O Vale Nerd: Eu não sei se estou Ok com isso.

Olá todo mundo, bem vindos ao vale! Eu sou Everton Nucci e não estou nada Ok com a série da Netflix “I am not ok with this” baseada na HQ de mesmo nome, bem, na verdade isso depende. Afinal de contas tudo no mundo é relativo e dependendo muito do ponto de vista do observador, diria mais, diria até que a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz elevada ao quadrado (acabei de pensar nisso acreditam?).

Primeiramente vamos falar um pouco da HQ, o material não deve ser muito conhecido do grande público, afinal não é nem Marvel e nem DC, mas sim, existe uma Graphic Novel de 160 páginas de autoria de Charles Forsman que também escreveu a HQ de “End of the fxxxing world”, e os trailers fazem questão de frisar isso. O quadrinho acompanha a vida da protagonista vivendo seu conturbado período de puberdade repleta de muita depressão e um clima bastante pesado e melancólico, trata de temas fortes e abrange o que seria o arco coberto pela primeira temporada da série [spoiler] diferente da série, no final da HQ a protagonista morre [fim do spoiler].

Graphic Novel de Charles Forsman na qual se baseia a série

A série traz um clima bem mais leve, com muito humor ácido e um formato de fácil digestão, são apenas 7 episódios com mais ou menos uns 20 minutos cada um, muito divertida e gostosa de maratonar, só por isso, a série já ganhou minha recomendação, não percam tempo e vão já assistir.

Por fim, tenho que falar da história, da narrativa e da execução em si. Na série conhecemos a protagonista Sydney, sua mãe Maggie, e seu irmão Liam, os três formam uma família socialmente vulnerável que parece estar passando por um período extremamente conturbado na vida.

A mãe vive tendo que fazer horas extras como garçonete para poder bancar a casa, já que o marido se matou, isso faz com que a filha acabe tendo que assumir o papel de cuidadora do irmão mais jovem ou como ela própria define “ser a mãe do irmão”. Ela tem que enfrentar essas obrigações precoces enquanto lida com todos os problemas trazidos pela puberdade, se vê apaixonada pela melhor amiga e descobre ter super poderes. O irmão mais novo (um fofo) só quer cuidar do seu hamster, ter uma família feliz sem brigas domésticas e sem sofrer bullying na escola. Por fim, os coadjuvantes Dina, Stanley e Brad vem acrescentar ainda mais conflitos à história, como se ela não tivesse problemas suficientes em casa.

Sydney não vê nada de especial em si mesma e realmente não gosta do seu relacionamento com a mãe, ela só se tornou amiga de Dina porque ambas eram as garotas novas do colégio.

Diferente da protagonista, a amiga é cheia de alegria, energia e exuberantemente linda. O relacionamento das duas vai bem até que Dina começa a namorar Brad, o atleta popular da escola.

O namoro faz com que a amiga comece a passar mais tempo com o rapaz do que com a protagonista e assim ela descobre o quanto sente ciúmes de Dina, o quanto ela está apaixonada por Dina.

A protagonista Sydney

É nesse momento que surge Stanley, um vizinho esquisitão, o qual Sydney nunca sequer notou que existia, eles se aproximam e a protagonista acaba por conhecer a visão debochada e cínica que o garoto tem do mundo.

Tudo isso acontece em meio ao turbilhão de emoções que a puberdade traz à garota, quando se é adolescente cada nova espinha parece ser o fim do mundo, cada beijo parece que vai incendiar todo o corpo e cada rejeição parece que vai literalmente abrir um buraco em seu próprio peito por onde seus órgãos vão espontaneamente sair voando. Agora misture tudo isso a super-poderes telecinéticos ligados à raiva, pronto temos a perfeita receita do desastre.

Uma coisa é inegável, a direção da série é fantástica, nos primeiros episódios você sente total empatia pela protagonista e fica louco de raiva com a mãe, afinal por que ela está sendo tão babaca com a própria filha? Já nos últimos episódios você está no lado oposto, pensando o quanto a garota é babaca com a mãe. O desenvolvimento de cada uma das personagens é muito bom, mesmo com certos diálogos parecendo surreais demais para terem saído da boca de adolescentes. Tem também o fato de cada uma delas fazer parte de um arquétipo ultra definido, chega a parecer que as personagens acabaram de sair de um filme de John Hughes. Aliás, referências a outras obras da cultura pop não faltam, temos desde “Carrie a estranha” a “Clube dos cinco”.

Mas se a série é assim tão interessante o que poderia ter me incomodado tanto? Bem, eu creio que o programa trata de assuntos sérios demais para ser encarado como simples diversão. Ela te apresenta uma personagem super carismática inteligente, cheia de humor que você ama quase que instantaneamente, essa personagem é um traficante! Em certo momento uma personagem oferece maconha a outra que inicialmente recusa, a frase que se ouve a seguir é a deplorável “Experimente, todo mundo fuma! Você não quer ser legal igual todo mundo?”. Não me levem a mal, não sou hipócrita de falar mal de maconha, sei que o assunto envolve mais lendas do que fatos e que a tendência mundial é a liberação da droga, mas colocar palavras assim na boca de personagens supostamente “bonzinhos” pode ser  muito problemático, um adolescente que assiste à isso pode ter uma compreensão totalmente errada da cena. Logo no primeiro episódio vemos a protagonista coberta de sangue e sabemos que a narrativa nos levará a um acontecimento muito ruim, mas eu realmente não esperava pela chocante e gráfica cena final. Colocar um peso desses nas mãos de uma adolescente é, mais uma vez, muito problemático.

