Conto: Obituário

Por: Fernando Thomazi

Prólogo
É possível medir o sofrimento de alguém que percebe a morte de outra pessoa? Baruch de
Spinoza, um célebre filósofo racionalista holandês do século XVII, nos sugere que sim. E ele mesmo nos oferece a fórmula… O quanto, em vida, uma pessoa nos alegrou, e o quão “intensamente” nos alegrou, é o quanto nos entristeceremos ao percebermos a morte dessa pessoa. Assim, quem alegra muito em vida, entristece muito quando morre. Por simetria, quem alegra pouco em vida, entristece pouco quando morre… E, por extensão, quem entristece outras pessoas em vida, fará a conta se inverter… Ou seja, alegrará, com sua
própria morte, as vítimas da tristeza, na mesma medida e com a mesma intensidade.

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Todas as manhãs, caminhando ao longo do trajeto para o trabalho, eu costumava parar em frente à placa de negro granito, exposta na parede do cemitério pelo lado de fora. Uma placa obituária, sobre a qual, diariamente, um novo cartaz anunciava, dentre outras informações correlatas e pertinentes, a identidade do falecido do dia. Um hábito que eu vinha mantendo ininterruptamente por décadas.

Em todas as vezes que observava a foto e o nome do novo morto, eu dedicava alguns segundos, às vezes minutos da minha já minguada existência, refletindo sobre a vida daquela humana personagem, doravante não mais protagonista do mundo. Me perguntando se aquela vida realmente valera a pena ser vivida. Quantas alegrias e tristezas teria ela colecionado em si mesma? E quantas outras teria ela oferecido ao mundo a fim de patrocinar ou sabotar aquelas outras vidas ao seu redor? E, ao final daquele dia fúnebre, quantas lágrimas aquele recém defunto conseguira derramar dos olhos de quem o percebeu morto?

Certamente, não as minhas! Jurei para mim mesmo nunca chorar a morte de alguém. Intuí ao longo da vida, desde muito cedo, é verdade, que, para atingir essa difícil e incerta pretensão, outra forma não havia se não esta: Eu não poderia criar vínculo afetivo
com ninguém. Nunca! Mas, manter distância de todos o quanto me fosse possível! Nenhum abraço ou mesmo um singelo aperto de mão! E em nenhuma circunstância! Uma distância afetiva mais do que física ou geográfica, é preciso dizer. Assim, de posse dessa estratégia para evitar um específico tipo de dor, a da alma, eu jamais sofreria pela morte de alguém, nem jamais derramaria sequer uma lágrima de tristeza. Jamais!


Até que um dia, igualmente uma manhã quase idêntica às anteriores, ao estacar em frente à mesma placa pétrea e obituária, defronte ao mesmo cemitério, este um insaciável receptáculo de talvez “mais do que meras carnes e ossos”, observei, estupefato, o cartaz anunciando a “minha própria morte”! Eu, que até então fora um funcionário estritamente pontual, desta vez, me atrasaria para o trabalho. Aliás, estático que me encontrava, eu demoraria muito tempo para sequer abandonar aquele funesto lugar. Afinal, eu estava ocupado demais em observar especialmente os semblantes dos transeuntes que eventualmente transitavam por ali, cruzando-me a frente. Indiferentes às informações ali constantes naquela pedra enlutada, pareciam pretender sequer registrá-las na memória, reservando espaço mental apenas para o que lhes conviesse ou fosse de
seus interesses.

Ao final daquele particular dia fúnebre, constatei, atingido por todas as tristezas funerais que
eu represara na alma em vida, que nenhuma lágrima foi derramada por nenhum daqueles apressados transeuntes, e, naquele remanescente instante, sequer “as minhas” me foram possíveis derramar, embora um desejo ardente e consumidor de fazê-lo parecesse aos poucos me matar pela segunda vez. De modo que, naquele dia, ninguém chorou a minha morte… NINGUÉM!!!

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