O Vale Nerd: A Não Tão Moderna Vida de Rocko

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindos ao vale!

Eu sou Everton Nucci, nerd, geek, queer e nostálgico. E hoje contarei um fato curioso ocorrido por esses dias. Estava eu zapeando na Netflix, filtrando filmes com temática LGBTQIA+ e começando a ler os títulos (ritual padrão de Netflix: uma hora e meia escolhendo o que assistir, quinze minutos assistindo e o restante do tempo dormindo, nada mais normal!). Eis que algo me chama a atenção, estava ali na lista de filmes o especial da Netflix para “A vida moderna de Rocko”; a descoberta despertou em mim um MIX de emoções, um pouco de nostalgia pelo desenho animado dos anos 90, um pouco de desprezo pela falta de ideias novas que assola Hollywood, um pouco de confusão por não saber se aquele filme deveria estar mesmo entre os títulos do vale, e por fim um pouco de curiosidade (na verdade muita curiosidade). Não resisti e comecei a assistir.

O filme foi uma grata surpresa, confesso que não era realmente fã da série, mesmo porque eu costumava assistir mais aos programas da Globo do que aos do SBT, mas gostava de Rocko. “A vida moderna de Rocko” era uma daquelas animações bizarras e impressionistas dos anos 90 como “A vaca e o frango”, “CatDog”, “Ren & Stimpy”, “O laboratório de Dexter”, ou seja, tudo muito caricato, exagerado, escatológico, frenético e surreal. Saudades dos anos 90! “Tiny Toon”, “Animaniacs”, “X-men”, “Batman”, “Doug”, “Capitão Planeta”, “Taz Mania”, “Onde está Wally?”… também te deu saudades não foi? Pois então, é exatamente sobre essa saudade que o filme da Netflix se trata. 

Nickelodeon anos 90

Por mais que essas animações fossem feitas diretamente para o público infantil, existia algo ali que os mais velhos podiam captar, algumas piadas mais maliciosas, um subtexto mais complexo e até, alguma crítica social. Logo em sua abertura, o desenho mostrava seu protagonista sendo jogado direto da bolsa da mãe (ele é um canguru) para a escola onde um enorme livro intitulado “Conhecimento” é literalmente enfiado dentro de sua cabeça apenas para ser imediatamente expulso para o mundo real. Pois é, havia sim uma crítica social ali, sutil em conceito e exagerada em animação.

O filme da Netflix, “A Vida Moderna de Rocko: Volta ao Lar”, começa com a casa de Rocko vagando pelo espaço há vinte anos transpassada por um foguete, dentro dela estão Rocko e seus companheiros: Vacão, Felizberto e seu cão Spunky (não entendo a premissa pois, como disse, não era fã e não sei se isso é uma referência ao último episódio da série). No espaço, o único passatempo do quarteto é assistir diariamente ao VHS do programa favorito de Rocko, o desenho “Os cabeçudos”, depois dessa breve introdução, a casa obviamente cai na terra exatamente no local de seu antigo terreno.

Nesse momento preciso fazer um adendo, até então a animação não havia me fisgado, tudo parecia muito genérico e começava a me despertar a sensação de que a minha época para assistir àquele show já havia passado, mas eis que a história realmente começa. Rocko e seus companheiros se deparam com uma cidade completamente diferente da que haviam deixado “Não estamos mais nos anos 90” ele declara, e então ressurgem as críticas sociais.

“O Século XXI é assustador!”

Com um humor muito ácido e exagerado (que eu insisto em chamar de impressionista) o filme começa a satirizar a sociedade atual, com seus drones, tvs de tela plana, suas franquias que se alastram como praga em cada esquina, seus celulares cada vez mais efêmeros, seus conglomerados cada vez maiores (Disney estamos de olho!) e sua automatização destruidora de empregos.

Nesse novo mundo, uma empresa bilionária pode ir à falência do dia para a noite, assim como do dia para a noite um completo desconhecido pode se tornar uma web celebridade e, da mesma forma como ela é amada pelo público pode passar a ser odiada. “O século XXI é assustador” decreta Rocko, de fato. O excesso de informações, opções, pressões, cobranças, doenças, e de pessoas tem transformado a ansiedade/depressão no mal do século e novas doenças ainda surgem: “síndrome de burnout”, “fear of missing out”. São tantas mudanças de paradigma que alguns simplesmente não conseguem se adaptar, Rocko sente esse efeito instantaneamente e surta de uma vez por todas quando descobre que seu programa favorito, o desenho dos cabeçudos, foi cancelado. 

