Conto: O Corvo

Adaptação livre de Fernando Thomazi, em forma de conto, para o célebre poema “O Corvo”, em inglês “The Raven“, originalmente publicado em 1845, pelo escritor e poeta Edgar Allan Poe)

Sob a luz funeral de um candelabro de metal, de cuja vela vertiam lágrimas de pálida e pura cera, porcamente iluminando a sala escura… Encontrava-me eu imerso em literatura das mais ancestrais e obscuras, movido pela pretensão última de resgatar, do mundo dos mortos, a minha doce e bela Lenora!… Aquela que, outrora, prometera-me, com o rosto em flagrante rubor, o seu íntimo, vivo e eterno amor!… A madrugada solitária seguia improdutiva e insone para mim, talvez sob o reforço de gotas golpeando os vidros da janela à minha retaguarda. Há vários dias, mais precisamente “noites”, buscando conferir à minha vida um “norte”, desde a morte da minha esposa, eu vinha me dedicando àquela atividade ingrata e laboriosa. E se o resultado de meu engajamento me parecia incerto no momento, ao menos era algo com o que entreter meus soturnos pensamentos, parcialmente desviando-os da minha enlutada tristeza. Atravessando horas tais, do que a suficiência bem mais, e finalmente pelo sono vencido, um abrupto evento interrompeu meu estado onírico… “Batidas na porta!”… Um sangue extra latejou-me a aorta, acompanhado de um calafrio, como se a própria morte me percorresse a alma num impiedoso ardil!… “Quem seria lá fora, naquele frio e àquela hora?… Meditei sem demora… E emendei, tecendo o novo pensamento no mesmo fio… “Quem dera fosse a minha senhora!”!… Se fruto de realidade ou sonho, aquele ruído medonho facilmente seria por mim elucidado tão logo eu a abrisse… com certo cuidado! E, golpeado pela esperança delirante de que aquilo fosse o regresso ou mero instante da presença de Lenora, temendo que esta fosse embora, rapidamente o fiz!… O vazio molhado e negro que encontrei, porém, certificou-me uma vez mais de que Lenora, por aqueles umbrais afora, e para muito além daquela velha porta, permanecia morta… Ao menos, “por ora”!… Ah, minha ausente Lenora!… Se soubesse a visceral luta que ora travo para conseguir pensar desta forma, agarrando-me num improvisado fio consolador, certamente viria ao meu encontro reconstruir-me de meus escombros, e soprar ao largo a minha dor!… Outrossim, me prestaria o merecido socorro, sem o qual, aos poucos, morro!… Isto é o que faria, seguramente!… Entrementes, incapaz de perceber a origem de eventos tais, pensei, na forma de um lamento: “É só o vento… E nada mais!”… Tornei à minha poltrona após trancar atrás de mim a porta, pela fechadura, esboçando a intenção vacilante de retomar a leitura que, àquela altura, concorria com o meu inebriante sono. Logo, um novo evento evitou que eu sequer deliberasse sobre o meu dilema… “Batidas na janela!… Seria ela?”… Desta vez, julguei-me suficientemente desperto, acompanhando a ocorrência de perto, para excluir a hipótese de mero sonho… Sem me deter em novas elucubrações, rapidamente a abri!… E observei ali, surpreso e moderadamente assustado, uma ave negra atravessando-a apenas entreaberta, e deslocando o ar sobre minha cabeça… “Um corvo!” Logo conclui, ao deter, naquele estorvo, a atenção que já me era pouca. E eu, vendo minha esperança louca pulverizar-se na lembrança, limitei-me a acompanhar aquele indesejável desdobrar… Traçou um voo circular pelo amplo cômodo, sem suspeitar ela de me ser causa de algum incômodo, e pretendendo o que me pareceu notório: reconhecer aquele incógnito território… Para finalmente repousar suas betuminosas penas sobre o busto de branco mármore da deusa Atenas. Esta, guardiã do alto da parede de fina estampa logo atrás. Isto fez apenas… E nada mais!… “Busca da chuva abrigo!”…Pensei comigo… Como a ave não esboçava a mínima intenção de tornar às noturnas trevas, posicionei-me diante dela, com meus olhos ligeiramente projetados para o alto, e perfeitamente alinhados com aqueles outros. E, a título de tornar lúdico aquele insólito encontro, evocando de poetas e filósofos a atuação, decidi provocar no corvo uma incomum interlocução…

– Atrevida ave que minha casa invade… Poderias ter a bondade, rompendo a quietude desta madrugada insone, de dizer-me, ao menos, o teu nome?

