Cosplay: Harley Quinn

Cosplayer: Leonardo Bonet (Coelho da Lua)

1) Acho que não há outra maneira de começar essa entrevista do que falar sobre a sua escolha de Cosplay. Não foi uma única vez em que ouvi que determinado Cosplay não ficou bom porque a pessoa era gorda demais, baixa demais, ou fraca demais para interpretar determinado personagem. Ao escolher interpretar Harley Quinn, você basicamente rompe com essa ideia de que personagens são proibidos para determinadas pessoas. Já parou para pensar nisso? Você teve receio de ser julgado?

R: Eu escuto frases de rejeição sobre meu cosplay em todos os eventos que vou (risos) sem contar os haters da internet. Mas acho que se minha arte causa alguma coisa, mínima, mas causa, seja ela positiva ou negativa, é porque estou fazendo ela do jeito certo. Cosplay é isso; a arte de interpretar um personagem, de se conectar com ele, de acreditar e fazer outros acreditarem que você é esse personagem. Eu sinto uma enorme tristeza quando pessoas da comunidade Nerd e Geek, até mesmos outros cosplayers, esquecem que o cosplay não mede cinturas ou tom de pele, gênero, não mede semelhança com o personagem; acredito que qualquer pessoa que esteja em um evento com algo considerado “fora do padrão” não esta somente desafiando um grupo de pessoas que não gosta da forma que ela se veste ou age, mas sim uma sociedade inteira que constrói muros desnecessários para um momento que significa apenas diversão, que é o foco do cosplay.

Lembro-me bem do meu primeiro evento, e eu estava com o meu cosplay de Harley Quinn do Esquadrão suicida; nunca tinha ido a um evento, estava mais que animado, mas infelizmente entrei chorando (risos).

Um grupo de pessoas me ofendeu muito na fila do evento, mesmo eu indo para o final da fila, a distância eles continuavam gritando ofensas. Hoje entendi que da mesma forma e intensidade que me julgam, sempre vai ter alguém pra me elogiar e me exaltar, e eu faço absoluta questão de fazer isso com qualquer pessoa, cosplayer ou não. Inclusive (modéstia a parte) eu tenho uma aptidão maior para acessórios, e eu nunca cobro por nenhum que faço para cosplayers que sei que precisam de ajuda, com poucas condições, ou pouca habilidade; Sei que se tivessem feito o mesmo por mim no passado, eu seria um cosplayer bem melhor hoje, e é isso que busco hoje pra todos os cosplayers, uma comunidade melhor.

2) O que te fez gostar tanto dessa personagem que te levou a fazer cosplay dela?

R: Eu conheço a Harley Quinn de da serie animada do Batman de 1992, meu irmão tinha fitas de VHS de alguns episódios, mas nunca me interessei muito pela personagem. Em 2014 quando assisti a animação “Batman, Ataque ao Arkham”, eu me apaixonei pela personagem. Por mais cruel e toxico que possa seu relacionamento com o Coringa, Harley sempre foi muito decidida, espontânea, inteligente (as vezes até mais que o Batman, como é mostrado na serie animada), mas ao mesmo tempo ela é transparente, um personagem perfeitamente construído com sonhos, sentimentos, medos que são facilmente visíveis, e acho que essa parte foi o que me conectou com a personagem, eu buscava tudo isso em mim mesmo, aceitar meus defeitos, me esforçar pelo que acho certo, melhorar o que posso, e sempre que alguém me desprezar: ARREBENTAR UMAS CABEÇAS (Risos) brincadeiras aparte, ela é um exemplo de ser forte, pois dentre tantos vilões de Comics, Mangás, Series, Filmes, ela é uma das poucas com sentimentos tão reais, com conflitos reais. Em resumo, ela consegue me definir em pequenos pedaços de personalidade.

Cosplay Harley Quinn: Leonardo Bonet

3) Qual foi a sensação quando você vestiu o cosplay dela pela primeira vez e qual a reação do público em geral?

R: Bem, na época eu me senti muito realizado, mas hoje só posso rir, pois estava muito simples e eu queria melhorar, dito e feito, em pouco tempo, com esforço, determinação e estudo (principalmente em maquiagem) o cosplay estava no ponto que eu tanto sonhava. Sempre fiz versões masculinas de personagens femininas, sejam elas Harley Quinn, Mulher Maravilha, Heather; então era um desafio maior pra mim, pois eu não tinha que simplesmente reproduzir um figurino, eu tinha que adaptar o figurino para o meu gênero, ainda condizendo com a personagem e sem deixar de ter a essência dela. Tinha medo de puxar muito para o lado masculino e deixar de ser a Harley, como também tinha medo de deixar feminino demais e deixar de ser um cosplay no estilo “Genderbend” (Versão do Sexo Oposto de Determinado Personagem).

