Desde que li Hellblazer, escrito por Garth Ennis, John Constantine se tornou um de meus personagens preferidos, logo, quando soube de uma animação da DC Comics chamada Liga da Justiça Sombria, sobre um grupo que em sua inusitada formação contava com o mago britânico, Zatanna, Desafiador, Etrigan e Batman, eu soube que precisava assistir.

Ao contrário das telas do cinema, onde a DC ainda não conseguiu se firmar, alternando fracassos de crítica e público, como o filme da Liga da Justiça, e sucessos como o Coringa de Todd Phillips, ainda longe dos bilhões da concorrente, suas animações são consideradas de ótima qualidade, superando as da Casa das Ideias.

O início da trama de Liga da Justiça Sombria é promissor, pessoas em diversas cidades dos Estados Unidos começam a alucinar, enxergando pessoas como se fossem demônios grotescos. Um pai quase mata a família, uma mãe quase atira o bebê do alto de um prédio por acreditar que deu a luz ao diabo.

Obviamente, trata-se de magia, uma das poucas coisas que está além dos recursos da Liga da Justiça tradicional, com Superman (que tem como uma de suas vulnerabilidades justamente a magia), Lanterna Verde, Mulher Maravilha e Batman.

Aqui surge o primeiro pequeno deslize, de início, Batman se recusa a acreditar que possa ser realmente magia, quando todos os fatos apontam para isso. É difícil acreditar que o maior detetive do mundo simplesmente abandone essa hipótese, ainda mais quando lembrado de que não seria a primeira vez que a Liga da Justiça enfrenta o sobrenatural.

Batman cercado por Coletores de Almas

O morcego logo muda de ideia ao receber “recados” pedindo que ele encontre John Constantine. Logo, ele procura Zatanna, para que ela o leve até Constantine. Os três, unidos ao Desafiador e ao demônio Etrigan, lutarão contra a ameaça mística.

Normalmente, estamos acostumados a ver o Batman no controle da situação, comandando a Liga contra os inimigos, mas aqui, vemos o oposto, nitidamente, ele é o personagem mais deslocado do grupo, muitas vezes se limitando a grunhir diante de um evento absurdo que presencia. A liderança e o protagonismo, tão naturais ao Morcego, passam para John Constantine, o especialista em magia e demônios.

John Constantine, muito mais poderoso que a versão dos quadrinhos

O Constantine desta animação, é bom que se diga, é bem diferente de sua versão nas HQs, pelo menos a que eu pude ler em Hellblazer. Enquanto nos quadrinhos, John possuía algum conhecimento místico, com maior enfoque nos rituais, tendo como maiores habilidades seus contatos e sua capacidade de ludibriar as entidades, aqui ele possui uma enorme gama de poderes, incluindo lançar bolas de fogo das mãos.

É uma grande mudança, mas o roteiro tenta manter a personalidade do personagem, que continua com muitos contatos, embora não seja bem recebido por praticamente nenhum deles.

Aliás, há na animação um problema inerente a toda e qualquer obra que faz uso excessivo do elemento mágico. Ainda que muitos roteiristas forcem demais a barra, e os níveis de poder dos super-heróis variem de história para história, nós conseguimos estabelecer certos limites para as capacidades de cada um. O Super-Homem é um dos mais poderosos seres que existe, mas não se teleporta, o Flash corre mais rápido do que qualquer um, mas não voa, e por aí vai.

Agora, quando falamos de magia, os roteiristas basicamente se encontram livres de qualquer amarra, permitindo que pensem em qualquer solução possível. Com Zatanna e um Constantine com poderes arcanos ampliados, portais brotam do nada, mentes são invadidas, rajadas místicas atingem os inimigos, e os limites desaparecem.

Etrigan, um demônio camarada

O caso de Jason Blood e de Etrigan é um bom exemplo. Mais de uma vez vemos como Jason se mostra relutante em evocar sua contraparte maligna, pois ela poderia facilmente sair do controle, afinal, é um demônio, e isso é um grande limitador.

Em teoria, evocar Etrigan para salvar a todos é possível, mas ele dificilmente será contido e pode não aceitar retornar para a forma humana. Na prática, o que vemos na animação é que Jason não tem qualquer razão para evitar a transformação, uma vez que Etrigan, em todas as ocasiões em que foi convocado, lutou ao lado da Liga, não se descontrolou, e, quando o confronto se encerrou, retornou para a forma humana sem hesitar.

Quanto ao vilão, há uma reviravolta interessante, e no combate final, o roteiro toma a acertada decisão de permitir que a sagacidade de Constantine brilhe, ao invés de solucionar a luta com disparos místicos.

No geral, Liga da Justiça Sombria é uma animação com bons momentos, protagonistas diferentes e um Batman que parece desnecessário. Podia ser mais, apesar da magia envolvida e dos demônios, o elemento “sombrio” não se destaca tanto quanto poderia. Talvez se fosse um live-action a DC Comics ousasse mais.

Ainda assim, fica a vontade de ver estes personagens juntos em novas animações, potencial eles tem.

Trailer de Liga da Justiça Sombria

Avaliação: Boa

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção”, e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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