 Rigorosamente após à minha pergunta, respondeu-me o corvo…

– “Nunca mais!”

Se real ou mero delírio, eis aí o meu martírio. Porém, flagrando-me parte daquele inédito cenário, logo decifrá-lo julguei menos necessário… Como se me bastasse a imediata reação pela qual, ao ouvir a expressão seca e solta “Nunca mais!”, desatei por entre os lábios algo mais: um riso igualmente seco e instintivo, que qualquer ingênua criança expressaria… Ora, quem diria?… Claramente aquelas palavras não representavam, de uma comunicação, qualquer tentativa. Mas meramente, tal qual um papagaio o faria, uma articulação vocal que nada significava e nem sequer o pretendia. Apenas meu intelecto assim a compreendia: como sendo a triste frase “Nunca mais!”, e somente pela similaridade sonora articulada por aquela ave canora. E, encontrando-me eu repleto de indagações pendentes, sem titubear ou perder de vista o hóspede presente, lancei-lhe a próxima pergunta…

– Ave iletrada e rude a invadir os meus umbrais… Se teu nome é “Nunca mais!”, desta feita, diz-me o que aqui pretendes?… Diz-me algo, algo mais!

…Após o que, imediatamente respondeu-me a ave…

– “Nunca mais!”

Pela vez segunda, de forma igualmente sucinta, firme e precisa, articulou a mesma expressão insípida e vazia. Desta vez, porém, a revestiu de um “significado extra”… Claro estava, para mim, que aquele segundo “Nunca mais!” sinalizava que a negra ave só era capaz de repetir uma única e mesma frase, cuja construção e signo ela sequer ousava decifrar. Aquilo apenas repetia e nada mais!… E eu, de minha parte, sacando de meu farto repertório de indagações, ousadamente cravei-lhe ambos os tímpanos com uma terceira…

– Ave enfadonha, de fisionomia medonha… Tu que migraste das densas trevas lá fora, que notícias trazes de minha amada Lenora?… Diz-me algo, diz-me agora!

…À qual, pela vez terceira, respondeu-me ela…

– “Nunca mais!”

Desta vez, como se ambos, conjuntamente, elaborássemos de um dicionário o verbete, contendo sucessivos e fartos símbolos para a mesma expressão “Nunca mais!”, inferi o significado da vez. Em seguida, tive medo, confesso, de lançar-lhe o “ainda esboço” de uma eventual quarta pergunta, oriunda de meu inaugural calabouço. Mas, que alternativa me restara? Se me era tão amarga a eterna dúvida e intragável quanto a mais dura e sólida verdade!… Então, totalmente entregue à mínima esperança por dentro, de arrancar algum alento daquelas cordas vocais, desde as entranhas animais, lancei-lhe, em forma de vento, outra pergunta, uma vez mais…

– Ave agourenta, a testar o quanto meu coração aguenta… Diz-me, diz-me logo! Apenas isto eu te rogo… Onde encontra-se a minha idolatrada Lenora? Diz-me sem demora… No eterno gozo dos reinos celestiais? Ou na eterna danação daqueles outros infernais?

E, como se seu acervo de respostas infinito fosse, ainda que a partir de uma e outra palavra, sem qualquer menção à minha amada, ofereceu-me ela a resposta reclamada…

– “Nunca mais!”

Então, percebi que, a cada nova resposta dela arrancada, ou por ela a mim ofertada, a mesma e única expressão “Nunca mais!” revestia-se de um novo e específico signo, cada vez mais familiar, evoluindo para “um” que, antecipadamente, me pareceu “detestável”! O que eu mais pretenderia evitar, com quantas forças me restassem… Num dado momento, meus olhos se incandesceram na familiar ardência de rubros globos oculares, que prenunciavam o jorro de lágrimas, como as nuvens carregadas no céu lá fora, ora pacíficas. Àquela altura, a minha farta literatura encontrava-se toda esparramada pelo assoalho da sala. Em ruínas que denunciavam as “minhas próprias” por dentro… Mas, domesticando eu o meu lamento, de posse de meu último curinga, à ave negra e noturna, tétrica e soturna, regurgitei a quinta e derradeira pergunta…

– Maldita ave canora!… Diz-me, diz-me ou vai embora! Quando, quando afinal tornarei a sorver a pura seiva labial? E envolver meus braços no mesmo corpo de outrora? Porventura interceptá-la num breve flerte? Ou ao menos, numa ligeira notícia, apaziguar a minha alma que implora?… Por Lenora!… Diz!… Diz agora… ou nunca mais!!!

