Besouro Verde Ano Um

Por Fernando Fontana

O Besouro Verde (Green Hornet, no original, que seria corretamente traduzido para Vespa Verde), foi criado em 1936 por George Trendle e Fran Striker, fazendo dele um dos primeiros heróis de todos os tempos. Não possuía poderes, lutava contra o crime ao lado de Kato, seu mordomo e amigo oriental, utilizando tecnologia de ponta, um carro blindado e as informações colhidas pelo jornal de sua propriedade.

Em 2011, o personagem ganhou um longa metragem estrelado por Seth Rogen, como o Besouro, e Jay Chou, como Kato, que ficou longe de entusiasmar. Sua produção de maior popularidade continua a ser a série exibida entre 1966 e 1967, com Bruce Lee no papel de Kato, obtendo um destaque muito maior do que Van Williams, que interpretava o protagonista.

Em 2010, após obter a autorização para publicar novas histórias do Besouro Verde, a editora Dynamite nos trouxe uma bem vinda minissérie em doze edições, posteriormente publicada no Brasil pela Mhytos Editora: Besouro Verde – Ano Um.

Encadernado Capa Dura publicado pela Mhytos Editora.

Como todo “Ano Um” que se preze, a história nos mostra seus primeiros dias como Besouro Verde e sua luta contra “Derrapada Caruso”, um gangster que comanda com mão de ferro o crime organizado na Chicago de 1938.

Assim como Bruce Wayne, Britt Reid, não possui super poderes, mas o Besouro Verde possui limitações muito maiores do que o Homem Morcego de Gotham.

Apesar de, assim como Wayne, também se recusar a matar, as semelhanças param por aí. Reid não é nem de longe tão rico (se vê obrigado a vender sua mansão para pagar os custos de sua cruzada contra o crime organizado), não é o melhor detetive do mundo, e não possui as mesmas habilidades marciais que o Batman, aliás, o que ele conhece de artes marciais, aprendeu com Kato.

Em combate, Kato é muito mais eficiente do que Reid, que fica bastante dependente de sua arma de choque (a picada do besouro). Matt Wagner, responsável pelo roteiro, brinca com o fato quando Ferrugem, o criador das armas e equipamentos do herói, diz que instalou um rastreador em seu sapato, para que seu companheiro possa localizá-lo, caso seja necessário. O herói indignado pergunta: “E por que vocês supõe que sou eu que vai precisar de salvamento?”

Santa inversão, Batman, é como se o Robin fosse o mais perigoso da dupla dinâmica.

Brincadeiras à parte, é até interessante ver um herói que fica longe da perfeição e não ofusca o seu parceiro de combate ao crime, pelo contrário, depende muito de sua ajuda.

Ele pode não ser um grande detetive, mas é o proprietário do jornal “O Sentinela Diária”, e, em consequência disso, tem a sua disposição, em primeira mão, as informações que lhe são passadas pelos seus repórteres de campo. Lembre-se que estamos falando de 1938, quando nem se sonhava com computadores e internet e a mídia escrita, assim como o rádio, eram as principais fontes de informação.

Capa da Edição nº 3, por John Cassaday

A história é contada mantendo o clima noir, ajudada pela arte de Aaron Campbell, desenhista não tão conhecido do grande público. O vilão, “Derrapada” Caruso, estendeu seus tentáculos por Chicago, mantendo quase todas as autoridades em sua folha de pagamento, garantindo assim que suas operações não sejam importunadas, que seus homens não sejam presos, e, no caso de serem, ou não irem a julgamento ou receberem penas ínfimas.

Assim que Reid tenta utilizar o seu jornal para denunciar as atividades ilícitas de Caruso, é advertido por seus colegas e ameaçado por telefone.

Se insistisse em sua abordagem, não apenas ele, mas as pessoas de quem gostava ou que dele dependiam, sofreriam as consequências.

Sem alternativa, o editor do jornal, junto de Kato, decidem enfrentar o chefão de outra forma, atacando-o pelas sombras, sabotando suas operações, causando pânico entre seus colaboradores.

O roteiro alterna entre o passado, mostrando como ele conheceu Kato, o seu treinamento, os seus primeiros dias como editor chefe do “Sentinela Diária”, como obteve seu esconderijo, sua arma atordoante e seu carro, o “Beleza Negra”, e o presente, com sua incansável luta contra Caruso.

Matt Wagner não tenta inventar a roda, não busca grandes reviravoltas ou uma história grandiosa, se preocupa em contar a origem do personagem e colocá-lo contra um oponente poderoso, mas que pode ser derrotado sem a necessidade de grandes absurdos difíceis do leitor engolir.

A história flui sem se tornar cansativa, e vale a pena tanto para quem já conhecia o personagem, quando para quem nunca tinha lido nada a seu respeito (que eu acredito, seja a maioria dos leitores).

Dê uma folga para os heróis da DC Comics e da Marvel e confira algo novo, acredito que você não vai se arrepender.

____________________________________________

Fernando Fontana é adulto e escritor amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, ambos a venda na loja deste site, também é colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *