O Vale Nerd: América, onde está o seu Deus agora?

Olá todo mundo, bem vindos ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje nem vou fazer introdução,  vou apenas dizer um nome: Neil Gaiman.

Ah, como não se empolgar com um nome desses? Se você não se apega a autores e se lembra mais das obras, posso citar algumas de suas mais conhecidas: “Coraline e o Mundo Secreto”, “Stardust, o mistério da Estrela”, “A Lenda de Beowulf”, “Good Owmens” (“Belas maldições”), e é claro, o clássico dos clássicos – para muitos, a maior HQ já escrita – o divisor de águas entre a era de bronze e a era moderna dos quadrinhos: “Sandman”; ainda não sabe quem é? Bem saiba que “Sandman” é tão importante que gerou uma enorme quantidade de HQs derivadas. Um desses derivados, inclusive, ganhou sua própria série de TV, estou falando de “Lúcifer”. Essa eu sei que você conhece, até o padre Fábio de Melo assiste! Resumidamente, quando se trata de fantasia, Neil Gaiman é simplesmente “o cara”.

O Senhor dos Sonhos, seu criador, Neil Gaiman, e sua irmã, a Morte.

Como vocês podem ver, existem muitas adaptações das obras de Gaiman e “Sandman” só não ganhou seu próprio filme por conta da cabeça dura de alguns executivos de Hollywood. Reza a lenda que o próprio autor apresentou um projeto de franquia com vários filmes, action figures, camisetas e outros  produtos a serem largamente explorados, mas o fato da narrativa da história ser pouco tradicional, sem maniqueísmos e sem um vilão bem definido fez com que o projeto fosse sumariamente rejeitado (na cabeça desses executivos o tal “vilão bem definido” é o segredo de sucesso de filmes como “O senhor dos anéis”). Outra lenda diz que a Netflix já estaria produzindo uma série baseada na obra, resta torcer para que a produção esteja mais para “Demolidor” do que para “Punho de Ferro”.

É desse “cara” que vem “Deuses americanos”, o livro que inspirou a série da qual irei falar hoje. O programa é produzido pelo canal Starz, que brindou o vale com “Spartacus”, a série que emulava a fotografia cartunesca do filme “300” e trazia um festival de sangue, gore, e homens musculosos com corpos lustrosos e genitálias a mostra. “Spartacus” não tem nenhuma relação com essa matéria, mas eu achei interessante registrar os homens nus musculosos com corpos cobertos de óleo. Voltando ao assunto, como vocês podem notar, Neil Gaiman é muito cinematográfico ou mesmo televisionável (adoro neologismos) e tenho que admitir que a maioria de suas obras eu conheço assim, por mídias diferentes das originais.

Shadow Moon, protagonista de Deuses Americanos

Brincadeiras a parte, o canal Starz não é famoso por seu conservadorismo, e nessa obra de Neil Gaiman, recheada de violência, e críticas sociais/religiosas me pareceu ser um grande acerto. É Claro que muito do romance escrito em 2001 pelo autor britânico foi adaptado para a série de TV que estreou em 2017, afinal, trata-se de uma obra de pouco menos de quinhentas páginas que já foi transformado em duas temporadas do programa.

“Deuses Americanos” acompanha a jornada de Shadow Moon, um jovem americano sem nada de muito especial (aparentemente) que acaba de sair da prisão; infelizmente sua pena foi encurtada em alguns dias em decorrência da morte da esposa. Parece muito azar para uma só pessoa, perder a esposa dias antes de ganhar a liberdade. Acontece que o azar de Shadow não havia sequer começado. Ainda preparando o velório, o protagonista iria descobrir que a esposa o traíra com seu melhor amigo enquanto ele estava na prisão (e a descoberta vem com direito a nude no celular e tudo, e olha que é um senhor close sem pudor no pênis ereto do amante, como eu disse o canal Starz não é famoso pelo conservadorismo), como se não fosse o bastasse ele passaria a ser perseguido sem saber o motivo, sofreria tentativas de assassinato, começaria a duvidar da própria sanidade, para, por fim, se ver em meio a uma guerra entre velhos e novos deuses.

É muita loucura para ser digerida de uma só vez.

