Olá todo mundo, bem vindos ao vale! Eu sou Lhurien Gahalanciel, elfo, ranger e caótico (na verdade ainda sou Everton Nucci, mas acabo de assistir “The Witcher” e me recordar do quanto gosto de RPGs medievais). Minhas pessoas queridas, eu realmente me empolguei muito assistindo à essa série da Netflix, a produção, a direção, as atuações e até os efeitos digitais – que costumam ser o ponto fraco da plataforma – estavam agradáveis. A série do bruxo traz a magia com força total ao serviço de Streaming e se a Netflix sonha em ter seu próprio “Game of Thrones” eu diria e ela encontra em “The Witcher” a sua melhor chance até o momento.

Deixando de lado todo essa minha vertente de fã de fantasia, preciso falar do verdadeiro intuito dessa coluna: representatividade! Para isso é necessário tocar em um assunto espinhoso, e não é o novo filme do “Sonic” (são piadas como essa que agregam valor ao texto). Na verdade eu preciso falar de feminismo, exatamente, aquele movimento criado para impedir as mulheres de depilar a axila, induzi-las a abortar todos os fetos do mundo, introduzir objetos religiosos em seus orifícios e urinar na cara dos machos opressores que logo em seguida devem ser mortos #sarcasmo.

Feminismo é um desses palavrões míticos alardeado nos últimos tempos e reforçado por inúmeros preconceitos, como o apelido de feminazi, frases de efeito como a famosa “Quem lacra não lucra!” e conceitos absurdos como a história de que as feministas querem superioridade em relação aos homens e que odeiam todo o ser do sexo masculino considerando até mesmo crianças como potenciais estupradores. Antes de prosseguir eu devo realmente pedir licença às mulheres para poder falar de feminismo, afinal de contas eu posso até ser Queer e não dar a mínima para rótulos de gênero, mas o fato é que eu, definitivamente, não sou mulher, e portanto esse não é meu lugar de fala. Entretanto, o conceito básico desta coluna é a representatividade e não há como eu diversificar o assunto sem me intrometer no lugar de fala alheio, se assim fosse, eu não poderia falar sobre personagens trans, lésbicas, bissexuais e afins o que tornaria essa coluna muito restrita. Portanto, mulheres, perdoem a intromissão!

É claro que não vou dissertar sobre o movimento feminista em si, é um assunto complexo demais sobre o qual não tenho conhecimento suficiente. O que eu vou fazer é aplicar um método de análise à obra (o Teste Bechdel) para definir se há indícios de feminismo na série. Resumindo a história, “The Witcher” deveria ser sobre um bruxo renegado, mas ao assistir a série eu tive a impressão de que o tempo em tela do personagem e até mesmo sua relevância na trama não parecia estar em primeiro lugar.

Na verdade, a narrativa me deixou um tanto quanto confuso ao seguir por três tramas paralelas, a do bruxo, a da bruxa e a da princesa. E dessas três histórias claramente há um cuidado muito maior quando adentramos à vida da bruxa do que há com a história das outras duas personagens.

Yennefer de Vengerberg, interpretada por Anya Chalotra.

A bruxa segue a verdadeira “jornada da heroína” enquanto tem seu passado explorado, sua personalidade trabalhada, bem desenvolvida e vê seus poderes avançando de uma forma deslumbrante, aliás, uma salva de palmas para a maneira como a série utiliza o elemento da magia, é simplesmente lindo. Enquanto a bruxa recebe toda essa atenção da trama, o bruxo fica relegado ao estereótipo de marombado ranzinza que é jogado pra lá e pra cá no mapa só pra cumprir suas “side quests” (que basicamente consistem em matar monstros e mais monstros).

A princesa fica por último nessa fila de prioridades tendo basicamente que fugir e se esconder durante toda a temporada, há indícios de que ela abrigue um poder enorme em si, mas nada muito bem explorado por enquanto.

O bruxo, o suposto protagonista, até lida com questões de preconceito e pincela a maneira como as pessoas o odeiam por ele ser quem é, além de criar um suspense com seu passado obscuro, mas, novamente, nada tão profundo quanto a história da bruxa.