Desta quinta, e pela vez última, a ave interlocutora, me ocultando o que quer que soubesse de Lenora, limitou-se a cravejar-me o peito, além dos ouvidos, com aquela expressão familiar e, agora, aterradora…

– “Nunca mais!”

A partir de então, eu já era sabedor de que a minha dor, frente à reminiscência de Lenora, seguiria resistente sob a iminente e frágil aurora… Na memória!… E, como se houvesse esgotado o meu repertório de perguntas e conjecturas, petrifiquei-me diante daquela horrenda criatura. Apenas observando-a, soterrado e paralisado que me encontrava pelo “significado” de sua última e monótona fala. Pois, o que começara como um singelo riso de canto labial, doravante me insurgia na alma majorando-se em insustentável pesar, suportado pela insuportável realidade, naquele instante, insofismável!… E a ave igualmente deteve-se… E ali fica, repousada ainda sobre o busto da pálida Atenas… Mirando o vazio ar com seu estático e emudecido olhar… Como o de um demônio a sonhar!… A luz da inexpressiva vela sobre ela, projeta a pesada sombra no assoalho de fino carvalho… A penumbra mortuária espraiada sobre o meu corpo de rosto pendido, quase morto, delimita as fronteiras do meu circular entorno… E daquelas linhas funerais, ao se lembrar da linda Lenora, a minha alma que ainda chora, não sairá mais, nunca… NUNCA MAIS!!!

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RESENHA: Tendo como primeira pretensão a de prestar uma justa homenagem ao mestre do terror gótico, Edgar Allan Poe, e como pretensão última a de tentar aperfeiçoar ainda mais, à moda thomaziana, aquele que é tido como o poema na língua inglesa mais lido na história… E ainda, rogando eu o merecido perdão pela “ousadia”, naturalmente… Tentarei expor aqui minha técnica e filosofia de composição com o qual conduzi este minucioso e incerto trabalho. Grosso modo, busquei manter a essência da mesma história originalmente proposta pelo autor. Todos os principais elementos, que facilmente identificam o poema que serviu de base, encontram-se nele contidos. Por exemplo: o corvo, o protagonista viúvo e narrador, a sala com a biblioteca onde a história se passa, a recém-falecida Lenora e, especialmente, a célebre frase recorrentemente dita pela ave: “Nunca mais!”, uma tradução belissimamente apropriada para a expressão original em inglês “Nevermore!”.  Ainda que se trate, no rigor, de um conto narrado em primeira pessoa, mantive a preocupação de fazer o leitor ter a sensação de estar lendo um “poema”, trabalhando rimas por quase todo o texto, sempre que julguei oportuno. Também a seleção das palavras, pela estética sonora e pela ideia que cada uma é capaz de carregar em si, representou em si mesma uma preocupação extra, quase microscópica. Espero ter alcançado o ponto exato compreendido entre “a linguagem mais simples e coloquial possível” e “a mais rebuscada erudição literária”. Desta forma, posicionando o leitor num estado de leitura confortável e, ao mesmo tempo, levemente desafiadora… Noutro giro, não sei o quanto isto é importante para você, leitor, mas no meu caso, enquanto escritor, é: minha “pretensão bônus” ao cuidar da presente obra, foi, admito, fazer o leitor verter lágrimas. E se não a atingi, considere meu trabalho um fracasso. Mas, para garantir que realmente não o seja, abaixo, elaborei um pequeno glossário, em ordem alfabética, explicando as palavras do conto que julguei mais difíceis. Recorra a ele sempre que achar uma palavra nova ou desconhecida. Domine todas as palavras do texto e torne lê-lo do começo. Encare-o como um desafio ao seu intelecto. Como uma charada ou um enigma que clama por ser decifrado! Releia quantas vezes julgar necessário, até familiarizar-se com a obra, sempre buscando perceber algo que passou despercebido numa primeira passada de olhos. Mantendo essa disposição de leitor, espero recompensá-lo com a alegria de haver entendido algo novo e, consequentemente, aperfeiçoado, em alguma medida, o seu intelecto. Ao final, estará degustando o conto, saboreando mentalmente, cada palavra, cada sentença, cada ideia que ele pretendeu reunir em si e, sobretudo, cada “poesia” nele contida… E somente então, aplique-me a sua sentença com o rigor do seu julgamento! Afinal, quem pode garantir que você terá outra oportunidade nas mãos?… A de se emocionar conforme pretendido pelos autores?… Talvez, e até “muito provavelmente” eu diria… Nunca mais!

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