A jornada de Shadow Moon vai se tornando ainda mais complicada quando ele conhece um senhor misterioso que apresenta-se apenas como “Quarta-feira”, esse senhor passa a se tornar cada vez mais presente na vida do rapaz e quando se dá por conta, Shadow Moon está trabalhando para “Quarta-feira”, vivendo situações absurdas e cumprindo ordens que ele nem ao menos entende.

O que você faria se estivesse em uma loja de departamentos e de repente Lucille Ball da antiga sitcom “I love Lucy” começasse a conversar com você diretamente do aparelho de televisão? Ou se você estivesse numa delegacia e de repente Marilyn Monroe entrasse flutuando pela porta, ignorando todos os guardas armados? Ou se seu maior desejo de repente se tornasse realidade e um ente querido voltasse à vida (embora na forma de zumbi)? Você não precisa imaginar, basta assistir “Deuses Americanos”. Shadow Moon passa por coisas, que há pouquíssimo tempo julgava serem impossíveis (coisas de cinema) e ainda assim segue a jornada resiliente, abandonando todo o seu conceito de lógica e bom senso. Chega a ser estranho o modo como ele vivencia algumas situações absurdas como se fossem normais. A meu ver o protagonista parece aceitar o fato de que diante da grandeza do universo o seu conhecimento de ser humano é ínfimo. Já dizia Shakespeare “há mais coisas entre o céu…” você sabe o resto.

O misterioso Quarta-Feira, novo empregador de Shadow Moon

Essa história absurda e cheia de mistérios apresenta um conceito que consegue, ao mesmo tempo, ser novo e maduro. A trama parte do princípio de que toda divindade e/ou ser místico/fantástico referenciado nas mais diversas religiões, folclores e culturas humanas realmente existe – ou existiu em algum momento de nossa história. Mas para continuar existindo ele precisa da fé de seus fiéis, dessa forma, deuses antigos, de culturas pouco lembradas já se encontram idosos e praticamente sem poderes, enquanto isso, novos deuses surgem graças a devoção (mesmo que inconsciente) do ser humano. Dentre esses novos deuses destacam-se a Mídia, a Globalização, a Internet,  o Dinheiro, cada uma dessas obsessões humanas ganha sua própria personificação na forma de um deus. Essa é a grande novidade da obra, novidade que para mim está calcada no antigo conceito de que “Deus não criou o homem, mas o homem criou Deus”, Gaiman parece ter levado as ideias de Nietzsche ao pé da letra.

Sim, você verá Thor, Anúbis e Jesus, ou melhor, alguns dos vários Jesus existentes no mundo, já que a obra assume que a bíblia cristã é interpretada de tantas formas diferentes por países, religiões e seitas que torna impossível que Jesus seja a mesma pessoa em todo mundo, o resultado é que cada povo, crença ou país acaba tendo seu próprio filho de Deus com suas próprias características. Pobre coitado! O século XXI não é uma época adequada para alguém pregar coisas como amor e paz. Da mesma forma, vemos deuses menos conhecidos como Ananse (a única vez em que eu ouvi esse nome foi no desenho do Super-Choque), ou Ēostre, a antiga deusa das colheitas que se reinventou para continuar a angariar fiéis e hoje é a deusa da páscoa.

Mr. Nancy, ou Anansi, o deus africano que não fica nem um pouco satisfeito com a forma que seus seguidores eram ou são tratados pelos brancos.

Assistir à série nos faz refletir sobre quem somos e a quem devotamos nosso tempo, tudo isso enquanto vemos uma praia ser banhada de sangue de supostos conquistadores de novas terras, uma antiga deusa do sexo usar o “tinder” para conseguir encontros e engolir pessoas pelo óstio da vagina, lançando-as para uma galáxia onde as vítimas flutuam congeladas por toda a eternidade.

Se no passado os fiéis se entregavam a ela voluntariamente por pura devoção hoje elas se entregam às facilidades – e aos perigos – dos aplicativos de namoro.

Acompanhamos um homem árabe muçulmano transando com um gênio naquela que me parece ser a cena de sexo entre dois homens mais explícita já produzida para TV (é sério, nem “Game of Thrones” foi tão longe), claro que uma cena como essa, sem nenhum contexto de nada vale, entretanto, aqui podemos notar que a escolha da personagem gay foi meticulosa, evocando, mais uma vez, os costumes e as religiões já que em sua cidade natal, homossexualidade é crime, e para sua religião é pecado.

