Nemo: A Insustentável Invisibilidade da Ficção Científica.

Duna: O Livro e o Mundo

Por Sidemar de Castro

Considerado um dos maiores clássicos da ficção científica literária, cruzando ecologia, biologia, história e religião, livro foi adaptado para outras mídias.

Completando 55 anos em 2020, Duna é o primeiro livro da série escrita pelo americano Frank Herbert entre 1965 e 1985. O livro foi relançado recentemente pela editora paulista Aleph, que também republicou todos os outros cinco volumes escritos pelo autor. Ganhador de vários prêmios literários do gênero, como o Hugo e o Nebula, Duna vendeu milhões de exemplares, adaptado em música, quadrinhos, games e filmes para cinema e TV. Atualmente, a série literária continua através de seu filho Brian Herbert e de Kevin J. Anderson, que se basearam nas anotações e conceitos deixados por Frank Herbert para expandir seu universo fantástico e original.

O Livro

Duna é o apelido do árido planeta Arrakis, parte distante de um império galáctico a mais de 10 mil anos no futuro, colonizado por humanos adaptados a diversos ambientes. Coberto por um vasto deserto em que vivem os Vermes de Areia (aparentemente, as únicas criaturas alienígenas encontradas nesse Universo que parece ser povoado, basicamente, por humanos, mesmo que alterados, descendentes de terrestres). gigantescas criaturas que produzem a “melange”, uma espécie de tempero ou especiaria viciante que impregna todo alimento e a pouca água existente no planeta, basicamente concentradas nos polos. A melange tem o poder de ativar visões do futuro, o que a torna fundamental aos pilotos espaciais, que utilizam a droga para evitar desastres ou acidentes durante suas viagens ao longo do vasto império galáctico.

Capa do Livro Duna, Editora Aleph

Arrakis também é habitado por um povo denominado Fremen (corruptela do inglês free men, “homens livres”), um povo claramente inspirado em árabes e judeus. Eles vivem sob rígidas regras que incluem de trajes destiladores que recolhem todos os líquidos corporais e os protegem do ambiente seco e quente a códigos de conduta e sobrevivência no deserto. A própria água do corpo não pertence à pessoa, mas sim à sua tribo; quando ela morre, sua água (o corpo humano tem cerca de 78% de água) se torna bem comum. Possuem um duro código de leis e tradições de guerra e combate, desprezo pelo domínio imperial e uma religião em que aguardam a chegada de um Messias, que trará água livre e corrente, chuva, ao árido Duna. São guerreiros formidáveis e desde a adolescência um verdadeiro fremen tem de aprender a “cavalgar” um Verme de Areia, pelos quais tem respeito, temor e veneração míticos.

Apesar de toda tecnologia espacial, o Império concebido por Herbert é dividido em planetas controlados com estrutura feudal por Grandes Casas em guerra pela posse dos planetas e recursos, além de ordens religioso-científicas e megacorporações de transporte e comércio. Num perigoso jogo político, Por ordem do imperador, Arrakis passa do controle dos pervertidos Harkonnens, do sombrio planeta Giedi Prime, para a Casa Atreides, do aprazível Caladan, lar do Duque Leto, chamado o “Lorde Vermelho”, por defender mudanças nas rígidas estruturas sociais do império, o que o torna um perigo. Mesmo sabendo que se trata de uma armadilha acertada entre o Barão Harkonnen e o Imperador Padishah, o duque transfere-se com exército e família para a capital de Arrakis. O filho de 16 anos, Paul Atreides, gerado por sua mãe, Lady Jessica, através de uma escolha genética proibida por sua ordem, a poderosa instituição Bene Gesserit, formada por mulheres que controlam a procriação humana, pode ser, vista por elas, tanto como uma Abominação, quanto pelos fremens de Duna, como o esperado Messias que salvará o planeta deserto. Presos na armadilha política do império, os Atreides esperam firmar uma aliança com os fremens, formidáveis guerreiros que mantém o controle da Planície Funerária, o deserto profundo de Arrakis, onde vivem os Vermes de Areia e, dessa maneira. enfrentar o poder reunido dos Harkonnens e dos Sardaukar, a elite dos soldados do imperador. Entretanto, os Atreides são derrotados e sobrevivem apenas poucos deles, entre os quais Paul e sua mãe, recolhidos por uma tribo fremen. Entre eles, a melange faz com que Paul veja o futuro e saiba como dominar o complexo sistema cultural e religioso do império, tomando posse de Duna, unindo como o Muad’Dib, o Profeta, todas as tribos e clãs fremen e controlando a produção da melange. Quem controla o fluxo da especiaria, controla o império.

