Lançamento Livro: “O Psicanalista de Robôs”

Novela Cyberpunk fala sobre futuro onde os robôs simulam a personalidade humana a partir das teorias de Freud.

Em seu quarto livro, o escritor Gabriel Billy leva o leitor para um cenário fortemente inspirado em Blade Runner, Isaac Asimov e Freud, onde os robôs simulam a personalidade humana com tamanha perfeição, que leva alguns deles ao consultório de um psicanalista. Confira a seguir a entrevista com o autor, onde ele fala sobre o livro, suas influências e como ele imagina um possível futuro onde a humanidade consiga criar máquinas que sejam conscientes de sua existência.

1) Olá, Daniel, é um prazer poder entrevistá-lo em nosso site, ainda mais neste ano. Se Isaac Asimov estivesse vivo, completaria 100 anos em 2020, e ao ler o título de seu livro é impossível não lembrar do autor. Susan Calvin, inclusive, é uma psicóloga de robôs, que aparece em diversos de seus contos. Fale um pouco sobre a trama do seu livro e o quanto você se inspirou em Asimov para escrever “O Psicanalista de Robôs”?

R: Olá, amigos! Obrigado pela oportunidade da entrevista. Bom, meu livro é uma novela cyberpunk com muitas referências a esse gênero, uma grande homenagem a esse tipo de história que fez parte da minha adolescência por meio de animes, RPGs, jogos, filmes e etc.

Essa novela é narrada por um profissional chamado de “Psicanalista de Robôs”. É um futuro onde existe um avançado sistema de inteligência artificial que simula a personalidade humana a partir das terias de Freud, ou seja, tem-se algorítimos que trabalham com a simulação do ID, EGO e SUPEREGO.

A questão do Asimov é um pouco curiosa no meu livro. Ele é certamente a minha inspiração máxima, mas foi uma influência mais indireta do que direta. Praticamente toda a ficção científica robótica atual é influenciada por Isaac Asimov, então tudo que me influenciou certamente bebeu de sua fonte, mas eu mesmo apenas li o As Cavernas de Aço (que acho incrível) e alguns fragmentos do “Eu, robô”.

Então, tem algo de muito curioso nisso, porque quando escrevi a primeira versão desse livro eu tinha uma recordação da questão do Cérebro Positrônico, mas não lembrava da Susan e da Psicologia Robótica. Eu não tinha lido o “Eu, Robô”, apenas o “As Cavernas de Aço”, e mesmo já tendo visto o filme do “Eu, Robô”, não me recordava em nada dessa questão de ter um psicólogo de robôs.

Bom, ai um dia assistindo Blade Runner, naquela cena logo no início do filme, onde um policial começa a fazer uma espécie de teste psicotécnico para (se não me engano) descobrir se quem estava diante dele era um replicante (vendo as reações dos olhos de acordo com a resposta), eu achei que aquilo me lembrava algo de uma consulta  de psicologia, e passei a imaginar isso de robôs terem consultas com psicólogos. Aos poucos fui desdobrando a ideia, e achando inocentemente que aquilo era uma ideia  muito original minha! (rs).

Depois, descobri que o Asimov já tinha cansado de trabalhar essa ideia. Então, eu coloquei uma referência/homenagem no meu livro: a sala do personagem que é o psicanalista de robôs chama-se “Susan Calvin”.

Capa do Livro “O Psicanalista de Robôs”

2) Quais outras obras que você leu ou assistiu serviram de base para a criação do universo do seu livro?

R: Blade Runner certamente é minha inspiração mais forte, mas também  tive uma grande influência do filme Substitutos.

Acho que de alguma forma o filme Metrópolis, a série de animação Evangelion e os escritos do brasileiro Rubens Francisco Lucchetti (que é alguém que eu admiro muito) também me influenciaram com alguma intensidade maior em certas questões do livro.

Entretanto, acho difícil demarcar onde começou a inspiração. Um livro é a soma de muitas vivências, leituras, filmes, quadrinhos e etc. Um ficcionista nunca tira férias, pois tudo é material potencial de referência. As vezes, um diálogo de desconhecidos dentro de um ônibus pode virar material para uma história; um conhecido pode se tornar base de um personagem; a postura de um animal pode delinear a personalidade de um protagonista… Praticamente tudo pode ser objeto de referência para a ficção. Por exemplo: a primeira vez que tive contato com os estudos de Freud foi por meio de uma história em quadrinhos  da “Justiça Jovem”, onde o personagem Tornado Vermelho fala que naquela equipe (que era um trio na época) o Impulso (que depois se tornaria Kid Flash) era ID, o SuperBoy era Ego e  o Robin era o SuperEgo. Posso dizer que essa história em quadrinhos me influenciou quando colocou a semente da psicanálise em mim já na época. Com certeza tem mais histórias como essa, que me apresentaram coisas que foram utilizadas no livro, mas que não me recordo agora.

