Por Fernando Fontana

A ideia é original e uma excelente oportunidade de despertar a ira dos fanáticos religiosos; e se uma gigantesca corporação obtivesse o DNA presente no Santo Sudário, e, através dele, supostamente clonasse Jesus Cristo?

Espera, segura o seu crucifixo que tem mais, e se ela filmasse cada momento de sua vida, desde a infância, até a adolescência, e exibisse para o mundo inteiro em um Reality Show chamado J2, nos moldes do Show de Truman, com a maior audiência de todos os tempos.

Acredite se quiser, essa história existe, e saiu da mente insana de Sean Murphy, que escreveu e ilustrou cada uma de suas seis edições, lançadas em 2012 pelo selo Vertigo da DC Comics.

Um Messias Diferente em Punk Rock Jesus

Seguindo a tradição, J2 precisa de uma nova mãe para Cristo e contrata Gwen, uma jovem pura (leia-se virgem). E aqui, o milagre não necessita de intervenção divina para acontecer, nada de anjos ou espírito santo, a ciência se encarrega de fazer com que uma criança nasça sem que haja necessidade de sexo.

Murphy não demora para começar a alfinetar a hipocrisia de alguns (ênfase na palavra alguns) religiosos. Sendo possível alterar certas características do bebê através da manipulação do DNA, Slate, o executivo que toma as decisões, determina que a Dra. Epstein, geneticista responsável pelo projeto, dê ao bebê olhos azuis e características europeias.

Evidente que tendo nascido no Oriente Médio, Jesus Cristo não teria o físico de um modelo nórdico, mas sim das pessoas que habitam aquela região.

Slate não se importa, ele quer dar às pessoas o Cristo com o qual se acostumaram, e um salvador negro não seria tão bem recebido nos lares de seu público alvo.

Slate cultua outras divindades, audiência e dinheiro.

Não por acaso, o responsável pela segurança de Chris, Gwen e do projeto J2 como um todo, é Thomaz, um ex-integrante do IRA, o Exército Republicano Irlandês, um grupo terrorista católico cujo principal objetivo era separar a Irlanda do Norte do Reino Unido, e que utilizava como métodos, atentados à bomba e ataques com armas de fogo.

Devido à acontecimentos de seu passado, Thomaz, embora utilize de força bruta sempre que necessário, se recusa a matar, contrariando o que lhe foi ensinado pelo seu antigo grupo. Até que faz sentido, se parar para pensar, Jesus disse algo sobre dar a outra face e amar uns aos outros, mas nunca mencionou explodir o seu inimigo em mil pedacinhos com bombas caseiras.

Thomaz, ex integrante do IRA e responsável pela segurança do Projeto J2 em Punk Rock Jesus

A primeira metade da HQ se dedica a narrar o início de J2, a repercussão na mídia, o nascimento do menino e seu crescimento. Slate mantém o jovem e sua mãe presos e sob severa vigilância no complexo criado para o programa.

A educação dada para a criança inclui matemática, inglês, história americana, criacionismo e cura pela fé.

A intenção é agradar a audiência que deseja ver Cristo aprendendo criacionismo ao invés da famigerada teoria da evolução. Notem também que é ensinada história americana e não do mundo, já que os Estados Unidos são a nação escolhida por Deus.

Outra tática utilizada pelo programa é “fabricar milagres”, dando a entender que determinados acontecimentos “inexplicáveis” são fruto de intervenção divina, ou, mais precisamente, do jovem Chris. É claro que nenhum cientista foi chamado para averiguar a autenticidade destes fenômenos; J2 simplesmente diz que um milagre aconteceu e o público, ansioso por acreditar, compra a ideia.

Obviamente, crescer acreditando ser Cristo reencarnado, com a capacidade de multiplicar peixes e ressuscitar os mortos, não resulta em uma infância normal, nem tão pouco sadia.

Para complicar a situação, um grupo de religiosos intitulado “Novos Cristãos da América” considera a ideia de que Chris seja um clone de Cristo e que esta seja sua segunda vinda, uma blasfêmia, realizando sucessivos ataques às instalações do projeto e obrigando Thomaz a agir.

Baseados em suas crenças, dois grupos religiosos entram em confronto, o primeiro acreditando que Chris seja realmente Jesus Cristo reencarnado, e o segundo que ele seja uma blasfêmia.

O Punk e o Rock tardam a aparecer, mas quando chegam fazem um estrago na forma como o novo Cristo vê o mundo e a si mesmo.

Na segunda parte da história, Murphy leva Chris a duvidar de tudo aquilo que lhe foi ensinado, e, ao ter acesso ao conhecimento científico, outrora escondido por J2, revolta-se, abraça o Rock, a cultura Punk, torna-se vocalista de uma banda, declara-se ateu e parte em turnê.

Sim, Chris se torna ateu, o clone de Jesus Cristo deixa de acreditar em Jesus Cristo.

É uma mensagem ousada a que Sean Murphy quer passar, e, apesar de tentar vender seu peixe e sua crença em diversos momentos, é um erro acreditar que o seu alvo primário é a fé.

O roteirista mira sua crítica ácida ao fanatismo religioso e a seus efeitos nefastos, deixando a fé e a espiritualidade em uma espécie de campo neutro.

Personagens religiosos como Thomaz, Gwen e até, em determinado momento, a cética Dra. Epstein, são essencialmente boas pessoas, enquanto Slate, que como já foi mencionado, é um ateu que acredita apenas no dinheiro, é um manipulador e um mentiroso sem escrúpulos.

É o fanatismo e a manipulação da fé para ganhos pessoais, que Murphy condena com maior veemência nas páginas em preto e branco de Punk Rock Jesus.

Se você é um cético ou um religioso de mente aberta, que terminou de ler esse texto e não achou que essa HQ deveria ser censurada ou queimada em uma fogueira, vale a pena dar uma conferida.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, (ambos à venda na loja deste site), além de colaborar com o Canal Metalinguagem onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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