Duna de Jodorowsky, filme que nunca aconteceu.

O Mundo de Duna

O ambiente de Duna é notável por não possuir computadores – algo impensável hoje em dia, já que a religião do Império proíbe o uso de máquinas pensantes temendo que estas possam destruir a humanidade, um medo externado por Stephen Hawking anos atrás e por filmes posteriores como Matrix e Exterminador do futuro. Em seu lugar existem Mentats, humanos que usam as mentes como computadores, além de gholas, clones de gerações de guerreiros experientes, produzidos pelos Bene Tleilaxu, rivais das Bene Gesserit.

Duna de David Lynch

O universo de Duna é rico e complexo, com seus vários e exóticos mundos, corporações poderosas e cheias de intrigas, como a do Transporte Espacial e a do Comércio, guildas que monopolizam suas áreas. Prevendo a complexidade de cada ação projeta para um futuro de milênios à frente, Paul Atreides, o Messias de Duna, planeja e controla todo o destino da raça humana e do império galáctico. Nos livros subsequentes, novas gerações de descendentes do profeta e as mudanças radicais da civilização de Duna e o império vão sendo apresentadas em O Messias de Duna (1969), em que Paul chega à velhice e toma decisões que impactarão na sua própria vida e de seus filhos; Os Filhos de Duna (1976), em que o casal de gêmeos filhos de Paul enfrenta uma tentativa de golpe da antiga Casa Imperial; O Imperador-deus de Duna (1981), em que Leto II, filho de Paul, garante uma longa paz e prosperidade no império, mas à custa da própria humanidade; Os Hereges de Duna (1983), girando em torno das Bene Gesserit, milhares de anos depois; e As Herdeiras de Duna (1985), finalizando a série no conflito entre as irmandades do império. Herbert tinha iniciado o sétimo volume quando faleceu, em 1986. Posteriormente, seu filho Brian Herbert, em parceria com o escritor Kevin J. Anderson escreveu três trilogias de prequelas de Duna. Outros livros devem expandir esse universo.

Os Filmes

Após uma fracassada tentativa de filmar o livro ainda nos anos 70 pelo lendário cineasta e quadrinista Jodorovsky, que chamou desenhistas como Moebius para criar o visual dos personagens; conta-se que George Lucas teria se inspirado em boa parte desse material, que circulou entre as produtoras de cinema, para criar seu Star Wars de 1977. Até que, em 1984, Duna foi finalmente dirigido por David Lynch, diretor de Twin Peaks. Quase tão longo quanto o livro, o filme foi editado pelos produtores, teve inúmeros cortes a ponto de o diretor rejeitar uma versão posterior e acabou não sendo o sucesso esperado. Em 2000, o Canal SyFy recriou a obra de Frank Herbert como uma minissérie, mais fiel ao livro. Em 2013, foi produzida pelo SyFy a continuação, Childrens of Dune. Novas séries estão sendo planejadas para o futuro, como derivadas do próximo longo do cinema, que ficará a cargo de Denis Villeneuve (de A Chegada e Blade Runner 2049).

Duna foi um dos primeiros livros de ficção científica a lidar com conceitos ecológicos de ordem planetária, além de discussões religiosas, filosóficas e psicológicas. Como obra de ficção científica, antecipa fatores como a transformação do meio ambiente e as populações, a demanda crescente por recursos naturais (há um claro paralelo econômico entre a melange e o petróleo, como seria visto durante a crise dos anos 70), assim como a transformação social através da religião e os riscos do fanatismo religioso – exatamente como vemos hoje.

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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