Conto: O Preço do Teletransporte (Capítulo 2)

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Capítulo 2: Duas Filhas

– Ok – disse Cooper, sorrindo – como foi que vocês fizeram isso?

– Fizemos o que, Tio Ben? – Perguntou Rachel, sem compreender a pergunta.

– O truque, como você estava em sua casa e agora…

– Ben, Ben – Richard fez o sinal de silêncio com o dedo – não tem truque algum, vamos entrar que eu já lhe explico.

– Explica o que, pai?

– Nada, Rachel, você conhece o seu tio Ben, confuso como sempre. Veja só o que eu lhe trouxe – Richard tirou do paletó uma pequena caixa com a imagem de uma mulher com armadura negra com detalhes dourados, segurando escudo e espada.

– Não acredito, PRINCESA GUERREIRA 4, você conseguiu?

– Claro, docinho, eu disse que conseguiria.

Os três adentraram o quarto, um dos mais luxuosos do hotel, a janela estava fechada, o purificador e condicionador de ar ajustado para uma temperatura agradável. Rachel correu e saltou sobre a enorme cama de casal desarrumada, sobre ela estava uma taça com sorvete de morango e chocolate até a metade, cobertos com uma quantidade generosa de calda e granulado colorido. Ao lado da taça, o aparelho de realidade virtual, onde ela em breve estaria jogando Princesa Guerreira; uma espécie de capacete feito de uma liga ultraleve, com visor negro e plugues de ouvido, desenvolvido para imersão total.

– Sorvete, antes do almoço? – Perguntou Richard.

– Desculpa, é que eu estava com muita vontade – ela respondeu enquanto abria a caixa, onde encontrou um objeto de metal circular, do tamanho de uma moeda.

– Esse jogo – disse Cooper – eu ia dar para ela de aniversário, mas só vai ser lançado daqui duas semanas.

– É, eu sei, eu fiz algumas ligações, cobrei alguns favores, o fabricante não se importou em me ceder uma cópia.

– Pai, posso jogar?

– Claro, docinho, vai em frente, papai vai conversar um pouco com o Tio Ben.

Rachel mal ouviu a resposta e já inseriu o jogo no capacete – uau, não acredito que eu vou jogar Princesa Guerreira 4 antes de todo mundo.

– Pronto, agora ela não nos ouve, vamos para o outro cômodo, eu vou te contar tudo o que está acontecendo – disse Richard.

– Ok, você é quem manda.

Ambos cruzaram a passagem que ligava o quarto a uma saleta com um pequeno sofá e uma mesa com duas cadeiras. Sentaram-se nelas, um de frente para o outro.

– Uma semana atrás – disse Richard – minha filha queria fazer compras no centro da cidade; me ligou e pediu para utilizar o teletransportador, ela e nossa empregada, Lilly, você se lembra dela, não é?

– Sim, gordinha, mas jeitosinha, eu me lembro.

– Bom, eu tenho acesso remoto ao teletransportador da minha casa, e ativei dois dos emissores para que transportassem Rachel e Lilly para a empresa, nos receptores que eu tenho na sala anexa ao meu escritório.

– Teletransportadores em casa e no escritório, um dia eu quero ser membro do conselho diretor.

– Em breve pode não existir mais conselho diretor. Tudo parecia transcorrer normalmente, mas, infelizmente, alguma coisa deu muito errado, porque só Rachel chegou na empresa, completamente coberta de sangue e vísceras.

– Coberta com sangue e vísceras? Mas o que…oh, meu Deus! Lilly morreu! É isso, não é? O teletransportador matou Lilly.

– O teletransportador espalhou pedaços de Lilly por toda parte, minha filha entrou em choque, começou a gritar, tentei acudi-la, pedi para Grace me ajudar.

– Espera um pouco, Grace sabe?

– Eu estava desesperado, precisava de ajuda, o que você queria que eu fizesse?

– Não, eu entendo, é só que quanto menos gente souber disso, melhor.

– Não se preocupe com ela.

– Se ela sabe, sua esposa sabe, isso se ela não abriu o bico para mais ninguém.

– Eu comprei o silêncio dela, dei um aumento salarial bem generoso. Se Susan soubesse de algo, pode acreditar, já teria falado comigo.

