O Vale Nerd: A Autoridade mora no Vale

Por Everton Nucci

Olá, todo mundo, bem vindos ao vale!

Hoje venho falar de nostalgia e de quadrinhos, quadrinhos que antes mesmo de serem lançados já tinham sido relidos mil vezes.

Quando se fala de quadrinhos, imediatamente pensamos em Marvel e DC, mas lá nos longínquos anos 90 houve um movimento de contra-ataque à essas duas potências. Para explicar que movimento foi esse usarei minha técnica especial chamada #ResumoTosco: HQs como “Cavaleiro das trevas”, “Watchmen”, “Reino do Amanhã”, fazem com que quadrinistas alcancem o status de estrelas; quadrinistas pedem por mais dinheiro e liberdade criativa; quadrinistas saem das editoras e fundam seus próprios selos de quadrinhos, fim do #ResumoTosco.

Por mais absurda que a ideia soasse, ela até que funcionou, o mercado havia mudado, o consumidor não ia mais à banca apenas para comprar a nova HQ do “Batman” ou dos “X-Men”, ele queria a nova HQ escrita pelo “Frank Miller”, desenhada por “Todd McFarlane”, como quem ia ao cinema ver o novo filme do “Steven Spielberg” ou do “Silvester Stallone”. Nessa época surgiram editoras como “Image Comics” de “Rob Liefield”, “Todd McFarlane”, “Robert Kirkman” entre outros ou a “Wildstorm” de “Jim Lee”.

Spawn, personagem criado por Todd McFarlane

Para o bem ou para o mal, essas novas editoras redefiniram o rumo dos quadrinhos como mídia de entretenimento, a diagramação das páginas, as técnicas de coloração, os enquadramentos, tudo nesses quadrinhos era pensado para passar a sensação de ação, como se fossem verdadeiras obras cinematográficas – e dá-lhe ilustrações de páginas duplas entupidas de heróis em pose de batalha. Há muita controvérsia a respeito dessa era dos quadrinhos (um abraço pro querido “Rob Liefild”), mas o fato é que depois disso as coisas nunca mais foram as mesmas, obrigando à DC e a Marvel a se readequarem para continuarem relevantes.

Nessa época, surgiram personagens como “Spawn” que sobrevivem até hoje no imaginário popular e outros que não tiveram a mesma sorte, como os membros da equipe “WildC.A.T.s” e “Gen¹³”. O fato é que esses quadrinistas estavam dispostos a criar um nova linguagem e contar suas próprias histórias, mas não pareciam a se esforçar na busca por originalidade. Basta procurar por alguns desses personagens no Google para constatar o óbvio, são basicamente clones de personagens da DC e Marvel; veja só esse exemplo: Pegue o “Homem-Aranha” com uniforme negro simbionte; acrescente a origem, os poderes e as correntes do “Motoqueiro Fantasma”; para finalizar, coloque nele uma capa absurdamente exagerada; o que você tem? Você tem o “Spawn”, personagem que não por acaso foi criado por “Todd McFarlane” após sua saída da Marvel Comics onde, desenhou justamente o “Homem-Aranha” de uniforme negro. O youtuber “Pablo Peixoto” do canal “Quatro Coisas” definiu essas editoras da seguinte forma: você tinha super-equipes sempre formadas por um “Wolverine”, um “Coisa” e pelo menos uns três “Cable”. Mesmo assim, essa época criou uma joia bruta da qual eu, particularmente, gosto muito e que é o assunto dessa matéria.

Meia-Noite, membro da equipe “The Authority”

Nessa era de luz e sombras, em que os deuses eram fúteis e cruéis e maltratavam a humanidade (pegaram a referência?), surgiu uma super-equipe de anti-heróis que se auto proclamava como uma “autoridade superior”. A equipe é “The Authority”, uma criação de “Warren Ellis” (“Transmetropolitan”, “Planetary”, “R.E.D.”, “Castlevania”) formada por ex membros da extinta equipe “Stormwatch” (um grupo de super-heróis ligados à ONU). Em algum momento esses heróis concluíram o óbvio: eles eram super-seres e não estavam no mesmo patamar dos humanos normais, portanto, não precisavam obedecer à ninguém.

Composta por “Jenny Sparks/Jenny Quantum”, “Apolo”, “Meia Noite”, “Jack Hawksmoor”, “Doutor”, “Engenheira” e “Swift” e habitando “A barca”, um ser vivo que servia como uma espécie de base/nave com um peculiar formato de focinho de cachorro, a equipe trazia consigo uma nova filosofia de trabalho, uma filosofia de autonomia e independência, eles estavam acima da lei, eles eram “uma autoridade superior”. “A Barca” não se fixava em nenhum local do planeta, visto que a equipe sempre frisou o fato de que não respondia a nenhuma nação, em vez disso,  ela viajava por dimensões paralelas no ponto do multiverso que seria correspondente à órbita da terra. O objetivo da super-equipe era básico: mudar o mundo. Eles simplesmente romperam com todos os paradigmas dos quadrinhos, afinal, vida normal e identidade secreta não fazem mais sentido quando você voa, se teletransporta, dispara raios com os olhos e etc, em vez de tentar se enquadrar à sociedade, eles resolveram mudá-la.