Ao meu ver o programa explora muito bem a metáfora da puberdade, frequentemente abordada nos quadrinhos, a descoberta dos superpoderes simboliza a descoberta da sexualidade, como quando Peter Parker salva o almoço de Mary Jane no filme de Sam Raimi e logo em seguida vê o fluido de teia saindo de seu corpo sem nenhum controle. “I am not ok with this” mostra Sydney descobrindo a sexualidade de forma bem mais direta e usa o fator da fantasia para ilustrar as consequências das escolhas dos adolescentes, de repente, num surto de raiva, o jovem pode fazer ou dizer algo do qual vai se arrepender pelo resto da vida, aqui, o descontrole emocional da protagonista pode acabar matando um animal inocente, assim como a escolha de Dina em namorar pode afastá-la de sua melhor amiga.

Sydney, em uma referência à “Carrie, a Estranha”

É interessante ver como a série retrata a fluidez da orientação sexual, a protagonista sabe que é lésbica mas isso não a impede de experimentar o sexo com um homem, outra personagem tem certeza de que é hétero mas só até ser beijada por alguém do mesmo sexo. Adolescentes são assim, um turbilhão de hormônios, desejos e novas experiências.

Pois é, no fim das contas meu grande conflito se deve ao fato de eu não saber muito bem quem é o público alvo da série.

Se a série é direcionada aos adolescentes, eu diria que ela é bastante leviana ao retratar uma série de comportamentos reprováveis sem apresentar as consequências. As personagens passam uma série de “maus exemplos” e eu não vejo isso com bons olhos. Mas se o público alvo forem os adultos, principalmente os pais de adolescentes, eu diria que ela pode servir como um grande alerta de como a falta de atenção pode gerar péssimas consequências na vida dos jovens, de como um diálogo mais aberto e um pouco de observação mais cuidadosa no comportamento dos filhos pode evitar grandes problemas.

Observação: A Netflix registra indicação etária de 16 anos para a série.

Se a proposta da série for a segunda opção eu acho que a escolha de chocar ao mostrar os acontecimentos de forma tão gráfica torna-se perfeitamente justificável. Se eu fosse definir “I am not ok with this” em uma frase seria “Adolescentes fazem merdas, super adolescentes fazem super merdas”.

E se você quiser me contar o que achou da série, deixe seu comentário logo abaixo.

Como recomendação do dia, deixo o “disco” da banda fictícia apresentada na série e na HQ que a Netflix lançou de verdade. Basta buscar por “Blood Witch” no seu Spotify, Deezer e etc para ouvir o álbum, aliás, eu estou ouvindo enquanto escrevo essa crítica. Por hoje é tudo, até mais para todos vocês, obrigado por lerem essa coluna e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e já fez muita merda quando era adolescente.

8 Comments

  1. Julie disse:

    Acho que é diferente liberdade de expressão de que mostrar atitudes levianas (inclusive que não tem consequências). Isso não poderia acontecer. Mas é uma série curta, vou assistir o mais rápido que puder, isso é empolgante.

    • Everton Nucci disse:

      Pois é, nos dias de hoje é preciso ser cauteloso. Vivemos num mundo cada dia mais politizado (ou quase isso) o fato é que tem muita gente disposta a fazer barulho quando um filme, livro ou hq lhe desagrada. Para o bem ou para o mal, as pessoas ganharam voz na internet.

  2. superninguem disse:

    Tudo depende de como uma atitude possivelmente nociva é tratada, por exemplo, se jovens correndo a 180 km/h e sem capacete forem retratados como pessoas aventureiras, que vivem a vida em sua plenitude e sem consequências para seus atos, a obra incentiva essa atitude, porque um adolescente pode comprar essa ideia, no entanto, se no meio de uma dessas corridas ele sofre uma acidente grave, se fere ou fere outras pessoas, se vemos uma reação negativa a um ato perigoso, então, é diferente.

  3. Liam disse:

    Ih rapaz , cai aqui por engano enquanto pesquisava no Google: ” Palavras Confusas” kkkk Brincadeiras a parte. Não conheço nada do que vc fala no texto, mas de qualquer forma parabéns pelo trabalho.

    • superninguem disse:

      Fazemos uma seleção rigorosa, ser confuso e apresentar um atestado de insanidade são pré-requisitos indispensáveis para qualquer colaborador deste site. Basicamente porque trabalhar com pessoas decididas e mentalmente equilibradas é muito chato! Obrigado e continue acompanhando o nosso trabalho, em especial o Vale dos Nerds.

  4. Não fazia ideia de que vinha de HQ. Provavelmente verei algum dia.

  5. Everton Nucci disse:

    Obrigado pelo acesso Liam. Dê uma olhadinha nas outras matérias do site também tenho certeza de que tem algo por lá que você conhece. Obrigado pelo elogio, me esforço cada dia mais para não parecer normal 😉

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