– Ok, Lilly morreu, isso é péssimo, o teletransportador apresentou um defeito, um em um milhão, mas nós podemos contornar, não é impossível – Cooper disse enquanto coçava o queixo.

– É muito pior, Ben, porque enquanto Grace estava ajudando Rachel, tentando acalmá-la, e eu tentava descobrir o que havia acontecido, recebi uma chamada.

– De quem?

– Rachel.

– Rachel, sua filha?

– Sim, Rachel, minha única filha, querendo saber porque somente Lilly havia sido teletransportada e ela não.

– Não – Cooper levantou e se afastou – não, não, não, isso é impossível.

– Não, não é, por que você acha que eu estou beirando a insanidade, hein? – Richard levantou-se também – neste exato momento, minha filha está em casa e ao mesmo tempo no quarto ao lado, jogando Princesa Guerreira.

– Rick, por Deus do céu, a máquina transporta pessoas, eu posso compreender que algum defeito tenha matado Lilly, mas ela não pode duplicar alguém, isso não faz sentido algum.

– Eu passei os últimos dias pensando sobre isso, dia e noite, sem parar, e a conclusão que eu cheguei, escuta, a conclusão que eu cheguei, ela é tão terrível, que eu torço com todas as minhas forças para que Henry Wright diga que estou errado.

– Do que você está falando?

– Talvez seja melhor conversarmos com Wright antes de eu falar qualquer coisa, você não vai querer passar por isso agora.

– Corta essa, Rick, você não vai fazer isso comigo, não vamos sair daqui até você dizer que teoria tão terrível é essa que você formulou.

Richard baixou os olhos, parecia estar refletindo antes de falar – Ben, pense por um instante, se o teletransportador move uma pessoa de um ponto ao outro, então, não há como gerar um clone, simplesmente não há; ou a pessoa chega do outro lado, ou, por um defeito, não chega.

– Concordo, concordo com cada palavra que você disse, mas você tem duas filhas agora, e isso desmonta essa lógica.

– Exato, desmonta essa lógica, e após muito pensar, eu finalmente compreendi o porquê de meu pai não autorizar o teletransporte de humanos antes de entrar em coma, o porquê de ele insistir em mais testes. A máquina não leva algo de um ponto ao outro, pelo menos não de forma íntegra. Ela desintegra o objeto, envia a matéria para o outro lado e depois reintegra.

– Não estou entendendo – Cooper disse balançando a cabeça – onde você quer chegar?

– A máquina não envia objetos e seres vivos por um portal, ela os desintegra e depois reintegra do outro lado, utilizando as informações que possui sobre aquilo que transportou. No caso de uma mesa ou de uma cadeira, não há qualquer problema, mas, no caso de seres-humanos, bom, pense, você acha mesmo que alguém sobrevive após ser desintegrado?

– Você não está falando sério – Cooper arregalou os olhos, compreendendo onde o amigo queria chegar.

– Eu estou falando muito sério, cada pessoa que utilizou esse teletransportador, cada uma delas, morreu no emissor, e o que vimos no receptor, é uma cópia perfeita dela.

– Rick, isso é loucura, eu usei o teletransportador diversas vezes, caramba, eu usei hoje mesmo para vir até a empresa.

– Não, muito provavelmente você não usou, o Ben de hoje de manhã usou, você é uma cópia, e ele também era uma cópia do Ben que usou antes dele, todos que vem utilizando os teletransportadores são cópias das cópias da pessoa que o utilizou pela primeira vez.

– Não, me recuso a aceitar isso, eu sei quem eu sou e eu não sou uma cópia, isso é loucura, tem que haver outra explicação.

– Pode ser que haja, entende agora porque precisamos ver Wright?

– Ótimo, vamos agora, vamos já, eu quero saber o que está acontecendo, porque se houver uma mínima chance dessa sua fantasia ser verdade, isso quer dizer que…

– Isso quer dizer – interrompeu Richard – que ao dar a ordem para fabricar e vender os teletransportadores, eu me tornei o responsável pela morte de milhares de pessoas, embora ninguém saiba disso. Isso quer dizer que eu sou um clone, você, o conselho diretor, minha esposa, minha filha, ou filhas, todos nós somos clones.

– Loucura, isso não passa de loucura – Cooper se limitou a dizer.