Eu posso ter entrado chorando naquele evento, mas sai mais feliz do que nunca. Fui muito elogiado por outros cosplayers, inclusive fiz amizade com muitos que admirava através do instagram, fiz grandes amizades que carrego até hoje, mas uma coisa é certa, eu choquei muitas pessoas desde o momento que entrei, pois quebrei o maior padrão da Harley que é “a loira gostosona e bobona”; isso você nota em minhas fotos, pois não faço poses sensuais, já que temos que admitir: Harley Quinn é uma vilã, sociopata e psicótica, ela está em cena para lutar e não desfilar. Por isso foco muito no sorriso maquiavélico e olhos expressivos com uma cara de “estou nervoso e não é pouco”. E as pessoas não estavam acostumados com isso, pois foi um erro de esquadrão suicida simplificar muito a loucura da personagem.

4) Os dois filmes em que a personagem esteve, “Esquadrão Suicida” e “Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa” não conseguiram alcançar o sucesso esperado pelo estúdio. Ao que você atribui essa aparente falta de interesse do público?

R: Acho curioso, pois, vamos assumir; Esquadrão Suicida foi um filme que deixou muito a desejar, a única coisa que pareceu funcionar no filme (que creio que foi o motivo do engajamento) foram os personagens. Margot Robbie e Will Smith são atores incríveis que souberam sustentar seus personagens. Esquadrão Suicida foi aclamado por muitos, inclusive alcançou um Oscar de melhor maquiagem, no entanto, Aves de Rapina é um filme bem trabalhado nas personagens, eu amo o elenco, a direção e a historia é rica em detalhes vindos das HQS que eu achei um deleite pra quem é realmente fã. O publico, no entanto, parece não ter interesse, muitos dizem que é por ser um filme mais atribuído a força feminina e feminista (um detalhe crucial que não poderia faltar para esse filme) já outros dizem que é uma espécie de “trauma” por Esquadrão Suicida. O que eu sinto é que o publico está disfarçando ofensas, o filme (como muitos críticos o julgaram) é completo e já foi indicado ao Oscar, enquanto muitos fãs enchem o peito e dizem “o filme é ruim”, “O roteiro é horrível” eu só consigo me perguntar; “Você estudou cinema?” “Quantos filmes seus tiveram estreia mundial”, é muito fácil confundir a frase “eu não gosto” com “é ruim” pois o Filme do Coringa teve maiores criticas que Aves de Rapina e aparentemente dizem que é bom, então porque Aves de Rapina não seria. Eu entendo que esse filme ficou meio “jogado” pois foram muitas personagens novas introduzidas ao universo DC, mas isso não é motivo para dizer que é ruim, apenas por não fazer seu tipo de entretenimento, e eu sou uma grande prova disso, pois eu não gosto de Velozes e Furiosos, mas eu não digo que é ruim, pois não é; o filme não ganhou Oscar, teve criticas pesadas em cima do filme, mas ele é bom de acordo com críticos e pessoas especializadas em cinema, logo dizer que é “ruim” diante de opiniões de pessoas profissionais com estudo na área não é somente ridículo como também idiotice.

Cosplay Harley Quinn: Leonardo Bonet

5) Corrija-me se eu estiver errado, mas parece estar havendo uma tentativa de dar vida própria para a Harley, longe do Coringa (interpretado por Jared Leto em uma versão muito criticada), além de reduzir a sexualização da personagem (com a mudança de roupa em “Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”, por exemplo). Você está gostando do rumo que a personagem está tomando?

R: Não é novidade o protagonismo da personagem, já que desde 2004 ela tem passado por diversas versões sem o Coringa. A maioria das vezes acompanhada pela Hera Venenosa e a Mulher Gato, porém mais que apoio essa decisão de manterem a Harley como independente: Afinal, ao lado do Coringa ela se limita a ser uma ajudante, já quando está em suas aventuras solo, se mostra mais forte e determinada, como vemos em Sereias de Gotham. Além de explorarmos mais seu passado em seus quadrinhos solo, onde já vimos sua convivência familiar, escolar e com ex-namorados; Sem contar que sem o Coringa, Harley já foi para o espaço e lutou ao lado da Poderosa. Isso é fantástico pois ela, dessa forma, consegue alcançar a mesma escala de personalidade que o Deadpool na Marvel, sendo mais que uma heroína, mais que uma vilã, é absolutamente uma anti-heroína em perfeita sintonia de diversão e loucura.

Já o figurino, eu assumo, deixou a desejar. Isso ocorre desde Esquadrão Suicida. Por mais que eu ame as combinações de cores e estéticas de ambos os filmes, sinto falta de um pouco de preto e vermelho, de calças compridas e referencias a bobos da corte e Arlequins da cultura italiana de onde ela é inspirada. Eu Apoio muito cobrirem mais o corpo da Harley pois a sexualização de mulheres nos quadrinhos ocorre há muito tempo (Um bom exemplo é a Mulher-Aranha da Marvel que em suas primeiras versões o “couro” da roupa marcava até partes “internas” se é que me entende) e por mais adulto que seja um filme, uma serie, o publico principal de editoras de quadrinhos é infantil, pois são heróis que inspiram bom senso e sentido de ética para crianças, logo o nudismo em quadrinhos torna-se absurdo, não estou dizendo que ela deixa de ser sexy e bonita com mais roupas, ela deixa de ser sexualizada, e é muito importante não confundir sensualidade e beleza com sexualização.

