O Vale Nerd: Deus Ama!

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindos ao vale! Existe uma máxima que diz que política, futebol e religião não se discute. Bem, eu digo que não existe nada no mundo que não se possa discutir, embora o brasileiro deva aprender urgentemente o significado de discutir. Discutir não é o mesmo que “tretar”, e definitivamente, discutir não significa provar a todo custo que o seu ponto de vista é o certo. A discussão e o debate, devem servir  como métodos de busca da verdade, cada um expondo seus fatos, argumentos e pontos de vista até que se chegue a um consenso. Nunca se deve iniciar uma discussão com ideias pré concebidas e com o objetivo de validá-las, neutralidade e mente aberta são essenciais.  Para ficar mais simples, lembrem-se daquele episódio do “Chaves” em que a Chiquinha define: “Da discussão nasce a luz!”.

Isto posto, hoje eu gostaria de discutir religião, acho esse um momento propício, visto que nosso país passa por um momento de polarização no qual as pessoas embasam suas não discussões em conceitos como religião. Notem que hoje temos líderes religiosos tornando-se figurinhas carimbadas no meio político. Em outras palavras, creio que nosso país, bem como tantos outros no mundo, atravessa uma onda de conservadorismo, frequentemente atribuída à extrema direita para quem um dos pilares fundamentais é a religião. Muitos embasam seus discursos em trechos meticulosamente retirados da Bíblia Sagrada para reforçar suas ideias e argumentando simplesmente que “Deus quer assim” ou se pondo como defensores da “família tradicional”, dos “bons costumes”, do “cidadão de bem”. Assim faz o vilão da obra que irei comentar hoje.

Como essa é uma coluna Nerd irei falar disso tudo por meio de uma HQ, uma das mais amadas da minha coleção. Edição de luxo da Panini Books com capa dura e letreiro metalizado da história originalmente lançada em 1982 escrita por Chris Claremont com arte de Brent Anderson. Para escrever essa matéria eu resolvi reler o encadernado que tem uma introdução, na forma de entrevista, com o próprio Chris. O que me chamou a atenção nessa entrevista foi a afirmação de Claremont de que uma das inspirações para escrever foi o período histórico pelo qual atravessavam, era início da década de 80, Ronald Reagan era presidente dos EUA e a nação foi tomada pelo conservadorismo, luta contra o “esquerdismo”, resgate aos valores morais, televangelistas propagando fundamentalismo religioso na tv. A semelhança com o Brasil atual chega a arrepiar.

Não me levem a mal, eu não estou aqui para demonizar religiões (paradoxal não?!!!) Eu mesmo tenho minha própria fé, e creio na existência de um ser superior, na vida após a morte e outros conceitos metafísicos. Entretanto, não sou o que se pode chamar de religioso tradicional, não creio que existia algo como a religião certa e a errada, ou mesmo que alguém sem nenhuma fé seja indigno de merecer o “paraíso”. Pelo contrário, eu li a bíblia inteira várias vezes (sim, é sério), na verdade continuo fazendo a leitura diária desse livro tão simbólico. E se alguém me perguntar o que eu consegui extrair de tantos livros; evangelhos e salmos, eu digo que posso resumir a bíblia toda em uma única frase “Amai uns aos outros”. Caso você não saiba, essa frase é de Jesus e na minha opinião, se você seguir essa diretriz não precisará de mais nada (e com certeza terá uma utilidade prática muito maior do que ficar decorando trechos aleatórios e descontextualizados disso ou daquilo). Mas (pausa dramática) para mim, aqui é que mora o maior de todos os problemas. Muita gente lê a mesma bíblia e extrai mensagens completamente antagônicas. Em vez de amor, encontram nela justificativas para a disseminação de ódio e preconceito, tratando outros seres humanos como inimigos, pecadores que devem ser combatidos e expurgados da face da terra. Com isso tudo em mente, Chris Claremont pegou um dos maiores expoentes do preconceito nos quadrinhos -os X-men- e converteu o conceito de “Deus ama” na HQ “Deus ama, o homem mata”.

Você já havia parado para pensar que o Noturno é um católico fervoroso, e que Kitty Pryde é judia? Chris pensou!

Noturno, uma das maiores vítimas de preconceito contra mutantes, um cristão fervoroso.

E usou isso como contraponto ao fundamentalismo religioso que rege essa história. Tudo parte do princípio de que o reverendo William Stryker faz uma dessas interpretação próprias da Bíblia entendendo que mutantes são seres demoníacos e assume que recebeu ordens divinas para exterminá-los. Com isso em mente ele cria uma nova seita, elabora um enorme plano genocida (e faz isso citando vários versículos bíblicos). Veja que temos religiões em ambos os lados desse cenário, um “homem de fé” passa a caçar toda uma sorte de indivíduos e dentre eles estão outras “pessoas de fé”. X-Men são uma enorme metáfora para os excluídos da sociedade, aliás, foi a comparação entre o preconceito sofrido pelos mutantes e o preconceito sofrido pela população LGBTQIA+ que convenceram Brian Singer e Ian McKellen a embarcar no primeiro filme dos X-Men lá no início dos anos 2000.