Richard tocou o braço de Rachel – filha, me ouve um segundo.

A menina fez um movimento com a mão que pausou o jogo, para logo depois remover o capacete de realidade virtual.

– O que foi, pai?

– Eu e o tio Ben temos que ir, você pode continuar a jogar, mas chega de doces por um tempo. O almoço será servido como sempre ao 12:00.

– Não posso voltar para casa, pai?

– Não, ainda não, sua mãe ainda está doente e acho melhor você ficar aqui.

– Ela vai melhorar quando? Ainda não posso ligar para ela?

– Em breve, eu prometo, mas ainda não.

– E minhas amigas, não posso chamar ninguém para vir aqui?

– Rachel, é complicado, papai lhe explica depois, ok? Aproveite o jogo – Richard beijou a filha na testa.

– Ok, mas eu não aguento mais ficar sozinha nesse quarto.

– Tchau, Rachel, a gente se vê – disse Cooper.

– Tchau, Tio Ben, vem mais vezes, não se esqueça da minha festa.

– Não, de jeito algum, jamais me esqueceria de um evento tão importante.

Richard e Ben Cooper saíram do quarto e fecharam a porta.

– Eu não vou conseguir esconde-la por muito mais tempo – disse Richard.

– E o que você pretende fazer? – Perguntou Cooper enquanto se dirigiam para o elevador.

– Eu não sei, é minha filha ali dentro.

– Não, espera – Cooper segurou Richard pelo ombro – sua filha, pelo que eu sei, está em sua casa, essa menina é um clone.

– Você ainda não entendeu, não é? Se eu estiver certo, a menina lá em casa também é um clone, a original morreu meses atrás. Você viu ela, conversou com ela, ambas têm as memórias de Rachel, ambas são Rachel.

– Não podem existir duas Rachel, isso nem mesmo é possível do ponto de vista legal – Cooper disse após pressionar o botão do elevador.

– O que você sugere que eu faça? Mate uma delas? Qual? A que está lá no quarto? É isso, Ben?

– Não, droga, claro que não, não somos assassinos. Mude o nome dela, mande-a para estudar no exterior, trate-a como se fosse a filha de uma amante ou coisa parecida.

– Ela sente falta da mãe, das amigas, vou manda-la para longe de mim e da família? Eu desliguei toda e qualquer comunicação naquele quarto, mas quanto tempo vai levar para ela se cansar e conseguir falar com alguém? – Perguntou Richard logo após entrar no elevador.

– Não sei, Rick, para ser sincero, isso é tão surreal que eu não sei. Teríamos que consultar nosso corpo jurídico, perguntar sobre o que pode ser feito. E ainda tem a morte de Lilly.

– Depois que tivermos conversado com Wright, e soubermos exatamente o que está acontecendo, tomamos as providências, sejam elas quais forem.

Ambos partiram no Hovercar em direção a uma reserva florestal localizada a algumas centenas de quilômetros de Nova York.

– Tem um detalhe que você não está levando em consideração, Rick, esse sujeito, o Wright, ele trabalhava com seu pai, certo?

– Certo, depois de meu pai, ele é o que mais sabe sobre o projeto.

– Ok, e você precisou da assinatura dele quando tomou a decisão de permitir que pessoas utilizassem o teletransportador, não foi?

– Dele e do Conselho Diretor, onde você quer chegar?

– Onde eu quero chegar é que se ele sabe tanto do projeto quanto você acha que ele sabe, então autorizou o uso das máquinas sabendo que as pessoas seriam vaporizadas e depois reconstruídas.

– Não, é como eu disse, o único que conhecia o projeto como um todo era meu pai, Wright conhece bastante, mas não posso acreditar que ele seria capaz de autorizar algo assim. Por que ele faria isso?

– Depois de você, ele é o maior acionista, certo? Quantos milhões ele já ganhou desde que começamos a teletransportar pessoas?

– Não, Ben, isso não prova nada, isso…

– E depois que ele assinou os papéis e ganhou milhões, ele foi para uma casa no meio da floresta, certo? Você viu ele utilizar alguma vez o teletransportador? Alguém viu?

– Não, ele não usa, ele jamais usa.

– Rick, o desgraçado sabe, ele sempre soube.

Continua na parte 3…

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Fernando Fontana é adulto e escritor amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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