É nesse contexto que surge um dos meus casais preferidos das histórias em quadrinhos: “Apolo” e “Meia Noite”. Apolo é um ser que voa, dispara raios com os olhos, é invulnerável, super forte e obtém seus poderes da absorção de luz solar, Meia Noite é um ser mais humano, exceto pelo fato de ter um raciocínio estratégico e habilidade de luta (por meio de implantes cerebrais) muito além da capacidade de qualquer um, destaca-se na personagem o gosto por roupa pretas de couro e a constante cara amarrada (a frase “Você não pode vencer! Antes mesmo dessa luta começar, ela já foi repassada na minha mente mil vezes” é repetida por ele a cada confronto). A mim parece muito óbvio a tentativa de fazer piada com “Superman” e “Batman”, colocando-os como um casal gay (a propósito, se você quiser um estudo científico de como funcionaria o sexo anal entre Batman e Superman eu recomendo o livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no país da Corrupção” de um autor cujo nome não me recordo nesse momento), piada ou não, o casal acaba funcionando muito bem.

O casal “Apolo” e “Meia Noite”

O relacionamento público entre eles é só uma das decisões óbvias que esses personagens tomam por conta de terem super-poderes, tendo em vista que eles não precisam se preocupar com coisas como homofobia e regras heteronormativas de comportamento social; eles fazem as próprias regras e quem não gostar que se veja com eles.

Em 2009 muito se falou sobre o primeiro beijo gay das histórias em quadrinhos, que teria ocorrido entre os personagens “Shatterstar” e “Rictor”, que ninguém faz ideia de quem sejam (brincadeira, são personagens do “X-Factor”), quando eu ouvi falar dessa história, só uma coisa me veio à mente: E o “Apolo” e “Meia Noite”? Afinal em 2002 eles já haviam se casado, com direito a Meia Noite usando uniforme de couro branco, beijo apaixonado e tudo (e se bem me lembro, essa não foi a primeira vez em que eles se beijaram na HQ). Por isso eu pergunto: de onde saiu essa história de primeiro beijo gay das HQs? Seria desinformação? Ignorância? Amnésia? Fica a dúvida!

A HQ era quase sempre composta por arcos de quatro edições, com alguns raros “one shot” entre elas. Os primeiros arcos foram escritos pelo próprio Wellis, que passou o bastão para “Mark Millar” (“Guerra Civil”, “Kick-Ass”, “Kingsman: Serviço Secreto”) e assim seguiu. Foi no arco escrito por Millar que aconteceu o casamento entre os dois heróis, além disso o casal ainda adotou a heroína “Jenny Quantum”, atitude que fazia todo sentido, já que eles eram o único casal da equipe. Interessante ressaltar que nada disso é inserido de forma a criar alarde, gerar polêmicas ou ganhar a mídia, mas sim com muita naturalidade. “Apolo” e “Meia Noite” não são o casal gay da equipe, eles são apenas o casal da equipe, os outros membros estavam mais ocupados em aproveitar seu status de “super” para curtir a vida, as festas na Barca eram frequentes, com muito álcool e sexo casual (na verdade, um dos personagens era viciado em heroína). Parece um contra-senso que o único casal tradicional na equipe seja composto por dois homens? Apenas se você estiver preso a paradigmas antiquados!

Meia-Noite e Apolo, casados

“The Authority” era uma equipe integrada por uma mulher que se veste com uma bandeira, uma outra com asas de gavião, outra com o corpo todo prateado, um “deus”, um lutador soturno, um feiticeiro que manipula a realidade, e um cara descalço vestido de terno que conversa com as cidades (???). A “inspiração” é tão óbvia que fica até cômico à primeira vista, a sensação é de que você já viu aquelas pessoas em algum lugar, exceto pelo fato de que a história não se encaixa, as atitudes e o comportamento não são o que você espera. Sabe o que eu disse sobre eles serem clones de “Superman” e “Batman”? É só a primeira impressão, ao contrário do escoteiro da DC, “Apolo” não exita em assassinar dúzias de soldados inimigos com apenas uma rajada de sua visão de calor, diferente do cavaleiro das trevas, “Meia Noite” não está preso a um rígido código de conduta que o proíbe de tocar em armas (na verdade, certa edição ele joga “A Barca” pra cima de uma base inimiga, matando todos os que se encontravam lá). Dessa forma, se formos analisar os estereótipos dos filmes de ação, o casal gay é mais “machão” do que suas versões originais.