6) Falando em rumos, já assistiu a série animada “Harley Quinn”?

R: Eu assisti, e amei, apesar da série ser bem fraca para pessoas (diferentes de mim) que não são tão fãs da Harley Quinn, É pouco aprofundado seu tempo ao lado do Coringa, deixam de focar em assuntos importantes para a personagem e fixam na ideia de comedia excessiva e exageram figuras que seriam mais tenebrosas como o Cara de Barro. Gosto muito da série pois sou um grande fã da Harley, por isso me conecto com os episódios, mas se uma pessoa com pouco contato em quadrinhos e desenhos animados assistir eu sinto que se enjoará em poucos episódios. Gosto de pensar que a serie animada da Harley errou, Aves de Rapina acertou, assim como prefiro a escolha de visual mais próxima dos Novos 52 da serie animada da Harley.

7) Você já interpretou quantas versões da Harley? Imagino que o primeiro uniforme, aquele da série animada seja o que mais dê trabalho para fazer, não é?

R: Eu já fiz exatamente cinco versões da Harley, dentre elas: a versão de Ataque ao Arkham, Esquadrão Suicida, duas de Aves de Rapina com a jaqueta de fitas plásticas e a camisa manchada da cena da delegacia, e a mais atual do jogo Injustice 2 que é um deleite para os olhos, todos os uniformes usados no jogo. Todo cosplay em si da trabalho, mas cada um tem uma dificuldade maior: Eu por exemplo consigo me maquiar muito bem, no entanto sou péssimo estilizando e cortando perucas, inclusive algumas vezes até peço ajuda para outros cosplayers com mais experiência; uma dica muito importante que aprendi no mundo Drag: Se tem alguma duvida de como fazer algo, pergunte para alguém que está no ramo a mais tempo, que conheça os macetes e técnicas.

8) Você mesmo produz seus Cosplays? No caso da Harley, que materiais utilizou, quanto tempo levou e quanto custou?

R: Eu faço cada pedaço dos meus cosplays, não confio em compras na internet, pois em um cosplay eu busco semelhança, flexibilidade e conforto. Sem essa trindade (risos) eu não uso o cosplay, pois gosto de estar parecido com a Harley, gosto de dar estrelas e cambalhotas em cima do palco e acima de tudo, a roupa não pode machucar ou pinicar durante uma apresentação.

Sobre materiais eu vou no mais barato que encontrar como jeans, algodão ou corino. Nunca dispenso tinta para tecido, super bonder e cola quente caso não tenha acesso a uma maquina de costura antes de um evento. Mas não vou mentir, alguns saem mais caros que o esperado.

Nunca gasto imediatamente centenas de reais em um cosplay; gosto de começar fazendo um “cos teste” se a ideia inicial ficar legal vou investindo aos poucos, detalhes pequenos para serem mudados, uma peruca, uma lente, um sapato, e por ai vai.

Meu cosplay da Harley de Esquadrão Suicida ultrapassou o valor de oitocentos reais, pois a jaqueta é oficial da DC em edição limitada, assim como a camisa, e os sapatos que escolhi (que uso em mais cosplays, claro) são de marca, sem contar os acessórios e maquiagem. Mas fiz tudo isso por loucura na época (risos) hoje opito por costurar tudo, e fazer eu mesmos os acessórios.

9) O que você pode dizer para encorajar alguém que esteja disposto a fazer cosplay de um determinado personagem, mas sinta receio ou vergonha?

R: Cosplay é arte, arte é expressão; Nunca tenha medo de mostrar seus gostos, de ser você, de mostrar o seu máximo. Se não se sente confortável, por exemplo, de uma Harley de shorts curtos, faça-os maior, use calças compridas se preferir.

O que realmente importa é entender que todos os cosplayers são livres pra interpretar quem eles quiserem independente de gênero, cor, peso ou altura .

10) Essa última pergunta é padrão em nossas entrevistas. Qual a importância do Universo Cosplay na sua vida?

R: O Cosplay me trouxe amigos, momentos memoráveis em eventos, confiança em mim, e amor pelo meu corpo (a dois anos atrás jamais imaginaria mostrar minha barriga em publico, hoje minha Harley é livre dentro do meu corpo). Sempre tive um receio em interagir socialmente, mas fui liberto disso enquanto pensava “hoje eu sou outra pessoa” e não, nunca fui outra pessoa, aquela liberdade que sentia não era o personagem, era eu sendo confortável em ser eu, pois não somos os personagens que vestimos, os personagens vivem através de nos enquanto estamos de cosplay. Dentre tantas coisas que o cosplay pode me trazer, como alegria e amigos, ele me trouxe a força necessária pra ser eu mesmo, e com todo orgulho eu digo que antes eu era Leonardo Bonet, depois dos cosplays eu acordei como Coelho da Lua.

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1 Comment

  1. Solange disse:

    Entrevista maravilhosa. Bem produtiva.

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