Nemo: A Insustentável Invisibilidade da Ficção Científica

O centenário de Isaac Asimov

Por Sidemar de Castro

Escritor de “Eu, Robô” e “Fundação” completaria 100 anos em janeiro, deixando mais de 500 livros publicados

Considerado um dos maiores nomes da ficção científica, e também da divulgação de temas científicos, o escritor americano de origem russa Isaac Asimov (1920 – 2020) completaria 100 anos em 2020 (morreu em 1992). Um dos grandes nomes clássicos do gênero juntamente com Arthur C. Clarke (2001 – Uma Odisseia no Espaço), Ray Bradbury (Fahrenheit 451) e Robert Henlein (Tropas Estelares), Asimov deixou um legado de mais de 500 obras, entre coletâneas de contos, romances e livros de divulgação científica abordando os mais variados assuntos, sem contar artigos e colaborações. Suas histórias vão de ficções policiais envolvendo robôs a cenários apocalípticos sobre a queda de um grande império cósmico, passando por viagens no tempo e no espaço. Ele ajudou a formar boa parte do debate sobre tecnologia no século XX, principalmente sobre seu tema favorito, os robôs e as inteligências artificiais.

Isaac Asimov nasceu em Petrovichi, na Rússia, mas se naturalizou americano aos três anos de idade, filho de moleiros judeus nascidos e criados nos campos russos. Ainda criança, o futuro escritor se apaixonou pela leitura através das revistas pulps que traziam histórias de terror, fantasia e ficção científica, populares na época. Na década de 1940, se formou em química na Universidade de Columbia, em Nova York, tornando-se doutor na área, o que lhe valeria a alcunha futura de “O Bom Doutor”. Como hobby, desde 1939 ele escrevia histórias curtas de ficção científica e as vendia para revistas como Astonishing Stories e Future Fiction. Quando percebeu, em 1952, que ganhava mais dinheiro escrevendo do que como químico, logo trocou de profissão, mas nunca abandonou a ciência, sendo um dos autores mais prolixos do mundo em língua inglesa. Praticamente não havia tema que ele não tenha abordado em seus livros de não-ficção, exceto, talvez, teologia. Muitos de seus livros de ficção científica estão sendo republicados no Brasil pela Aleph.

“Eu, Robô”, coletânea de contos de Isaac Asimov

As previsões de Asimov para o futuro

Como acontece com muitos escritores de ficção futurista, em diversos momentos Isaac Asimov foi convidado a tecer especulações (ou “previsões”) sobre o avanço da tecnologia e seus efeitos na nossa sociedade. Numa entrevista de 1988, Asimov descreveu um mundo num futuro não muito distante em que “computadores seriam comuns em todas as casas e no qual existiria uma tecnologia que conseguiria conectar diretamente as fontes aos consumidores de informação”. Cinco anos antes, ele escreveu um texto para o The Toronto Star com suas previsões para o ano de 2019. Uma delas dizia que o ensino a distância seria possível com o uso de computadores (o que vemos mais do que nunca hoje). Indo além, Asimov escreveu que inteligências artificiais tornar-se-iam parte importante do processo, o que ainda está em vias de acontecer. “Daqui a 30 anos, máquinas vão saber o que os estudantes sabem e o que ainda precisam aprender. De nenhuma forma seres humanos podem atingir esse nível de poder educacional”, afirmou. No mesmo artigo, Asimov dizia que os robôs já tomariam os principais postos de trabalho, forçando uma nova visão sobre o futuro dos trabalhadores. Um estudo publicado em junho do ano passado pela Oxford Economics aponta que cerca de 20 milhões de trabalhadores da indústria poderão ser substituídos por robôs até 2030. Melhor ouvir o Bom Doutor: sua série de ficção científica sobre robôs inspiraram a tecnologia. Asimov criou as Três Leis da Robótica, uma espécie de “programação” para o comportamento e ações das inteligências artificiais, apresentadas em “Eu, robô” (1950). Sobre o filme com o mesmo nome (2004), muito vagamente baseado no livro, com Will Smith, não vale a pena falar. 

As Três Leis da Robótica:

1 – Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal;

2 – Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei;

3 – Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

O filme “Eu, Robô” conta com o astro Will Smith, mas é apenas vagamente baseado na obra de Asimov.

Isaac Asimov ajudou a popularizar o conceito do robô, mas com uma visão otimista. Em seus livros, os robôs são tanto máquinas quanto seres senscientes indistinguíveis, externamente, de um ser humano. Mas todos seguem as três leis, o que em alguns casos, poderia levar um robô ser mais humano que os próprios humanos, como é mostrado em “O Homem Bicentenário”, de 1992, um dos seus últimos contos publicados.

Ainda em 2020 (se a pandemia deixar), a União Europeia deve redigir uma regulamentação para inteligências artificiais. O governo americano publicou, no começo do ano, uma série de sugestões para uma futura regulamentação das inteligências artificiais. No Brasil, o Senado iniciou em fevereiro uma discussão sobre o assunto que, com certeza ainda não tem futuro à vista dado a presteza e regularidade do trabalho de nossos representantes.