A HQ não pega leve e já começa com os radicais dessa seita religiosa perseguindo e assassinando a sangue frio duas crianças com cerca de dez anos, mas não só isso, eles ainda resolvem expor os corpos de ambos em um brinquedo no parque de uma escola com o intuito de “deixar um recado” aos outros mutantes. É uma introdução simplesmente brutal e talvez você pense que é uma paráfrase exagerada da vida real, mas imagine o seguinte: o Brasil é conhecido por, estatisticamente, ser o país que mais mata Transexuais no mundo, então se uma questão tão simples como a identidade de gênero pode levar um radical a assassinar alguém, o que dizer de um radical que odeia uma pessoa com poderes potencialmente letais? O assassino imagina estar fazendo um bem para a humanidade livrando os cidadãos de bem desses seres que podem te vaporizar com um simples olhar. E vejam só, no mundo real esses extremistas afirmam estar protegendo as famílias e a reprodução biológica da ameaça LGBTQIA+. Só um adendo, quando eu digo que identidade de gênero é uma questão simples, não é uma forma de amenizar a vivência da população TQI+ mas sim uma forma de dizer que a identidade de gênero alheia não afeta a vida de ninguém a não ser da própria pessoa, o que torna o ódio contra ela completamente injustificável.

William Stryker: “Humano? Como você se atreve a chamar aquela coisa de humano?”

O brutal assassinato das crianças, não é a única imagem marcante da HQ, ainda veríamos Charles Xavier crucificado e sendo atacado por versões demoníacas de seus X-Men; um pai matando mulher e filho recém nascido por ela ter dado a luz a um mutante; fiéis -que eram mutantes e não sabiam- morrendo diante do líder religioso que simplesmente os execra, lançando-os para a morte; mas nenhuma me marcou mais do que a imagem do reverendo Stryker apontando para o Noturno e gritando “Você ousa chamar aquela coisa de humana?”. É um quadrinho simplesmente genial, está repleto de significados e simbolismos, é a própria definição de icônico. Por um lado vemos o quanto a aparência física é determinante na vida do indivíduo, Stryker tinha mutantes ao seu lado o tempo todo mas o fato deles parecerem “humanos normais” fazia com que fossem aceitos por ele. Não consigo evitar de fazer comparações com o universo LGBTQIA+, afinal se você tem uma aparência masculina ou feminina dentro dos padrões de gênero e não dá demonstrações de afeto com pessoas do mesmo sexo, em público, muito provavelmente a sociedade não irá maltratá-lo, mas e se você tem uma aparência andrógina? Se você é transgênero? Não binário? Nesse caso você não tem escapatória e será um eterno alvo de preconceito desses ignorantes. Outro forte símbolo da imagem é o fato de que alguns religiosos simplesmente se declaram detentores da verdade e da fé. Kurt Wagner foi criado por monges, é católico, e um homem de muita fé mas a outra denominação religiosa não se importa com isso, o rotula como pecador e ponto final. Isso traz alguma lembrança à vocês? Talvez a demonização dos costumes religiosos?

A maneira como religiões cristãs execram religiões de matriz africana? A eterna discussão do que há na vida após a morte, se céu, se inferno, se reencarnação, se ficaremos hibernando até o dia do juízo final? Qual é a verdade? A verdade é que não temos certezas, só temos fé, e o que faz a fé de um ser melhor do que a do outro? Noturno é um homem cheio de fé, mas para sua infelicidade a própria igreja católica criou a figura do demônio muito parecida com a sua e é nessa figura demoníaca que o reverendo se apoia. O quadrinho em que Stryker aponta para ele é emblemático e dá margem a muita filosofia, a obra em si é um amplo terreno para estudos.

Como puderam notar, utilizei de muitas metáforas para falar da comunidade LGBTQIA+, isso porque não há nenhum personagem do vale na história, eram os anos 80 e homossexualidade e afins ainda eram tabus, por isso os artistas faziam uso dessa figura de linguagem para discutir assuntos que poderiam impactar no convívio social, você irá notar que os mutantes são tratados por um apelido pejorativo: “Mutuna” uma clara alusão ao apelido atribuído aos comunistas: “Comuna”. O preconceito foi amplamente discutido nas HQs dos mutantes e não por acaso, em 2013, a Marvel decidiu realizar o primeiro casamento entre dois homens justamente em uma revista dos X-Men.

Casamento Estrela Polar e Kyle, seu namorado de longa data, em “Os Fabulosos X-Men nº 51”

Como forma de mídia, “Deus ama, o homem mata” pode parecer estranho a quem resolver ler nos dias de hoje. Acontece que a narrativa está repleta de influência da velha escola de quadrinhos, para explicar melhor, imagine a seguinte cena: O quadrinho mostra a personagem caindo de um enorme penhasco e no balão de fala você lê: “Oh não, estou caindo de um enorme penhasco!”. Pois bem, a história está cheia disso. Um amigo meu certa vez disse achar a história “mais do mesmo”, bem, temos que nos lembrar que o texto foi escrito nos anos 80 (em seu lançamento a HQ definitivamente não era mais do mesmo) mas de lá pra cá influenciou muita coisa servindo inclusive de base para o filme “X-Men 2”, não por acaso Stryker é o vilão da produção (entretanto Bryan Singer decidiu remover o aspecto religioso dele mantendo-o apenas como militar), se você estiver disposto a ignorar esses pequenos detalhes poderá aproveitar muito melhor a leitura dessa excelente HQ e formar seu próprio ponto de vista sobre essa história única.

E se você quiser conversar comigo sobre X-Men e outros quadrinhos, sugerir pautas, mandar elogios ou tecer suas críticas, deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o filme “Orações para Bobby”. Um drama de 2009 estrelado por Sigourney Weaver no qual a vivência religiosa e a homossexualidade são discutidas de maneira absurdamente sensível (prepare seu lenço). Por hoje é só isso, até a próxima semana e fiquem em paz.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e um pecador (gula e preguiça na maior parte das vezes).

2 Comments

  1. Aniela disse:

    Ameiii, muito bom o texto e de como você aborda esse assunto relacionando a HQ, parabéns, amo seus textos

  2. Aniela disse:

    Eto,muito bom o texto e de como você aborda esse assunto relacionando a HQ, acaba ficando interessante a leitura, e nos prendendo mais,parabéns, amo seus textos

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