Olá todo mundo, bem vindos ao vale! Eu sou Everton Nucci e nasci nos anos 80, aquela época em que a humanidade entrou num surto de loucura coletiva, jogou o senso estético no lixo, achou que mullets era um corte de cabelo legal, que os homens só poderiam vestir shortinhos ultra curtos, e as mulheres usar blusas com mangas bufantes.

É também a época na qual todas as músicas do planeta se resumiam a sintetizadores japoneses. Também foi a época em que o cinema encheu-se de homens brancos bombados, descamisados e invencíveis. Nessa época havia uma divisão muito clara do que eram os desenhos de meninos e os desenhos de menina, “Rambo” e “Comandos em ação” eram para meninos, “Ursinhos carinhosos” e “Meu Querido Pônei” eram para meninas, mas foi também nessa época que surgiu algo vindo meio que na contramão dessa ideia de que meninos assistiam desenhos cheios de ação e meninas assistiam desenhos cheios de fofura, foi nessa época que surgiu “She-Ra, a princesa do Poder” nessa época as mulheres foram à luta, pelo menos nesse desenho animado.

“She-Ra, a Princesa do Poder”, versão dos anos 80

Devo confessar que havia escrito todo um parágrafo contando a história da animação original, infelizmente isso deixou o texto enorme, então resolvi substituir o parágrafo pelo #resumotosco: Nos anos 80 lançam “Conan – o Bárbaro”, empresa resolve vender bonecos do filme, empresa faz muitos bonecos, empresa assiste ao filme, empresa nota que o filme é muito violento para vender bonecos para crianças, empresa muda o visual dos bonecos e improvisa o desenho “He-Man e os Mestres do Universo” como forma de marketing, desenho faz sucesso e vende muitos bonecos, empresa quer vender mais bonecos, faz outro desenho igualzinho, porém numa versão feminina: “She-ha a Princesa do Poder”. Fim do #resumotosco.

Foi então que em 2018 a Netflix, em parceria com a Dreamworks trouxe à vida uma nova versão do clássico. Assim chegou à plataforma “She-Ra e as Princesas do Poder”; a sutil mudança no nome não vem por acaso, já falo sobre isso! Primeiro, tenho que tirar o elefante da sala e dizer logo de cara tudo o que me desagradou na série, e não foram poucas coisas. Para começar o traço das personagens e a animação são terríveis, extremamente simplistas e sem fluidez. Nem parece ser algo produzido nos dias de hoje, ainda mais por uma empresa do porte da Dreamworks, isso foi com certeza o que mais me desanimou no início. A animação dos anos 80 tinha uma qualidade excelente para a época, o que incluía sequencias de ação animadas a partir de técnicas de reprodução de filmagens com atores reais, toda vez que She-Ra corria, saltava ou jogava uma pedra ela fazia o movimento como um humano real faria (era a captura de movimentos da época).

She-Ra, Versão Netflix e Dreamworks

Nessa nova animação vemos algo muito estilizado, bastante infantilizado e pouquíssimo detalhado, a maneira como a história é conduzida inicialmente também não empolga, a narrativa é bastante preguiçosa e pouco criativa, o “plot” é exatamente o mesmo do original (o planeta está dominado pela Horda, Adora faz parte da Horda, ela descobre que a Horda é do mal, ela se rebela contra a Horda), isso incluindo o uso sem nenhuma vergonha do Deus ex machina mais básico de todos. No primeiro episódio Adora literalmente cai do céu, no meio de uma gigantesca floresta, e cai exatamente no local onde se encontra a espada que a transformará em “She-Ra”. Eu poderia também falar do tema de abertura, mas esse realmente eu prefiro deixar pra lá.

Mas calma, isso não significa que devamos deixar “She-Ra” quieta nos anos 80 guardando em nossas mentes as boas lembranças de infância e desistir dessa nova produção.

Essa foi só a impressão inicial que o desenho me passou, com o decorrer da série, a minha opinião foi mudando e eu passei a enxergar essa nova animação com outros olhos. Se nos anos 80 os produtores tentaram criar o embrião do que seria uma série “Girl-Power”, foi em 2018 que acertaram em cheio na proposta, a começar pelo nome. O fato de terem mudado o singular “a princesa do poder” para o plural “as princesas do poder” não vem por acaso, a Horda é uma força conquistadora interplanetária e sua dificuldade em dominar o planeta Etérea encontra-se justamente nas “princesas”, a maior força de defesa do planeta.

As princesas são os seres mais poderosos desse mundo e é nelas que o desenho é focado, personagens masculinos são bastante reduzidos enquanto elas agem de forma completamente autônoma e independente, mas se eu fosse definir a animação com uma palavra eu não utilizaria “feminismo”, mas sim “diversidade”.