Salim e o Jinn, um relacionamento improvável.

Ao fim do dia, a personagem (Salim) continua orando para Alah e continua apaixonado pelo gênio, interessante notar que, diferente dos outros deuses da série, o gênio não exige louvores ou sacrifícios mas trata o homem de igual para igual, dessa forma, o homem que sempre esteve no armário por conta da sociedade e da religião, pela primeira vez na vida, se sente livre. Mais tarde veremos alguém cuja definição no meio LGBTQIA+ nunca é representada, alguém que se identifica como “dois espíritos”, ou como a personagem define: masculino e feminino dividindo o mesmo corpo, mais uma vez podemos ver exemplos de que os “rótulos” atribuídos aos moradores do vale podem não fazer sentido para você ou para mim, mas podem fazer total diferença na vida de alguém que se sente deslocada no mundo.

Por outro lado também veremos um antigo deus exigir que pessoas se sacrifiquem ao provocar uma rebelião num navio negreiro. E ele os convence apenas explicando como a escravidão perdurará por anos afio chegando ao século XXI na forma de racismo e desigualdade social. Muitas culturas são apresentadas e muitos temas são debatidos, a ideia proposta pela série é vasta e dá margem a inúmeros debates, podendo inclusive se estender para além do livro.

Diferente dos rígidos e tradicionais deuses antigos, os novos deus são criaturas mutantes, muitas vezes arrogantes, impetuosos, inconsequentes e sem filtro, tipo um hater, como o Garoto Técnico (a encarnação da internet) que mais tarde é forçado a se reinventar como alguém completamente novo, mais sério mais sisudo e mais poderoso. A mídia: clássica e glamourosa, brilhantemente personificada na primeira temporada pela sempre maravilhosa Gillian Anderson (destaque para ela interpretando David Bowie), na segunda temporada dá lugar a uma versão completamente nova, mais contemporânea e mais jovem, os filmes em preto e branco dão lugar ao K-Pop, às curtidas, aos memes e aos emojis, essa é a nova mídia, muito mais ágil, mais dinâmica, mais urgente.

A Divindade Mídia, como David Bowie (interpretada por Gillian Anderson)

Muitos segredos ainda estão por vir à tona na série, a verdadeira natureza de algumas personagens ainda não foi revelada, a guerra entre o conservadorismo dos antigos deuses e a revolução dos novos deuses mal começou, as inúmeras culturas existentes no globo ainda podem ser amplamente exploradas pela produção e o plot desenvolvido por Neil Gaiman é realmente instigante. Quanto mais eu assisto, mais apaixonado fico. E desculpem se essa coluna acabou se tornando muito mais um amontoado de divagações de fã do que uma análise objetiva. Acontece quando uma obra desperta sentimentos em mim. E nesse sentido, “Deuses Americanos” me pegou de jeito, provocando um misto de emoções, me fazendo refletir durante semanas e me fazendo ignorar os aspectos técnicos.

E se você quiser conversar comigo sobre essa e outras obras de Neil Gaiman, deixe seu comentário logo abaixo.

E as dicas do dia são duas outras produções baseadas em obras de Gaiman, a primeira é o fascinante e bizarro filme “Coraline e o Mundo Secreto” e a segunda e a série cheia de sarcasmos e reflexões sobre religião “Good Owmens”, David Tennant está simplesmente impagável. Apenas assistam. Por hoje é só isso, até a próxima semana e fiquem em paz.

Trailer Segunda Temporada de Deuses Americanos

______________________________________

Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, marvete sem noção,  nintendista sem razão, Queer por autodefinição, e fiel seguidor do deus da tecnologia.

2 Comments

  1. rurenna@gmail.com disse:

    Um de meus livros favoritos. O reeleito de tempos em tempos. Aguardando a 3 temporada. Espero que seja tão boa quanto as anteriores…

    • Everton Nucci disse:

      Oi moça (que eu creio não se chamar Rurenna) obrigado por visitar o site, continue acompanhando.
      Neil Gaiman é realmente excepcional e essa história é de pirar a cabeça. Também estou ansioso pela terceira temporada da série.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *