Segunda Animada: Liga da Justiça – Ponto de Ignição

Por Fernando Fontana

Spoilers

Viagens no tempo, um prato cheio para furos no roteiro.

Alguns filmes são tão bons, mas tão bons, que nós simplesmente ignoramos essas falhas, como a trilogia “De Volta para o Futuro” (não precisamos de um remake) e Exterminador do Futuro (o primeiro e o segundo, o resto é uma tentativa de espremer até a último centavo da franquia com filmes medianos ou ruins).

Liga da Justiça – Ponto de Ignição (no original, “The Flashpoint Paradox”) é um desses casos em que o roteirista soube lidar bem com o potencial destrutivo do poder de viajar no tempo, lançando uma gigantesca limitação ao seu uso, tão grande que praticamente impede o Flash de sair por aí alterando o passado sempre que este não lhe agradar.

A trama começa com o Flash enfrentando diversos vilões de sua galeria, e, entre eles, o único que parece ser realmente uma ameça para o velocista é Eobard Thawne, o Flash Reverso (Bumerangue não é lá muito assustador para o homem mais rápido do mundo), que por sinal, será o catalizador dos eventos catastróficos que abalarão o espaço/tempo.

A Galeria de Vilões do Flash

Com a ajuda de seus companheiros da Liga da Justiça, o Flash consegue derrotar os vilões e todos retornam para a prisão, mas uma frase do Flash Reverso faz com que Barry Allen decida retornar no tempo e salvar sua mãe, antes dela ser assassinada.

O que parecia ser um ato isolado (salvar sua mãe) gera uma reação em cadeia que altera drasticamente diversos outros eventos, arrastando o mundo para uma devastadora Terceira Guerra Mundial, envolvendo as forças Atlantes de Aquaman, as Amazonas da Mulher Maravilha e as forças militares da Terra.

Não há uma explicação de como exatamente ao salvar sua mãe, Barry provocou mudanças tão profundas, mas é seguro afirmar, baseado nas palavras do Flash Reverso, que estamos lidando com o “Efeito Borboleta” que inclusive gerou uma série de filmes com esse nome (o primeiro de 2004, com Ashton Kutcher é muito bom).

Flash ao lado de Thomaz Wayne (o Batman da nova realidade)

Segundo a teoria do Caos, uma pequena alteração na condição inicial de uma grande sequência de eventos, pode resultar em enormes mudanças no final.

Pode o bater de asas de uma borboleta no Brasil provocar um furação em Tóquio?

Exagero, certo? Vamos tentar novamente, um indivíduo resolve ficar em casa e assistir Netflix, ao invés de ir com os amigos em um bar. Se ele tivesse ido no bar, teria conhecido uma jovem, eles conversariam, se apaixonariam, namorariam, casariam, teriam filhos, e por conta do trabalho dela, se mudariam para Berlim, na Alemanha.

Como ele não foi, jamais se casou e nem teve filhos e nem se mudou para a Alemanha, acabou se tornando escritor e terminou seus dias em uma cidade do interior de Minas Gerais.

Tudo isso porque quis terminar de maratonar aquela série…

No mundo onde Barry Allen foi salva, ele jamais se tornou o Flash, o pequeno Bruce Wayne morreu no assalto, ao invés de seus pais, como resultado, seu pai se tornou o Batman, e sua mãe, o Coringa.

É com Thomas Wayne, o novo Batman, que Barry forjará a maior aliança. O Flash quer restaurar seu antigo mundo, Wayne também, já que nele, seu filho não morreu.

Thomas, ao contrário de Bruce, não tem qualquer restrição quanto ao uso de armas, nem tão pouco se importa de matar seus inimigos.

Nessa realidade, as versões da Mulher Maravilha e de Aquaman são ainda piores. Eles estão em guerra, e ambos desejam conquistar o Reino da Superfície. Diana é extremamente violenta, faz com que sua versão da HQ “O Reino do Amanhã” pareça uma pacifista, e Aquaman não fica atrás, matando sem piedade.

As versões de Aquaman e Mulher Maravilha são extremamente violentas e sem escrúpulos

Barry precisa de super velocidade para voltar no tempo e corrigir o erro, o que, por si só é um drama, embora não devidamente explorado na animação, corrigir o erro significa permitir que sua mãe seja assassinada. Para recuperar os poderes, ele precisa recriar o acidente que lhe deu eles, o que ele invariavelmente consegue com a ajuda do Morcego.

O problema é que ao tentar retornar no tempo ele percebe que não consegue atingir sua velocidade máxima porque há outro velocista acessando a “Força de Aceleração”. Note que, de uma tacada só, o roteirista Jim Krieg, lança duas travas na capacidade de viajar no tempo e alterar o passado, se dois velocistas estão utilizando os poderes, é impossível voltar no tempo, e se conseguirem, os efeitos de uma alteração, ainda que mínima, serão imprevisíveis e potencialmente devastadores.

Outro elemento com o qual Krieg soube lidar é o Superman. Atuando sob o comando do presidente dos Estados Unidos, Ciborgue tenta a todo custo recrutar o Batman para suas forças, mas fica a pergunta, que o Flash inevitavelmente faz, onde está o Superman? O Kryptoniano poderia alterar o rumo da guerra, já que é um dos heróis mais poderosos do planeta.

Um Superman afastado do Sol

Nesta realidade, o Superman não foi criado por Jonathan e Martha Kent, e o governo dos Estados Unidos, por alguma razão, talvez por considerá-lo incontrolável, optou por mante-lo isolado e longe do Sol, sua fonte de poderes, ao invés de utilizá-lo como Super Soldado (como Hipérion, na excelente HQ Poder Supremo).

Ocorre algo semelhante com Hal Jordan, que jamais se tornou um lanterna verde, mas que aparece brevemente na animação, devido às suas habilidades como piloto.

Tive a impressão de que essa história merecia mais tempo do que apenas 01h21min, talvez dividi-la em duas partes, e o traço poderia ser melhor, mas, no geral, é muito boa, mantendo a qualidade pela qual a DC Comics ficou conhecida pelas suas animações.

Avaliação: Boa

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos, uma vez que já é um Nerd com mais de quarenta anos.

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