O canguru resolve partir então para uma jornada pessoal, ele vai trazer seu programa de volta para a TV, nem que seja para um especial comemorativo. Olha se não temos mais uma crítica social misturada com humor autodepreciativo? A indústria está cada vez mais investindo em remakes, reboots, revivals, muitos feitos de forma preguiçosa, sem alma, sem intuito artístico, apenas para ganhar um troco em cima da nostalgia dos fãs. Contratar animadores e roteiristas? De jeito nenhum, isso sai caro, vamos usar os computadores e fazer tudo no automático! E pensando bem, essa “nova” onda não seria porque as pessoas estão cada vez mais apegadas ao passado? Não seria porque o século XXI é assustador demais?

Rachel, personagem Trans de “A Vida Moderna de Rocko, De Volta ao Lar”

Tudo muito bem pensado, interessante e filosófico, mas e o vale? Onde está? Teria sido um erro do estagiário pôr esse filme animado entre as produções de cunho LGBTQIA+? Pois é, quando eu não estava mais esperando, eis que uma “nova” personagem se apresenta: “Rachel”, uma das personagens da série original agora se reconhece como uma mulher trans. Muito surpreendente e muito bem colocado, dado o conceito criado no especial. Seus amigos a cumprimentam quase que sem surpresa, já o pai não é assim tão receptivo. Ele não aceita a filha como ela se apresenta, a mãe tenta dialogar já que ela finalmente se encontrou e agora está realmente feliz consigo mesmo.

A introdução da personagem trans é certeira para passar a mensagem que o desenho vem dizer (ou melhor, gritar) “SÃO MUDANÇAS DEMAIS!”. Nessa moderníssima vida de Rocko, nada mais é como nos anos 90, “Os cabeçudos” não estão mais lá, o filho da personagem não está mais lá, mas a Rachel está, por mais que tudo isso cause desconforto é preciso aceitar os “ventos da mudança” (estou tentando evitar todos os spoilers possíveis, mas essa cena realmente me fez gargalhar). No fim das contas, o especial da Netflix vem surfando na onda da nostalgia para discutir o quanto ela é saudável. Algumas coisas mudam, e tudo bem, o passado continuará por lá, intacto em suas memórias para te fazer sentir saudades de vez em quando, enquanto isso, que tal experimentar um pouco dessa nova e assustadora vida?

E você? Assistiu ao especial? Gostava de “A vida moderna de Rocko”? Qual era seu desenho preferido dos anos 90? Se quiser conversar sobre essas coisas e sugerir temas para a coluna deixe seu comentário logo abaixo. A dica é hoje é evoluam e aproveitem o hoje, ou assistam ao especial do Rocko na Netflix. Por hoje é só, até a próxima e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, marvete sem noção,  nintendista sem razão e Queer por autodefinição.

9 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Sempre arrasando, Everton 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  2. Gabi ❤️ disse:

    Definitivamente eu só assistia a Grobo (e nem me tornei uma alienada por isso. Ou me tornei?) pq não conhecia mesmo esse desenho.
    Claro que agora fiquei curiosa!
    Destaque para um ponto: “É mudança demais!”. E é mesmo. Por isso temos que ter uma dose de paciência com quem não se adapta. 😘

    • Everton Nucci disse:

      Obrigado Gabi. Todo mundo assiste à Grobo, mas falar mal dela é tipo um esporte nacional.
      O desenho vale muito a pena, é um monte de bobagem mas que nos traz um monte de reflexões.

  3. André Costa disse:

    Eu adorava a Vida Moderna de Rocko. Uma antiga namorada insistia que o Vacão e o Rocko formavam um casal gay. Não sei de onde ela tirou isso. Na tevê paga, esse desenho passava no canal Nickelodeon. Essed canal tinha muitos desenhos bons como.Rugratz (Os Anjinhos) Aah Monstros , Ei Arnold, dentros. Se gosta de desenho animado mesmo não sendo tão jovem ainda, dá uma conferida neles.

    • Everton Nucci disse:

      Olá André, obrigado por ler a matéria. Eu adorava esses desenhos da Nickel, meu preferido era Doug (antes de ir pra Disney). E eu amo desenhos animados algumas outras matérias sobre o assunto estão na agulha para sair, continue acessando o site para não perder.

    • Everton Nucci disse:

      Sobre Vacão e Rocko serem um casal, tem uma curiosidade. Num episódio eles vão se hospedar num motel de beira de estrada e o atendente pergunta por quantas horas eles querem o quarto. Quando Rocko informa que vão pernoitar o atendente responde algo como “Estão animados eim”. Piadinhas que as criancinhas inocentes não entendiam (eu espero).

  4. André Costa disse:

    Kkk. Agora caiu a ficha. Por falar nisso, assisti a esse desenho do Rocko que vc indicou. É ótimo. Se não fosse pela sua indicação, eu não teria visto. Obrigado. Essas historias que mostram um homem lutando contra a opinião do outro para se assumir como uma mulher sempre me cafiva.

    • Everton Nucci disse:

      Fico muito feliz de saber que gostou da dica. Continue acompanhando o site. Tem muitas matérias legais e toda quarta tem Vale Nerd novo.

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