A série é sim um exemplo de feminismo, colocando mulheres em papéis centrais e reduzindo a importância dos papéis masculinos, mas ela vai além, basta buscar no Google por um comparativo de imagem entre as duas versões das referidas princesas do poder e tirar suas próprias conclusões.

As Princesas do Poder, diversidade de formas, cores e personalidades.

Na animação original elas eram sinônimos de beleza padrão, praticamente todas caucasianas, altas, magras, com seus corpos cheios de curvas, rostos perfeitamente maquiados, e roupas que na prática só reproduziam os trajes de banho dos concursos de miss da época; a única coisa que mudava nelas era a cor do maiô e do cabelo. Na nova animação vemos uma incrível diversificação de formas, cores e personalidades; Cintilante, por exemplo, é baixinha e dona de uma silhueta nada convencional, já Perfuma tem um corpo bastante magro e sem curvas, Serena tem um corpo mais sensual, mas traços e cor de pele que me lembram os de uma mulher indiana.

A protagonista, She-Ra tem uma particularidade, enquanto ainda é Adora, seu corpo tem uma forma bastante comum entre adolescentes, sem exageros e formas sensuais, quando se transforma em guerreira, o corpo também se transforma ficando mais alto e mais musculoso, o novo design gerou revolta em alguns fans que acusaram a produtora Noelle Stevenson, que é uma mulher e que por acaso é lésbica, de estar “masculinizando” a heroína.

Isso reforça o quanto alguns indivíduos ainda estão presos a padrões e paradigmas antiquados, e se é que vale a pena discutir esse tipo de norma estética relacionada ao papel de gênero, para essas pessoas só digo o seguinte: uma mulher guerreira e forte, pode sim, se parecer com uma mulher guerreira e forte, ela não precisa se parecer com uma modelo da “Victoria’s Secret”.

No quesito personalidade, as personagens que mais me agradam são Entrapta e Scórpia, duas vilãs do desenho original que não tinham muito a oferecer exceto maldade maniqueísta.

Nessa nova versão, Entrapta não é mais vilã, em vez disso ela apresenta uma personalidade caótica, não está muito preocupada com bem ou mal, a única coisa com a qual se importa é a ciência, ela é movida pela curiosidade, e se é a Aliança Rebelde ou a Horda que vai lhe oferecer a oportunidade de explorar algo novo, não importa, ela só quer aproveitar.

Entrapta, Felina e Scórpia

Scórpia por sua vez ainda é vilã, mas ela ganha um subtexto mais voltado para a comédia, apresentando-se como uma daquelas personagens avoadas, e por que não dizer, bobalhonas, com a qual você acaba se afeiçoando, a cereja no bolo é o fato dela estar nitidamente apaixonada por Felina, sem dúvida alguma ela deixaria a guerra de lado para viver um romance com a amiga.

A relação entre She-Ra e Felina talvez seja o mote mais inovador da série, para o bem ou para o mal. No desenho original, Felina era simplesmente a serva de Hordak, nessa nova versão ela é uma espécie de irmã de Adora, cresceram na Horda, sempre disputando quem seria a melhor soldado, mas quando Adora descobre que estava do lado maligno da guerra, ocorre a ruptura ideológica entre ambas. Adora decide se unir à rebelião para praticar o bem, Felina, por sua vez, não se importa com isso, na verdade ela revela que sempre soube qual era a verdadeira face da Horda, nunca se importou com bem ou mal, querendo apenas estar no lado vencedor da guerra quando tudo acabar. Essa rivalidade será explorada por toda a série levando a recorrentes embates filosóficos entre as duas, volta e meia você quase se convence de que uma das duas irá mudar de lado, só que não.

Não podemos nos esquecer da polêmica besta da vez (que não pode faltar em nenhum reboot). Nesse caso sobrou para o Arqueiro, um dos poucos personagens masculinos de destaque na série; o “grande problema” se deu pelo fato dos designs terem resolvido mudar a cor de pele da personagem, ele era branco, agora é negro. Isso, também, gerou uma série de reclamações dos fãs originais da série.

Na minha opinião, fora a estranheza inicial causada, a mudança não incomoda em nada, na verdade, a personagem dessa nova versão parece muito melhor resolvida do que a original, basta lembrar quem era o Arqueiro na animação dos anos 80. Ele era apenas um personagem de apoio, o ajudante de She-Ra, assim como Teela era para He-Man. Para muitos ele era apenas o melhor amigo gay de Adora, muito por conta de seu visual. Bem, nessa versão ele é exatamente isso, ninguém tentou masculinizar a personagem para distanciá-lo desse estereótipo, na verdade essa característica é muito bem aproveitada pela produção da série, como quando ele lança seus olhares apaixonados para o Falcão do Mar, além disso, na terceira temporada conhecemos os pais do Arqueiro, um casal composto por dois homens.