“Fundação”

Mas talvez Asimov seja mais conhecido pela sua trilogia de romances “Fundação” (1951-1953), em que o autor conta a história de um futuro Império Galáctico, mais ou menos inspirado na ascensão e queda do Império Romano. O primeiro livro contava como Hari Seldon, o criador da psicohistória, uma ciência fictícia que misturava sociologia, história e matemática, usando modelos estatísticos, previa o comportamento dos gigantescos grupos de seres humanos que colonizaram milhares de planetas numa galáxia sem espécies alienígenas. Prevendo a queda do Império e uma consequente era bárbara, Seldon lança uma instituição, a “Fundação”, para preservar a cultura e civilização humanas e reduzir o período bárbaro para poucos milhares de anos, um papel meio que inspirado no da igreja ocidental. A Apple anunciou ano passado uma série de TV adaptando os livros da “Fundação”.

“As cavernas de aço”

Neste romance de 1954, dentro da série dos robôs, Isaac Asimov mostra um futuro com cidades superpopulosas e cobertas por cúpulas (uma imagem icônica da ficção científica) com uma sociedade dividida entre terrestres e espaciais. Nesse cenário, ele conta a história do detetive Elijah Baley, e de seu assistente, o robô R. Daneel Olivaw. Na trama, eles precisam investigar a morte do embaixador dos Mundos Espaciais. Asimov queria mostrar a seu editor, que a ficção científica não era um gênero limitado e poderia incorporar outros, como no caso, o romance policial.

“O fim da Eternidade”

Este é um dos melhores romances sobre viagens no tempo (1955) já escritos, segundo especialista. Nele, Isaac Asimov apresenta a “Eternidade”, uma organização global que realiza viagens no tempo, fazendo alterações mínimas na história humana, a fim de mudar a realidade e minimizar o sofrimento dos povos ao longo dos séculos.

“A última pergunta”

Este conto de 1956 traz a história de um supercomputador chamado Multivac, que consegue calcular bilhões de probabilidades para se chegar à resposta de qualquer pergunta. A trama mostra diversos momentos da humanidade, a partir de 2061, sempre com alguém perguntando ao computador como a entropia do Universo pode ser revertida. Em todas as interações, Multivac diz que não tem dados suficientes para achar a resposta. Isso muda quando o computador finalmente consegue realizar todos os cálculos necessários.

“O Homem Bicentenário”, filme estrelado por Robin Williams, baseado no conto de Asimov.

“O homem bicentenário”

Conta a história de Andrew, um robô doméstico que, ao desenvolver sentimentos e personalidade humana, luta para ser reconhecido como tal. O conto, que se passa no mesmo universo de “Fundação” e “As cavernas de aço”, inspirou o filme de mesmo nome, lançado em 1999 e estrelado pelo ator Robin Williams.

Estes são apenas alguns dos mais famosos livros de ficção científica do Bom Doutor, como a série de aventuras espaciais de Luke Starr, Os próprios deuses, Os Anéis de Saturno, O Sol Desvelado e o clássico O Cair da Noite, entre muitos outros. 

Asimov e os robôs

O termo “robô” veio do checo “robota”, traduzido como “trabalho forçado”. A palavra surgiu em 1921 na peça de teatro “R.U.R.”, do dramaturgo checo Karel Capek (autor do clássico da ficção científica “A Guerra das Salamandras”). A trama conta a história de robôs indistinguíveis de um ser humano (na verdade, seriam androides) que passam a se rebelar contra a humanidade. Esse conceito, pelo seu lado biológico e mais gótico, foi explorado antes por Mary Shelley em Frankenstein. Mas a ideia original de um ser autômato é mais antiga. No ano de 1495, Leonardo da Vinci tomou como base seus estudos de anatomia e desenvolveu o projeto de um cavaleiro mecânico que poderia mexer os braços e a cabeça usando polias e engrenagens. O robô de Leonardo da Vinci se tornou o registro mais antigo que se tem de um autômato com aparência humana.

Apesar da “síndrome de Frankenstein” ter dominado a ficção científica, Asimov tentou popularizar o conceito do robô como parte da vida cotidiana com um olhar otimista. Em seus contos e romances, os robôs são mais do que ferramentas para trabalhos repetitivos, acompanhando (e protegendo) o ser humano em sua jornada pela galáxia.

Isaac Asimov é considerado o “Pai dos robôs”. Ele pode não ter sido o primeiro a idealizar o sonho de máquinas parecidas com seres humanos, mas foi um dos primeiros autores a idealizar ambientes em que máquinas e robôs convivem. 

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

2 Comments

  1. Luis Eugenio Santos disse:

    Parabéns pelo artigo! Há tanto para se falar de Asimov que nenhum texto conciso poderia abordar todos os temas. Como contribuição, deixo o registro de que foi Asimov quem cunhou o termo “robótica” para definir o estudo dos robôs.

  2. Pedroom Lanne disse:

    É por isso que chamei atenção para você a respeito da minha saga literária, pois, entre muitos assuntos, eu entro nessa questão da ética robótica. E se Asimov desenvolveu as três leis da robótica, eu fui além e escrevi o Manifesto da Robótica. Um manifesto que, inclusive, expande as três leis asimovianas. Até diria para você que essas três leis são arcaicas e preconceituosas perante o manifesto que escrevi. Mas aí só se você ler o livro e o manifesto para compreender.

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