No Sufoco de Chuck Palahniuk

Sobre aqueles que ficam presos no passado.

Por Fernando Fontana

“Não leia isso aqui. Nem se dê ao trabalho. Você vai ler umas poucas páginas e já vai dar vontade de largar. Esqueça. Vá passear. Saia daqui enquanto você ainda é gente. Salve-se!”

Victor Mancini

Chuck Palahniuk tem certo gosto pelo absurdo e não é um autor lá muito fácil de digerir, por vezes se mostrando incômodo para alguns leitores desavisados.

Seus livros vêm encharcados de sarcasmo, humor ácido e crítica aos costumes e padrões de comportamento tidos como naturais em nossa sociedade. Seus personagens possuem sérios distúrbios psicológicos, e, para piorar, depois que terminamos de ler a última página, ficamos com a impressão de que nós, os assim chamados normais, é que não batemos muito bem da cabeça.

Você fecha o livro e pensa: droga, o que estou fazendo com a minha vida?

Chuck Palahniuk e seu livro de maior sucesso, Clube da Luta

Se você leu “Clube da Luta” (1996), obra pelo qual o autor é mais conhecido, ou assistiu ao filme protagonizado por Edward Norton e Brad Pitt, sabe do que estou falando.

Eu preciso mesmo de um edredom?

Enquanto Clube da Luta ataca o consumismo e a alienação decorrente de uma ideologia, “No Sufoco”, publicado em 2001, mira nas pessoas que se mostram incapazes de viver o presente, tornando-se reféns do passado ou, encontrando maneiras de escapar da realidade.

Existe uma boa razão para que o protagonista, Victor Mancini, trabalhe em Dunsboro Colonial, uma espécie de museu ao ar livre que busca imitar o ano de 1734. A obsessão com os detalhes é tão grande, que todos os funcionários devem se trajar e portar apenas objetos que existiam naquele período. Qualquer quebra de protocolo, como esquecer de retirar o relógio do pulso ou mascar um chiclete é punida, sendo que a reincidência pode levar à demissão.

Victor está, portanto, preso em um trabalho que não sai do ano de 1734, ou, pelo menos, deveria ser assim, porque, por mais apegados aos detalhes que sejam os responsáveis por Dunsboro, recriar o passado com perfeição é impossível, por uma série de razões bastante óbvias.

Victor trabalhando em Dunsboro Colonial, uma tentativa fracassada de recriar perfeitamente o ano de 1734. (Cena do filme baseado no livro)

Sua mãe, Ida Mancini, está em uma casa de repouso, cujo custo é muito superior ao salário que ele recebe em Dunsboro. Sendo assim, Victor elabora um golpe ousado; quase todas as noites, ele vai até um restaurante diferente, escolhido preferencialmente entre os mais caros da cidade, pede uma refeição, come quase tudo, mas guarda um grande pedaço de filé, que ele engole de forma a se engasgar e começar a sufocar.

O objetivo é aguardar que um dos fregueses do restaurante venha correndo para salvá-lo, um herói que realizará a conhecida manobra de Heimlich, que fará com que o pedaço de carne entalado em sua garganta, voe para longe, lhe trazendo ar e vida.

Victor sufocando enquanto aguarda um salvador (cena do filme baseado no livro)

A questão é que, para cada um desses salvadores, aquele se transforma em um grande momento de suas vidas, para alguns, no melhor; o dia em que salvaram um completo desconhecido e se transformaram em heróis, contado e recontado para amigos e familiares.

Victor é a prova de que esse dia ocorreu, e por isso, eles o amam, e sentem-se responsáveis pelo seu destino, dispostos a tudo para garantir que o testemunho de seu heroísmo continue bem e saudável.

Aproveitando-se deste sentimento, Victor responde as diversas cartas e cartões de aniversário que recebe de seus salvadores, dizendo que está em situação financeira difícil, que não tem dinheiro para pagar o aluguel, os remédios, a conta do açougue, enfim, qualquer coisa que faça com que eles lhe enviem um cheque pelo correio.

Não, o protagonista não se considera uma boa pessoa, e reconhece o fato durante quase todo o livro: “O que Jesus NÃO faria”.

Se por um lado, os homens e mulheres que o salvam da morte por sufocamento, se apegam ao passado através do grande momento de suas vidas, na casa de repouso onde Ida, a mãe de Victor, está internada, as idosas não param de se lembrar dos momentos ruins que viveram, e, confusas, o acusam de ser o culpado.

Elas acreditam que ele seja o irmão que as molestou no passado, o marido que as abandonou, o colega de trabalho que jamais pagou o que lhes devia, o filho que nunca mais ligou. Após ouvir diversas acusações, Victor se cansa e passa a assumir que fez tudo aquilo que lhe acusam de ter feito: “Sim, eu roubei sua joia; sim, eu fui embora sem dizer adeus; sim, eu menti; sim, eu fui um canalha, e por tudo isso, eu peço perdão”.

Victor e sua mãe, Ida Mancini, na Casa de Repouso (cena do filme baseado no livro).

O ato de assumir o que fez e pedir perdão funciona como um alívio instantâneo para o peso que essas senhoras carregam em suas almas, elas aceitam o pedido de desculpas, choram e se sentem felizes pela primeira vez em muito tempo.

Duas formas diferentes de se prender ao passado, pelos bons ou pelos maus momentos. O próprio Victor encontrou em seu vício, uma forma de escapar do presente; ele é um sexolátra, e sempre que se sente mal, recorre ao sexo com estranhas para fugir da dor.

Como ele mesmo diz em determinado momento, o sexo é apenas uma forma de vício, uma forma de escape, alguns escolhem o álcool, outros a cocaína, outros colecionam pedras de diferentes tamanhos e formatos, qualquer coisa capaz de ocupar todo o tempo livre e os pensamentos.

No fim, a melhor coisa é se livrar de toda essa merda que está presa em seu interior (há uma metáfora bem clara no livro), e aceitar que o passado, seja bom ou ruim, se foi, e que os vícios podem mascarar o presente, mas cedo ou tarde, a realidade bate na porta.

“No Sufoco” não foi tão bem aceito quanto “Clube da Luta”, e tenho visto pessoas dizerem que este é o pior livro de Palahniuk. Pode ser, não é um dos melhores, seguramente, mas, isso não quer dizer necessariamente que o livro seja ruim, e, existe sempre a possibilidade de algumas pessoas terem compreendido de uma forma diferente onde o autor queria chegar.

Em 2008, estreou um filme baseado no livro, dirigido por Clark Gregg, mas que não chegou nem perto do sucesso alcançado por Clube da Luta.

Independente disso, se você for um viciado em leitura, Palahniuk é sempre uma boa pedida para quem curte uma narrativa não convencional.

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Fernando Fontana é adulto e escritor amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, ambos disponíveis na loja deste site. Também é colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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