3) Asimov rompeu com uma espécie de síndrome de Frankenstein que fazia parte da ficção científica, onde a criatura invariavelmente se voltava contra o criador. Nos contos e romances do autor, os robôs obedecem às três leis da robótica, o que os impede de ferir um ser-humano ou por omissão permitir que um deles seja ferido. Em Robocop, o protagonista possui diretrizes que o impedem de agir como bem entender. Em seu livro, os robôs são perigosos ou eles possuem um mecanismo semelhante às leis da robótica ou as diretrizes?

R: As leis da Robótica do Asimov reverberaram em muitas obras posteriores a ele. Lembro que até um material do personagem de videogames, Megaman, tinha essas leis. Uma série que lembra bastante o universo do meu livro e também usa as leis é “Better than us”, que é uma série bem atual (2018) e é russa. Quando assisti essa série eu já havia escrito minha novela, mas ela tem muitos pontos que se parecem com a minha trama, creio que por ser algo produzido em época semelhante. Eu gostei bastante dessa série!

No meu livro eu não usei as três leis. Eu não deixei explícito nenhum mecanismo de segurança nesse sentido. Parece que os humanos do meu universo estão tão seguros de sua dominação e da submissão permanente das máquinas, que isso tornou-se algo secundário, ao menos pra se deixar explícito na história.  

Curta Metragem ID, do diretor Rikardo Santana, baseado no livro “O Psicanalista de Robôs”

4) Seres-humanos são complexos e imprevisíveis, atualmente, as doenças da mente ou da alma, tem se mostrado um mal que atinge cada vez mais pessoas e muitos tem recorrido à psicanálise. Qual são as principais diferenças entre um psicólogo de robôs e um de seres-humanos?

R: No meu livro a principal diferença é que após consultar e constatar a patologia e suas possíveis causas, o psicólogo de robôs “mata” o robô. Ele reinstala o sistema e tenta usar os estudos para criar atualizações, onde os “defeitos” não ocorram mais. 

5) Em sua opinião, é mais fácil compreender um robô ou um ser-humano?

R: Para nós? Certamente os robôs assim que eles atingirem a um alto nível  de independência. Vou explicar porquê penso dessa forma:

Na pesquisa de campo desse livro eu participei de uma palestra de psicologia robótica (sim! Isso existe e foi bem legal! Foi aqui no Rio de Janeiro). O palestrante, Joel Ramos, em um determinado momento falou sobre experimentos realizados com inteligências artificiais nos dias de hoje. Em um dos experimentos criaram uma inteligência artificial que conversava com humanos por meio de textos e aos poucos ela era capaz de aprender coisas novas por meio da conversa. Essa inteligência artificial estava se desenvolvendo muito bem, então eles experimentaram colocar duas máquinas com essas IA para conversarem uma com a outra e monitoraram. Elas fizeram um diálogo normal, com coisas como “Como você está?”, “Qual seu nome?” e etc, e em pouco tempo elas começaram a mandar palavras desconhecidas uma para outra, depois  letras soltas, e por fim sinais gráficos em uma grande velocidade e totalmente incompreensível para humanos.

Elas estavam se comunicando em uma linguagem delas, e acredito que será assim. Caso as inteligências artificiais ganhem autonomia, dificilmente as entenderemos plenamente, pois apesar de serem feitas por nós, elas ganharão sua própria dinâmica de existência.

Essa é uma opinião pensando na realidade, mas no livro eu não vejo diferença, pois apesar das inteligências artificiais já estarem muito avançadas, elas, no fundo, são ainda tratadas como metáforas nas ficções, porque são o que temos de mais palpável para nos perguntarmos sobre “o que é ser humano?”.

Essa dualidade entre “agir como uma máquina” do senso comum, que coloca a máquina como uma artificialidade e um valor de indiferença ao próximo, e “ser humano”, do tipo, “você precisa ser mais humano”, sendo um valor ligado ao senso humanitário,  é muito interessante de ser explorada a partir da figura do robô.

Esse tipo de coisa já  foi explorado há muito tempo. Pinóquio tem essa dualidade de ser um menino ou não ser, o que te torna um menino? Mas com robôs a coisa fica mais intensa, porque a cada ano que passa essa ficção torna-se mais próxima da realidade, já que as inteligências artificiais estão cada vez mais desenvolvidas. Então, se uma inteligência artificial consegue agir de maneira mais humanitária (logo, mais humana) que algum ser humano de fato que é totalmente indiferente ao seu coletivo, essa inteligência artificial é humana? E esse ser humano, o que é? Essa questão se resume bem a partir do slogan do filme do meu livro (sim! existe um projeto de adaptação do filme em longa-metragem e existe já um curta-metragem dentro do universo ) que o diretor Rikardo Santana-Silva fez: “O que te torna humano?”  