As histórias, como eu já disse, eram focadas em ação e mais ação, as ameaças eram sempre em escala global, bandidos não matavam pessoas, eles destruíam cidades inteiras e estavam sempre criando situações limite. O que mais me agrada em “The Authority” é o modo como eles tomavam decisões difíceis, coisas do tipo “- Se dispararmos na nave inimiga agora, a explosão vai destruir a cidade abaixo dela! – Mas se não dispararmos a Nave vai destruir toda a vida humana!”. No fim das contas não ocorria um “Deus Ex Machina” que resolvia tudo e evitava a decisão difícil, eles agiam, disparavam e destruíam a cidade para salvar a terra. Ninguém dizia que era a atitude certa, que foi a decisão correta, volta e meia eles até se questionavam, mas preferiam não pensar a respeito pois não queriam peso na consciência. É claro que havia ali uma certa estratégia comercial, afinal a DC estava matando o “Superman” por que o mercado não queria mais heróis bonzinhos, mas, na minha opinião, isso não tira o mérito da obra. “The Authority” pode parecer apenas uma HQ com heróis genéricos, clonados de outras editoras, com histórias cheias de ação, drogas, sangue, violência, gore, e comportamentos reprováveis, apenas porque o politicamente incorreto fazia mais sucesso na época, mas não se engane, a HQ é uma obra cheia de coragem, criatividade e críticas sociais; há um arco em que os heróis acolhem todos os refugiados de um país ditador dentro da barca; outro em que eles lutam contra um líder de uma seita religiosa que usa a fé das pessoas como fonte de poder psiônico para se tornar praticamente uma divindade; uma história em que o vilão simplesmente se mata ao se tornar onisciente e sentir o sofrimento que causou às pessoas; ainda uma outra em que o vilão é um engenheiro genético tão brilhante que os super-heróis decidem recrutá-lo para a equipe em vez de matá-lo, pois notam que seu conhecimento seria muito útil à sociedade, se bem usado; são histórias cheias de camadas, inspiradas, controversas e que valem muito a pena.

Hoje em dia a equipe não existe mais, os direitos de seus personagens foram adquiridos pela DC-Warner e seus personagens foram integrados ao panteão da “Liga da Justiça”. A última coisa que soube foi que “Apolo” e “Meia Noite” haviam se divorciado (típico). Para concluir, deixo uma menção honrosa à animação “Superman vs A elite” na qual a DC clona os personagens de “The Authority” e o universo da metalinguagem entra em colapso.

E se você quiser conversar comigo sobre as HQS dos anos 90, compartilhar dicas de outras boas obras advindas dessa época deixe seu comentário logo abaixo.

E dica do dia é a história “Behemoth”, o número 5 da fase da HQ denominada “Volume 2”, é uma “one shot” impressionante que mostra perfeitamente o tipo de decisão difícil com a qual equipe é obrigada a lidar e é sem dúvida a coisa mais chocante que eu já li em um quadrinho, superando até mesmo o clássico “A Piada Mortal”.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, marvete sem noção,  nintendista sem razão e Queer por autodefinição.

3 Comments

  1. Julie Any disse:

    Everton, você provavelmente já leu turma da Mônica…Se sim, qual era seus personagens favoritos. Minha preferida era a Tina 😍

    • Everton Nucci disse:

      Olá Julie, obrigado por acessar o site. Continue lendo nossas matérias.
      Eu passei a infância toda lendo os gibis da turma da Mônica, provavelmente foi assim que começou meu amor por quadrinhos.
      Meu personagem favorito sempre foi o Cebolinha. Eu também adorava as histórias do Chico Bento, principalmente o Zé Lelé, e as historinhas do Bidu e do Horácio.
      Não sei se você sabe, mas a Tina tem um amigo gay chamado Caio, nas historinhas recentes, e o próprio Maurício de Souza tem um filho gay, filho esse que inspirou o personagem Nimbus. Quem sabe isso não vira pauta aqui?

  2. […] Posso afirmar que a própria Netflix tinha consciência do fato de que não poderia errar. Tanto que optou por lançar a primeira temporada com apenas quatro episódios, e usar como termômetro de público para descobrir se deveria continuar a investir na série ou não. O resultado foi avassalador, sucesso de público e de crítica e imediatos pedidos por mais episódios. A série é uma criação de “Warren Ellis” (de quem eu já falei na matéria sobre “The Authority”, que você pode conferir aqui: O Vale Nerd: A Autoridade mora no Vale. […]

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