Zumbis e Crítica Social em dos melhores filmes de Romero

Walking Dead, Guerra Mundial Z, Invasão Zumbi, Zumbilândia, todas estas obras devem muito a George Romero (1940 – 2017), que em 1968, com seu “A Noite dos Mortos Vivos”, criou e popularizou um gênero que renderia milhões nas telas dos cinemas e da TV.

Os mortos que andam e se alimentam de carne humana, fascinam.

“Quando não houver mais espaço no Inferno, os mortos caminharão sobre a Terra”.

Peter

Dez anos depois, o diretor entregaria “Despertar dos Mortos”, um filme maior, com mais recursos (embora ainda limitados) e com uma severa crítica ao consumismo desenfreado, transformando-se em espécie de manual para os que desejassem se aventurar no universo dos mortos vivos.

Os mortos se espalharam pelas ruas, atacando e devorando os vivos, instaurando o caos, enquanto a sociedade e o governo tentam compreender e conter a praga, sem obter sucesso.

Romero não se preocupa de fato em explicar ao público o real motivo pelo qual os zumbis surgiram, isso não é importante, e sim, o cenário em si e a interação entre os personagens.

Um grupo composto por dois policiais, Peter (Ken Foree) e Roger (Scott Reiniger), um piloto de helicóptero, Stephen (David Emge) e sua namorada, funcionária de uma Rede de TV, Francine (Gaylen Ross), fogem e chegam até um Shopping Center, onde decidem se refugiar.

Os mortos caminham sem rumo pelo Shopping Center

O lugar está tomado por mortos vivos, mas o grupo, com exceção de Francine, acha possível lacrar as portas e exterminar os zumbis em seu interior. Eles acreditam que vale a pena se arriscar por um abrigo com tantas vantagens, enquanto a moça prefere seguir viagem em busca de outro local, mais seguro e com mais pessoas.

“Estou com medo, vocês estão hipnotizados por este lugar. Tudo é tão fascinante para vocês que não enxergam que isto é uma prisão”.

Francine

A crítica ao consumismo de Romero começa a tomar forma. O público é levado a crer que o Shopping realmente é o lugar perfeito para se ficar aprisionado e cercado por zumbis por todos os lados.

Não são apenas os vivos que desejam estar ali. Os mortos seguem caminhando pelo Shopping, percorrendo os corredores, subindo e descendo escadas, entrando e saindo de lojas, carregando objetos, em um movimento incessante.

Francine não compreende, e questiona: por que vieram para cá? Stephen é quem responde: “Algum tipo de instinto, memórias, coisas que faziam, era um lugar importante em suas vidas”.

Os zumbis de “Despertar dos Mortos” não são tão ameaçadores quanto os vivos

E já que estamos falando dos zumbis, há uma mudança entre os deste filme e os de “A Noite dos Mortos Vivos”, agora, eles recebem uma maquiagem em tons cinza e azulado, o que permite identificarmos rapidamente quem é vivo e quem já passou dessa para melhor. Não representam, no entanto, grande ameaça aos protagonistas, continuam extremamente lentos e desajeitados, fáceis de empurrar, derrubar, esmurrar e, finalmente, eliminar, causando dano na cabeça.

Dr. Rausch: Se não há alimento, devorem os mortos.

Quando conseguem ferir ou matar é porque atacam de surpresa ou em grande quantidade.

Como quase sempre, em obras do gênero, os zumbis são uma ameaça muito menor do que os vivos, incapazes de se unirem contra a ameaça comum.

Em uma rápida comparação entre zumbis e seres-humanos, destacam-se duas características levantadas pelo Dr. Millard Rausch (Richard France): “Estas criaturas não são humanas, atacam apenas humanos, não atacam outros seres iguais”; “Eles não ficarão sem alimento enquanto nós estivermos vivos”.

Os zumbis não precisam se preocupar em serem atacados por outros zumbis, já os seres-humanos não tem este luxo, são ameaçados tanto por zumbis, quanto por seus pares. E se os mortos são monstruosos por devorarem seres-humanos, o Dr. Rausch, preocupado com a escassez de alimento decorrente da paralisação de inúmeros serviços, informa que não haverá outra solução, senão os humanos devorarem os mortos, o que aumentaria em 20 vezes a reserva de alimento.

A questão que nos é proposta é: quem são os verdadeiros monstros?

No terceiro e último ato do filme, uma gangue de motoqueiros localiza o Shopping e percebe que há pessoas vivendo lá dentro. Embora haja alimento e bens de consumo suficientes para todos, eles não estão dispostos a negociar, estão fortemente armados e querem o lugar, os que estão lá dentro também não pretendem ceder. O grande confronto de “Despertar dos Mortos” se dá entre os vivos.

O grande confronto de “O Despertar dos Mortos” se dá entre os vivos

Quando os motoqueiros entram em cena demonstram um comportamento estúpido e animalesco. Depredam o lugar e atacam os zumbis não para sobreviver, mas por diversão.

Esta outra característica tipicamente humana, destruir e caçar por diversão é reforçada em cena onde Peter e Stephen, em busca de armas, entram em uma loja de itens para caça. Romero faz com que a câmera dê um close nas cabeças dos animais empalhadas e expostas na parede como troféus.

De volta aos motoqueiros, eles chegam, inclusive a roubar jóias e dinheiro dos zumbis.

Há um tiroteio, um dos motoqueiros cai e é devorado por uma grande quantidade de zumbis. Em uma cena grotesca, os mortos arrancam órgãos e a carne de seus ossos. O departamento de arte utilizou tripas de boi para dar maior veracidade à cena.

O final permite uma certa dose de esperança, e até o último momento você não sabe quantos dos protagonistas de fato sobreviverão.

O que se sabe, com certeza, é que os mortos vivos recuperaram o seu precioso Shopping Center, voltando a caminhar sem rumo definido em seu interior.

Para encerrarmos, um diálogo entre Peter e Francine, enquanto observavam os mortos arranhando o vidro blindado das portas, desesperados para adentrar o lugar:

Peter: Eles não sabem porque estão aqui. Só se lembram que devem ficar aqui.

Francine: Que diabos eles são?

Peter: Eles são nós, isso é tudo!

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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