançamento, e logo a internet toda não fala em outra coisa; foi assim com Lost, Heroes, Game of Thrones, e com Sense8. Confesso que não assisti a série logo de cara, na verdade, só comecei a primeira temporada quando a segunda já estava para sair (e olha que a segunda temporada sofreu com atrasos e problemas na produção). Na época, eu e meu namorado (hoje marido) devoramos a série em um único fim de semana, poucas coisas tinham mexido tanto comigo quanto essa série. E não é para menos, ela é deslumbrante, envolvente, viciante e cheia personagens ultra carismáticos.

O show acompanha a história de 8 pessoas de diferentes partes do mundo e possuidoras de diferentes vivências. São elas: Will (um policial americano), Capheus (um motorista Queniano), Riley (uma D.J. inglesa), Lito (um ator mexicano), Sun (uma executiva sul coreana), Wolfgang (um ladrão alemão), Nomi (uma hacker americana) e Kala (uma química indiana). Esse grupo de pessoas (o chamado cluster) cria um elo mental que permite a cada uma delas, conversar, ver, sentir e até mesmo assumir o corpo um do outro, tudo isso acompanhado de muito mistério, ação, dramas e um suspense de tirar o fôlego.

Superficialmente, o programa não aparenta ser nada além de uma produção muito bem feita com uma história cheia de fantasia, mas, eu digo que Sense8 é muito mais do que isso. Se olharmos mais de perto veremos que o programa se utiliza desse artifício ficcional para desenvolver de forma literal a questão da empatia (veja, se o conceito de empatia fala que devemos nos imaginar no lugar do outro para entender seus problemas, o programa vai além e coloca as personagens fisicamente no lugar do outro, é a maior elucidação artística possível do que é a empatia) dessa forma debate-se questões da moral humana e suas crenças limitantes do que é certo e errado, além de muitas outras indagações filosóficas. Nessa série vemos um policial vivenciando o dia a dia de um criminoso, vemos seus conceitos de quem é o bom e quem é o mal, o que é a lei e que é o crime, virarem de cabeça para baixo, o policial experimenta a verdadeira empatia pelo criminoso e percebe que a vida não é preto ou branco como ele sempre acreditou.

A representatividade LGBTQIA+ chega em peso na série, mostrando os dramas e as histórias de Nomi, uma mulher trans e lésbica que nunca obteve a compreensão e apoio da família (vale ressaltar que a atriz Jamie Clayton é uma mulher trans assim como sua personagem). No cluster também temos Lito, um ator mexicano famoso por interpretar protagonistas de filmes de ação, que sofre por não poder assumir seu romance com outro homem, ele vive o real temor de que isso causaria um escândalo na indústria, e assim acabaria por perder seus papéis típicos de personagens e atores heterossexuais. A bissexualidade também é abordada na série mas não quero estragar a surpresa nomeando os personagens envolvidos.

Will Gorski (interpretado por Brian J. Smith) em Sense8

Cada personagem tem sua própria história, seu próprio núcleo de coadjuvantes e seus próprios dramas, conflitos, interesses e dificuldades, além da história principal que une todos e move a série. Mas o mais interessante é realmente acompanhar a interação entre eles, a descoberta de mundos completamente diferentes, vivências e histórias que poderiam passar batido em outras circunstâncias, mas com as quais eles passam a se importar. Sim, ter sua vida ameaçada pela máfia é um enorme problema e talvez alguns poderiam dizer que é um problema muito maior do que não poder “sair do armário”, mas a partir do momento em que esses personagens se conectam eles passam a entender que sentimentos são sentimentos, independente das circunstâncias, eles passam a se importar com o próximo, passam a sentir o que o outro sente, passam a ter empatia.

Os produtores não poupam críticas sociais, mostrando uma mãe que prefere ter a filha catatônica do que aceitar sua identidade de gênero, mostrando o contraste entre o luxo e a riqueza de países de primeiro mundo, e a miséria e sofrimento de países do terceiro. Impossível ficar indiferente quando é mostrado que, enquanto uma mulher na extrema pobreza não consegue seus medicamentos para o tratamento da AIDS, a ganância da indústria farmacêutica ignora o sofrimento de milhares de pessoas como ela, para se focar apenas nos lucros. Na ficção da série o problema se resolve graças à empatia dos membros do cluster, na vida real, pessoas ainda morrem porque executivos se importam mais com dinheiro do que com vidas.

Ah, já ia me esquecendo, a série está cheia de cenas eróticas de tirar o fôlego. É sério, não assista com seus avós! Claro, eu já vi sexo sendo explorado em outras produções, geralmente de forma apelativa e gratuita, mas aqui a pegada é outra.

Sense8 não se limita às normas padrão, a série não veio para isso. Aqui, a série quer explorar a conexão entre diferentes pessoas e a produção faz isso exibindo uma enorme orgia entre as personagens principais. Nada gratuito e apenas com o intuito de obter audiência, nada de mau gosto, nada fora do contexto da série.

Sun (Interpretada por Bae Doona) em Sense8.

Eu sei que pode parecer difícil acreditar quando eu digo que uma cena de orgia inserida no meio da série não é um truque para chamar o público. Mas é a pura verdade, no conceito da série, os membros do cluster vivem todas as sensações um do outro, e o sexo não fica de fora. Quando a primeira cena de orgia acontece, você nota que aquelas personagens completamente diferentes e com sexualidades completamente diferentes podem se pôr no lugar do outro até mesmo nos momentos mais íntimos. Naquele momento, os personagens heterossexuais e cisgêneros podem vivenciar a experiência do sexo entre gays, lésbicas e transexuais, sem julgamentos e sem tabus. Naquele momento um mundo novo se abre na mente delas. Mais adiante um dos personagens homens descobre que sua namorada é bissexual, e quando ela pergunta se ele acha isso confuso ele só responde “Nem um pouco”.

O fato é que naquele momento da série, a reação do personagem não poderia ser mais verdadeira. Ele não diz isso da apenas da boca para fora, ele já havia vivenciado inúmeras experiências de vida (inclusive sexuais), podendo assim sentir na pele o que são as diferenças entre os seres humanos e como isso importa pouco, no fim das contas. Ele havia aprendido que o amor não tem rótulos, formas ou gêneros, pessoas são mais do que isso. Naquele momento ele não enxergou naquela mulher um estigma ligado à sua sexualidade, ele só enxergou alguém a quem amar.

Infelizmente, a série sofreu com problemas de produção e acabou cancelada após duas temporadas e um especial de natal, Sense8 era cara demais e a Netflix não estava disposta a continuar bancando. Felizmente o enorme barulho provocado pelos fãs e a hashtag #savesense8 fez com que a Netflix autorizasse a produção de mais um episódio especial. Um episódio de duas horas que encerra a série, um consolo para os fãs, como fica claro na última cena.

E se você quer conversar comigo sobre essa e outras séries, deixe seu comentário logo abaixo.

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Everton Nucci é dentre outras coisas, cinéfilo, ator, dramaturgo e membro da comunidade LGBTQIA+ ou para os íntimos “membro do Vale”.

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