Observando esses detalhes eu tive a impressão de que a obra tinha um toque de feminismo.  Isso sem contar as cenas de batalha quando as bruxas tocam o terror nos soldados (já elogiei o exímio uso que a série faz da magia? Ok!). Para dar voz a essa impressão decidi pesquisar o assunto e foi então que descobri o “Teste Bechdel”, um método surgido, meio que por acaso, numa tira da cartunista Alison Bechdel na qual era ironiza a maneira como Hollywood sub-representa as mulheres.

O Teste Bechdel

O teste é bastante simples, basta submeter qualquer produção a três perguntas: 1 – A obra tem ao menos duas personagens femininas com nome? 2 – As personagens têm ao menos uma cena de diálogo só delas? 3 – Na cena, o assunto envolve qualquer coisa que não seja uma personagem masculina? Se a resposta for sim para todas as perguntas então o filme, livro, série, game, etc, passou no teste. Pode parecer bobagem mas muitos filmes são reprovados por utilizarem as mulheres apenas como suporte para as personagens masculinas. Essas mulheres servem como prêmio final, são sequestradas, mortas, estupradas tudo o que for preciso para deixar o machão louco de raiva, em busca de vingança, querendo matar o vilão e salvar o dia.

“The Witcher” passa com louvor pelos três crivos. Há clãs inteiros de bruxas, diálogos sobre magia, poder e autoconhecimento, homens não são a prioridade. Isso significa que a série é feminista? Não necessariamente, isso significa que as personagens femininas estão minimamente bem representadas. Ainda assim, na minha modesta opinião eu vi, sim, algo de feminista na narrativa.

A maneira como a bruxa constantemente questiona o papel da mulher naquela sociedade, visto que os homens as enxergam como meros receptáculos de bebês, o modo como um pai enxerga a filha como simples propriedade podendo vendê-la como escrava ao bel prazer. Ouso dizer que a série faz uma analogia interessante sobre empoderamento feminino e como os homens tentam moldar as mulheres a todo custo. Aqui elas devem escolher entre poder e útero, como se de alguma forma tivessem que se igualar aos homens para se tornar fortes, e mesmo assim, não importa o quão forte ela seja ela ainda deve ser bonita.

Em suma, o que eu vi em “The Witcher” foi uma série muito bem produzida, com uma história instigante, envolvente, muito bem cuidada e nada superficial. Tem defeitos, obviamente, a trama que avança e retrocede no tempo não fica clara o suficiente, e o fato das personagens não envelhecerem nunca não ajuda em nada, volta e meia são introduzidas falas expositivas para nos situarmos. E se a questão é fortalecer as mulheres, acaba parecendo um tanto quanto gratuito haver tantas cenas com mulheres nuas sem haver cenas com homens em igual condição para contrabalancear.

Também concordo com a análise de Leon Martins do canal “Coisa de Nerd” que diz que a magia nesse universo tem enorme relevância na trama, mas faltam informações sobre as regras de funcionamento delas – volta e meia o bruxo saca e bebe uma poção no meio de uma batalha e você deve simplesmente aceitar. No fim das contas o saldo ainda é positivo e já espero ansiosamente pela segunda temporada. Não conhecia nada sobre esse universo, nem games, nem livros, nem nada, mas gostei muito do que vi e recomendo a todos.

E se você quiser bater um papo sobre “The Witcher” me indicar um livro ou game para me aprofundar no universo mande seu e-mail para: contato@superninguem.com.br ou deixe um comentário abaixo.

Como recomendação do dia, deixo o canal da Louie Ponto https://www.youtube.com/user/loouieee, adoro a maneira como ela fala sobre universo feminino,  sexualidade, identidade de gênero e papel de gênero. Por hoje é tudo, até mais para todos vocês, obrigado por lerem essa coluna e fiquem em paz!

Trailer “The Witcher”, Primeira Temporada

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, elfo caótico,  mago e Queer por autodefinição.

2 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Pelo trailer parece ser bem legal!

    • Everton Nucci disse:

      Olá Julie, obrigado por ler a matéria. Acho que vc vai gostar muito dessa série. Assista e depois me conte. E continue acessando o site!

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