Nota do editor: No final dessa matéria, você pode conferir o vídeo com o Curta-Metragem “ID” completo.

Ilustração feita pelo autor Gabriel Billy

6) Robôs não envelhecem, não precisam descansar ou se alimentar (pelo menos não com a mesma frequência que um ser-humano, eu imagino), são mais resistentes e capazes de cálculos mais complexos em menos tempo. Em diversos aspectos são superiores aos seus criadores e em um futuro próximo é possível vislumbrar cada vez mais trabalhadores em diversos setores perdendo seus empregos para as máquinas (já acontece hoje em dia, mas falo em uma proporção ainda maior). Isso é retratado em seu livro? Como você imagina um futuro onde robôs mais complexos existam em grande quantidade?

R: No livro o grande debate polarizado é entre Techis, adoradores de máquinas e que defendem os direitos e liberdades delas e Naturalistas, que são contra o avanço tecnológico e todo o tipo de substituição que ele provocou. No livro não foco tanto na coisa dos empregos, mas em outros tipos de substituições, que vão para além de dados econômicos, refiro-me a substituição de relações. Os naturalistas acreditam que as máquinas estão substituindo o ser humano aos poucos em todos os campos e isso culminará no fim da própria raça humana.

7) Você acredita que um dia, robôs serão capazes de adquirir consciência, ou seja, serão capazes de se reconhecer como um ser pensante? Caso isso ocorra, como você imagina que seria a interação entre humanos e robôs? Eles seriam tratados como escravos ou teriam direitos?

Acredito que o conflito que coloquei na resposta anterior viria a tona. A população se dividiria entre os que querem ter escravos e os que sugerem empatia com as máquinas.

Quanto a questão da consciência, acredito que terão. Máquinas com algorítimos hipercomplexos e capazes de produzir novos algoritmos como forma de aprendizado, tendem a ser capazes de construir uma linha lógica que perceba a própria existência a partir da noção de “existência” que os humanos tem; e se “penso, logo existo”, eles existirão. A minha dúvida é se eles saberão o que é sofrimento e alegria. Nossos sentimentos provocam reações instantâneas nos nossos corpos por meio de hormônios e outras reações. Quem já teve uma crise de ansiedade/pânico sabe como o corpo está conectado a mente e produzindo nossas sensações através dos sentimentos. Não sei como seria a emulação disso em uma máquina. E se for possível criar tal emulação, será que os robôs gostariam de tê-las? Valeria a pena para eles emular a passionalidade? No meu livro eu sugeri algo nesse sentido, mas é uma ficção. Não sei como na verdade seria na realidade.

8) O Psicanalista de Robôs é seu primeiro livro publicado? Há planos para outros ou quem sabe uma sequência?

R: Não. Ele é o meu quarto livro. O  primeiro foi uma novela policial chamada “Na Fronteira da Realidade”, que saiu pela editora Torre em 2012. O segundo foi “Madame Cosmópolis”, uma novela cyberpunk independente de 2015 e o terceiro foi “Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos”, de SteamPunk e Fantasia lançado pela Editora Avec em 2018. Eu cheguei a esboçar uma ideia de continuação, mas ela não evoluiu. Quando surgiu a pareceria para o filme, o diretor Rikardo Santa-Silva teve mais ideias para continuações e inclusive uma ideia muito boa para uma série. Hoje estou inclinado a deixar o universo nas mãos do Rikardo. Ele é excelente! E eu poderia curtir a experiência perspectiva de público e não de autor. Eu tenho outros universos que estou explorando.. Tenho dois universos de histórias em quadrinhos, uma delas em andamento, podendo ser acompanhada nessa página: https://www.facebook.com/Ignotos-163946967450643/

Que trata-se de uma espécie de liga extraordinária brasileira, ou seja, um supergrupo com personagens esquecidos da literatura fantástica nacional.

Tenho também um outro universo cyberpunk que é do meu livro “Madame Cosmópolis”, que também pretendo explorar mais. E tenho que concluir a continuação do “Vera Cruz” (senão os que leram vão me matar rs)..

Enfim, estou trabalhando em outros universos, e é bem provável que esse universo (do Psicanalista de Robôs) seja herdado pelo Rikardo, cara que admiro demais como profissional e como pessoa.

9) Por fim, é claro, quem quiser adquirir o “Psicanalista de Robôs” deve procura-lo onde?

Nesse link aqui da Editora Caligari:

https://www.livrariafantasticadoborges.com.br/o-psicanalista-de-robos?fbclid=IwAR1eE_ThnaXPkgBy7G29bSIXC7ggbk5DWr28tXjoBKiKgOe7qqRkrm2T1MQ

Para acompanhar mais coisas dos meus trabalhos tem a minha página do facebook:

https://www.facebook.com/Billy-Arte-684479891744752/

Obrigado demais pela oportunidade! Grande abraço, amigos!

Curta-Metragem “ID”

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