Contágio em Gotham City

Via Canal Metalinguagem

Por André Costa

Como Batman se virou contra um inimigo que não podia prender?

Bem-vindos de volta, ilustres fãs de quadrinhos. Talvez vocês não saibam, mas a década de 90 foi marcante para o Batman. Nesse período, nosso herói teve sua espinha quebrada por Bane, ficou paraplégico e elegeu um substituto para usar seu uniforme. Quando Bruce Wayne se recuperou e voltou a atuar como o Homem-Morcego, aos poucos sua cidade começou ser destroçada. O arco Contágio foi o começo da derrocada da cidade.

Antes de falar sobre isso, é preciso recordar um fato importante. Algum tempo antes de ser quebrado por Bane, no arco A Queda do Morcego, Batman conheceu Jean Paul Valley. Desde a sua infância, seu pai o submetia a uma espécie de lavagem cerebral conhecida como o Sistema. Sem que Jean Paul soubesse, ele estava sendo treinado por seu pai para assumir o papel de Azrael, o Anjo Vingador. O jovem não sabia, mas seu pai atuava como assassino de um grupo dissidente dos Templários: A Ordem de São Dumas. Com a morte de seu pai, Jean Paul descobriu toda a verdade e, controlado pelo Sistema, assumiu o cargo de seu pai. Graças a interferência de Batman, Jean Paul conseguiu se libertar do controle mental e seu alter ego, Azrael, se tornou um aliado tão valoroso que, durante o período em que ficou paraplégico, Batman escolheu o jovem para vestir o seu uniforme. O grande problema foi que a Ordem de São Dumas continuou trazendo problemas para os dois aliados. Tanto isso é verdade que o próprio grupo foi responsável por disseminar o vírus Ebola Golfo-A, uma variante do devastador ebola, em Gotham City.

Batman enfrenta o vírus Ebola Golfo-A

Não é segredo pra ninguém, ilustre fã, que com tanto bandido perigoso, Gotham City é uma espécie de sucursal do Inferno. Imagine como foi desesperador para nosso herói lidar com um vírus que destroçava o corpo de suas vítimas, ao ponto de sair sangue dos olhos, em poucas horas. Foi uma das poucas ocasiões em que o solitário Batman se viu obrigado a pedir ajuda a seus aliados, pois não conseguiria lidar com esse inimigo sozinho.

É impossível ler essa saga sem encontrar paralelos com o que está acontecendo atualmente no mundo real, no nosso país. Peter Maris, um membro da Ordem de São Dumas, sabia que o vírus chegaria em Gotham. Por isso, pegou um voo na África e desembarcou no condomínio de alto luxo que morava em Gotham, o Babylon Towers. Quando chegou, reuniu-se com todos os moradores do prédio, avisou-os que a praga estava chegando e os convenceu que o melhor a fazer era demitir todos os empregados, já que poderiam trazer o vírus para o local. Infelizmente, o morador passou a apresentar sintomas e fez com que o local fosse o epicentro da epidemia. Os empregados, sem saber que estavam infectados, transmitiram a doença para seus parentes e amigos com tal velocidade que o caos se instalou na cidade. Ou seja, assim como no mundo real, a classe mais abastada foi responsável pela disseminação da doença.

Ao perceber que os grã-finos são os responsáveis pela moléstia, parte da população de Gotham se dirige a Babylon Towers com a intenção de colocar o local abaixo. Enquanto isso, grupos de pessoas passam a saquear as lojas e promover a balburdia. A situação é tão desesperadora que chega ao ponto de Batman e seus aliados entrarem em confronto com a massa ensandecida.

Durante o caos reinante, nosso herói se concentra em preparar uma vacina usando o sangue de pessoas que tinham resistência ao vírus como matéria-prima. Seu desespero é tamanho que libera do Arkham a única pessoa que poderia resistir a doença, a Hera Venenosa, e a coloca dentro do luxuoso condomínio com a vacina. Infelizmente, a vacina se revela ineficaz e a vilã passa a trocar bens dos moradores por seus beijos, dizendo que eles seriam a cura, e os envenena. Cabe a Batman e a James Gordon, resolverem a situação. Convêm ressaltar que, nesse período, o prefeito de Gotham, Armand Krol, havia tirado Gordon da função de comissário e colocado o incompetente Andrew Howe em seu lugar.

A grande sacada da história é dar destaque a população anônima de Gotham ao ponto da gente torcer para que não sejam vítimas da doença, Diante da incapacidade do prefeito Krol de lidar com a praga, o governador decreta quarentena em Gotham. Além disso, decreta lei marcial e todos os acessos a cidade são bloqueados pelo exército e a guarda nacional.

Gotham City isolada e sob Lei Marcial

Além de contar com o Robin Tim Drake, que contrai o vírus e quase morre, Batman tem como aliados Asa Noturna, Azrael, Caçadora e Mulher-Gato. Coube a irmã Lilhy, ex-membro da Ordem de São Dumas e aliada de Azrael, encontrar a cura para o vírus pesquisando em livros antigos do próprio grupo. Infelizmente, milhões de moradores de Gotham já haviam morrido.

Nos Estados Unidos, esse arco foi publicado em 1996 nas revistas do Batman e de seus aliados. No Brasil, ele foi publicado em 1998 pela editora Abril nas revistas Batman Vigilantes de Gotham 17 e 18 e Batman 17 e 18.

A equipe criativa contou com Alan Grant, Doug Moench, Denny O’Nell, Chuck Dixon, Christopher Priest e Garth Ennis nos argumentos e Kelley Jones, Vince Giarrino, Tommy Lee Edwards, Jim Balent, Dick Giordano, Barry Kitson, Frank Fosco e Graham Nolan na arte. Parte dessa equipe foi responsável pela saga A Queda do Morcego.

Faço um convite a vocês, ilustres fãs de quadrinhos: leiam esse arco. Vocês verão que a situação de Gotham City é bem pior que a nossa. Contudo, é bom rezar para que a vida não imite a arte.

Até breve!

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André Costa, 44 anos. Professor de Inglês em escola regular, escritor, tradutor. Apreciador da Cultura Nerd em geral, principalmente de quadrinhos de Super-Heróis. Autor do livro Cavaleiro das Trevas: Uma Leitura Sócio-Cultural e Ideológica do Batman.

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