Lance e George, os Pais do Arqueiro

A forma como eles são apresentados é exemplar, ninguém ali estranha o fato deles serem um casal gay, as preocupações das personagens estão centradas em coisas realmente importantes.

Como vocês podem notar, a representatividade do Vale está bastante presente na nova animação, tendo Scórpia, Arqueiro, seus pais e possivelmente Felina (é só uma impressão minha) como alguns de seus membros. Não para por aí, uma personagem nova me chamou a atenção na última temporada: Double Trouble. Ela é um ser reptiliano transmorfo que foi estrategicamente inserido para causar conflitos na série, sua habilidade de personificação permitiu à Horda se infiltrar na Aliança e provocar intrigas desestabilizando a ordem e o companheirismo existente entre as princesas.

O interessante na personagem foi a sua versão digamos “real”, sua versão reptiliana, para mim, não deixa claro se é do gênero feminino ou masculino, cada hora se comportando como se pertencesse a um deles, suas roupas e o formato de seu corpo seriam facilmente atribuídas à uma mulher, sua voz entretanto é claramente masculina, mas o seu comportamento é o que realmente me intriga.

Creio que tudo isso seja proposital, afinal a personagem é um ser transmorfo, pode a qualquer momento assumir um corpo masculino ou feminino, por que razão um ser assim teria uma identidade de gênero única? Se fosse definir, eu diria que a personagem é alguém de Gênero Fluido, Intersexual ou Queer, alguém que não se prende aos padrões de gênero. Padrões que são bastante relativos aliás, afinal quando vemos essa personagem usando salto alto automaticamente deduzimos que se trata de uma mulher, acho que nos esquecemos de que o grande responsável pela popularização do calçado foi o Rei Luiz XIV, ou seja, um homem. Talvez essa seja minha luta no momento, a desconstrução da polaridade de gênero, mas isso é um assunto para uma outra hora.

Nota do Canal Super Ninguém: De acordo com a plataforma Netflix, Double Trouble é o primeiro personagem não binário da série, dublado pelo ator, ativista e autor Jacob Tobia, que na vida real também se identifica com a não-conformidade de gênero.

Double Trouble, dublado no original por Jacob Tobia

Para fazer um resumão de tudo isso, eu posso dizer que “She-Ra e as princesas do poder” é a série que você deve mostrar para os seus filhos, o desenho tem uma pegada muito mais infantilizada do que o original e com certeza deve agradar aos mais novos, e isso é muito bom, tanto os meninos quanto as meninas poderão crescer com uma ideia renovada de construção social, enxergando mulheres e LGBTQIA+ com menos preconceito, menos machismo e coisas retrógradas como essas.

Ok, talvez eu esteja atribuindo um valor excessivo à produção, mas eu gosto de ser otimista e o resultado final da animação acabou realmente me agradando bastante, pode não ser perfeito mas é daquelas produções cuja ideia te fascina tanto que te faz esquecer dos problemas existentes.

E se você quiser conversar comigo sobre a série e falar de como ela trouxe a Honra de volta à Grayskull, ou como sua diversidade e feminismo vai mudar o mundo, ou não, deixe seu comentário logo abaixo.

E em vez de dica ou recomendação do dia, eu vou deixar hoje o destaque do dia: Ventania, a personagem do qual não falei na crítica, mas que foi totalmente reinventado na série, se no desenho original ele não passava da montaria de She-Ra. aqui ele ganha um contexto político revolucionário simplesmente hilário e rouba a cena toda vez que aparece, mas para entender melhor do que eu estou falando você tem que assistir à série.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e sempre localizava onde estava escondido o Geninho no final de She-Ra.

4 Comments

  1. Julie disse:

    Ótima recomendação Everton! Boas como sempre 😍👏🏻

  2. […] Sim, eu sei que deveria estar aproveitando esse tempo para fazer algo mais útil tipo aprender japonês, estudar física quântica, praticar meditação transcendental e etc. Mas não fiz nada disso por um motivo muito simples e justo: Estou com preguiça! Primeiramente quero dizer que assisti à 5ª, e possível última temporada, de “She-Ra e as princesas do poder” que estreou nessa data estelar -302658.014571949. Já fiz uma análise da série até a 4º temporada, e se você não leu pode conferir clicando no link a seguir: O Vale Nerd: Pela Honra de Grayskull […]

  3. Mel disse:

    Eu simplesmente amei cada palavra e a forma que você analisou a série. Ela é incrível e rompe com muitos padrões, certamente uma das minhas favoritas. Apesar de em nenhum momento terem explicado o que significa “pela honra de Grayskull”

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