O Máskara em Quadrinhos

Por Fernando Fontana

Você muito provavelmente conhece o Máskara pela comédia estrelada por Jim Carrey em 1994, com suas inúmeras caras e bocas, e que fez um grande sucesso, certo?

Você sabia que esse filme foi baseado em um personagem dos quadrinhos criado por Mike Richardson e publicado pela editora Dark Horse? Pois é, com a diferença de que o Máskara dos quadrinhos é muito, mas muito mais violento do que sua versão cinematográfica.

Chuck Russel, o diretor, queria uma adaptação mais fiel aos quadrinhos, o que implicaria em um personagem vingativo, sádico e capaz de matar com requintes de crueldade qualquer um que se colocasse em seu caminho, não importando se fossem bandidos ou policiais.

Seria algo mais próximo do terror do que da comédia, mas os produtores (sempre eles), ficaram com medo de tamanha violência não ser bem recebida pelo público, e optaram por dar um tom mais leve ao filme, transformando o Máskara em uma espécie de herói amalucado.

Com medo de que o filme não rendesse o esperado, os produtores transformaram o Máskara em um personagem menos violento.

Essa decisão fez do ator Jim Carrey a escolha perfeita para viver o personagem. É bem possível que até mesmo na versão mais sombria ele ainda funcionasse, e não podemos saber como seria o faturamento do filme, caso o Máskara fosse para as telas como foi concebido nos quadrinhos. Fato é que o filme custou aproximadamente 20 milhões e levou 350 milhões para os cofres do estúdio, deixando todos os envolvidos com um sorriso de orelha a orelha.

Houve uma sequência, “O Filho do Máskara” (2005), mas sem Jim Carrey, e tão ruim que eu me recuso a falar sobre ela aqui (6% de aprovação dos críticos no site Rotten Tomatoes, e ainda acho muito).

A editora Pipoca e Nanquim acaba de publicar um volume em capa dura contendo as minisséries “O Máskara”, “O Retorno do Máskara” e “O Máskara Contra-Ataca”, e se você estiver disposto a desembolsar uma quantia razoável (neste momento em que escrevo, R$84,90 cascalhos na Amazon), você poderá conferir o quão mais insano é o roteiro de John Arcudi, acompanhado pela arte de Doug Mahnke.

Na trama, assim como no filme, Stanley IpKiss é o primeiro a colocar a máscara, mas, ao contrário do IpKiss interpretado por Carrey, o dos quadrinhos não é um sujeito calmo e gentil, é basicamente um escroto, e ao colocar a Máskara, se torna ainda mais cruel. O quão cruel? Bom, há uma cena em que Ipkiss mata sua antiga professora na frente de vários alunos, apenas porque ela o envergonhou quando criança.

Uma versão bem mais violenta do personagem

Sangue é o que não falta, o usuário da máscara não se torna invulnerável, e tão pouco se desvia das balas, na maior parte das vezes ele acaba sendo atingido em cheio, abrindo rombos por onde jorram litros, o que não é um problema, uma vez que não sente dor e possui um fator de regeneração altíssimo e ilimitado.

A história bebe da fonte de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, com a máscara dando uma nova personalidade ao usuário que abandona quaisquer inibições ou restrições, agindo de acordo com os seus desejos. Mesmo indivíduos bem intencionados acabam sucumbindo ao poder e à tentação de utilizá-lo, invariavelmente perdendo o controle, machucando amigos ou ameaçando crianças inocentes.

O roteiro tem a sacada de nos mostrar como o portador da máscara enxerga o mundo, e é algo semelhante a um cenário cartunesco, mas criado por Tim Burton em um de seus dias mais perturbados.

Muitos dos que a utilizam, horrorizados com seus atos ou com aquilo que por pouco não fizeram, decidem remove-la e se livrar dela.

No decorrer das três minisséries várias pessoas utilizam a máscara, cada uma delas visando um objetivo específico, que pode variar de varrer a criminalidade da cidade, ser o novo chefão do crime, até se transformar em um astro do Rock.

Armas de Fogo e sangue não faltam nos quadrinhos

Outros personagens conhecidos do público aparecem nos quadrinhos, como o tenente Kellaway, policial que no filme e o no desenho animado é uma pedra no sapato de IpKiss, e Walter, um capanga com tamanho e força descomunal (sobre-humana, arrisco dizer), que fica obcecado pelo Máskara e o caça por toda parte, lutando com diversos portadores.

Você pode ser fã da atuação de Carrey e gostar de como o personagem foi retratado no cinema, isso não te impedirá de se divertir com o original, mas é quase certo que alguns irão torcer o nariz.

No geral é uma HQ divertida (humor negro, é bom que se diga, mas, ainda assim, divertida), de leitura fácil e rápida, e com uma arte bastante razoável (fiquei com a impressão de que ela inclusive melhora no decorrer das minisséries).

Se você não precisar quebrar o cofrinho para comprar, vale a pena ter na sua coleção.

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Fernando Fontana é adulto e escritor amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, ambos disponíveis na loja deste site, além de colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre livros e quadrinhos antigos.

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