Justiceiro: O Pelotão

Por Fernando Fontana

O Justiceiro parece ter sido criado sob medida para o estilo de Garth Ennis (“Preacher”, “The Boys”); a melhor fase do personagem foi quando o irlandês esteve no comando dos seus roteiros.

Em 2004, na série “Justiceiro: Nascido para Matar (Born, no original)”, Ennis nos mostrou Frank Castle no Vietnã, quando ainda não era o caçador e assassino de criminosos com a caveira branca no peito. Apesar disso, Frank já mostrava sinais evidentes do que viria a ser no futuro, já havia pego gosto pela guerra, e matava não apenas os inimigos, mas eliminava friamente soldados e oficiais aliados que mostrassem um comportamento moralmente inaceitável ou que colocassem em risco sua missão.

Ao final de “Nascido para Matar”, a conclusão óbvia é que o personagem não enlouqueceu quando sua família foi assassinada na sua frente, ele já era um barril de pólvora prestes a explodir, os assassinos de sua esposa e filhos foram os responsáveis pela fagulha que mandou tudo pelos ares.

No final de 2017 Ennis revisitou o Vietnã, desta vez, revelando o que aconteceu nos primeiros dias de Castle na guerra.

É justo afirmar que o nome mais correto para esta minissérie seria “Frank Castle: O pelotão”, pois, aqui, de fato, temos muito pouco do justiceiro.

Tenente Frank Castle, primeiro dia no Vietnã

A história começa na época atual, com um escritor querendo saber de quatro fuzileiros do pelotão que foi comandado pelo então tenente Frank Castle, como foram os seus primeiros dias e como ele era como pessoa e líder no campo de batalha.

Antes mesmo de entrevistar os combatentes aposentados, o escritor já havia entrevistado o coronel Norte Vietnamita Letrong Giap, que comandou tropas contra Castle em mais de uma oportunidade.

Ponto para Ennis que nos dá duas perspectivas do mesmo conflito, a dos norte-americanos, e a dos norte-vietnamitas.

Uma das características marcantes do Coronel Giap é o realismo diante do inimigo que está enfrentando. Ele sabe que luta contra a maior potência bélica do planeta, com recursos muito superiores aos de sua nação. Quando um de seus comandados chama os norte-americanos de covardes por insistirem nos bombardeios ao invés de um confronto direto, Giap o questiona:

“Então, se tivéssemos uma força aérea dessas à nossa disposição, sua recomendação aos nossos generais seria de que deixássemos as aeronaves no solo”?

Coronel Letrong Giap
O pelotão comandado pelo tenente Castle em um pântano no Vietnã

Para o Coronel, o segredo da vitória residia nos próprios Estados Unidos e na falta de apoio de seu povo ao confronto. Podemos ver isso quando ele interroga um oficial norte-americano que chegou no Vietnã há pouco tempo. Seu maior interesse não é no posicionamento ou na moral das tropas, mas na motivação da população em continuar o conflito.

Nenhum presidente ou partido político pode persistir indefinidamente em um conflito pouco popular e com objetivos que não estejam claramente definidos, ainda mais com a contagem dos soldados mortos aumentando a cada dia.

E por falar em objetivos pouco claros, vemos pouco do justiceiro, mas uma de suas características está presente, a obstinação em concluir a missão e proteger a vida de seus subordinados.

Suas ações sempre visam a redução do número de baixas, sem se preocupar com heroísmo ou em agradar seus superiores:

“Ninguém me explicou o que estamos fazendo aqui. Não de um jeito que faça sentido, pelo menos. Eu entendo os objetivos declarados, mas eles não batem nem um pouco com a realidade…mas eu sou um oficial. Responsável pelo quarto pelotão. Então o único objetivo que faz sentido para mim é levar todos de volta para casa, vivos.

Frank Castle

Se por um lado, a supremacia aérea e o poder de fogo norte-americano é destacado, os sérios problemas de equipamento e, de comportamento das tropas recebem atenção.

Destaque para os fuzis M16, distribuídos para as tropas norte-americanas e que travavam com assustadora frequência, principalmente durante a chuva e em contato com a lama, algo bastante frequente nas selvas do Vietnã. Essa característica potencialmente letal para os soldados que dependiam deles para responder ao fogo inimigo, rende cenas tensas e uma decisão inusitada do tenente Castle.

A violência, marca registrada de Ennis, está presente na história, e na arte do croata Goran Parlov

Além das M16 defeituosas, faziam parte do dia a dia dos soldados no Vietnã, também abordado nas páginas da HQ, o uso de drogas, o suborno e o mercado negro de equipamentos.

A maioria dos soldados norte-americanos queria apenas uma coisa, encerrar o seu período de serviço na guerra e voltar para a casa, embora, a maioria, tenha retornado com sequelas físicas e/ou psicológicas.

Em “O Pelotão”, Garth Ennis fez a lição de casa, com inúmeras referências às batalhas e acontecimentos da guerra, entregando uma história sobre um tenente Castle que, apesar de suas habilidades, reconhece sua falta de experiência e tenta fazer o melhor para levar seus homens de volta para casa com vida.

O escritor também cria antagonistas com personalidade e motivações bem definidas, que só melhoram a história.

Recomendada para quem gosta de histórias de guerra, do Justiceiro e de Garth Ennis (embora o segundo apareça pouco e o terceiro esteja mais contido).

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”. Também é colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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