O diretor James Gunn mostra o que é necessário para se tornar um herói fantasiado.

Em 2010, estreou nos cinemas o filme Kick-Ass, baseado nos quadrinhos escritos por Mark Millar e dirigido por Matthew Vaughn, que narrava a história de um adolescente sem poderes (Aaron Johnson), que decide se transformar em um vigilante mascarado e combater o crime.

A premissa foi ótima porque nos permitiu ver o quão absurdo e perigoso seria alguém sem qualquer poder, decidir se fantasiar e agir como o Batman. A vida real não é como os quadrinhos. O roteiro segue por esse caminho até a entrada das personagens Hit-Girl (Chloë Grace Moretz) e Big Daddy (Nicolas Cage), quando a ação se transforma em algo muito mais cinematográfico e irreal, com uma única adolescente chacinando diversos criminosos fortemente armados, no melhor estilo Ninja Assassina.

Neste mesmo ano, 2010, com roteiro e direção de James Gunn (Guardiões da Galáxia, Volumes 1 e 2), surgiu também o muito menos badalado “Super”, com Rainn Wilson, Ellen Page, Kevin Bacon e Liv Taylor no elenco.

Rainn Wilson como o herói “Raio Carmesim”

A premissa é a mesma que a de Kick-Ass, um sujeito sem poderes, decide se transformar em um vigilante mascarado e combater o crime, mas as semelhanças param por aí, a proposta de James Gunn é bem diferente da do diretor Vaughn.

Na trama, Frank Darbo (Rainn Wilson) é um cozinheiro que não gosta da própria vida, resumindo seus únicos bons momentos em apenas dois: ter se casado com Sarah (Liv Taylor) e ter auxiliado um policial, indicando a direção pela qual um ladrão havia seguido.

Quando sua esposa foge com um traficante (Kevin Bacon), Darbo decide se transformar no Raio Carmesim, combater o crime e resgatá-la.

A partir daí vemos o que acontece com alguém que toma essa decisão, de uma forma muito mais crua e próxima do realidade do que Kick-Ass. E caso você esteja pensando: “caramba, ninguém seria louco a ponto de vestir uma fantasia e sair por aí combatendo o crime”, sugiro que dê uma olhada no documentário da HBO, “Super Heróis”, de 2011, que mostra inúmeras pessoas nos Estados Unidos, criando um nome, vestindo uma fantasia e percorrendo as ruas em busca de criminosos.

Tanto neste documentário, quanto em “Super”, vemos que a primeira coisa necessária para alguém se vestir de super-herói e combater o crime é ter algum distúrbio psicológico. No caso de Frank, ele, desde criança, tinha visões ligadas ao cristianismo, enxergando Jesus e pessoas com faces demoníacas. Torna-se, portanto, facilmente influenciável por um super-herói fictício chamado “Vingador Sagrado”, que tem um programa com atuações extremamente caricatas e que prega os valores cristãos na TV.

O Vingador Sagrado luta contra o pecado da luxúria.

O Vingador Sagrado, assim como o Raio Carmesim e tantos outros heróis dos quadrinhos, enxerga o mundo de uma forma simplista, em uma dicotomia onde o bem e o mal estão claramente definidos. O inimigo do Vingador Sagrado é o diabo, para Frank, o diabo é o traficante que “roubou” sua esposa, sem perceber que a situação é muito mais complexa.

O roteiro brinca com todos os clichês das histórias em quadrinhos, como o fato de que máscaras não escondem quem você realmente é, pelo menos não de pessoas que já o tenham visto antes. Estamos acostumados a ridicularizar o disfarce de Clark Kent, que consiste em um óculos e um penteado diferente (realmente o mais absurdo de todos), mas esquecemos que o Comissário Gordon e qualquer um que já tivesse visto e conversado com Bruce Wayne, também o reconheceria com a máscara que não cobre o rosto por completo.

Além disso, ganchos e bombas de fumaça não funcionam exatamente como deveriam, e o ator William Kat, que interpretou o protagonista da série cômica “Super-herói Americano” faz duas breves pontas no filme, mas não se engane, o fato de haver “humor negro” em “Super”, não o transforma em uma comédia, pelo menos, não no tipo de comédia convencional.

A arma escolhida por Frank é uma pesada Chave de Grifo, e, ao contrário dos quadrinhos e dos filmes de super-heróis com classificação etária para 13 anos, acertar a cabeça de uma pessoa com essa chave causa ferimentos graves, é violento e envolve muito sangue.

Além disso, guiado pela dicotomia de bom ou mal, certo ou errado, e sem um julgamento justo, Frank e sua parceira mirim agem de forma totalmente desproporcional contra os supostos criminosos.

Em uma cena que me lembrou muito “Um dia de Fúria” (1993) com Michael Douglas, o Raio Carmesim atinge de forma violenta um homem e uma mulher que furaram a fila do cinema. Sim, ninguém gosta de pessoas que furam fila, e gostaríamos de vê-los punidos, mas um traumatismo craniano é definitivamente um exagero.

Além disso, ao tentar enfrentar bandidos armados com pistolas, Frank é quase morto, e percebe algo bastante evidente, o Batman só está vivo até hoje pela generosidade dos roteiristas, pois contra armas de fogo, bumerangues, porretes, nunchakus, espadas ou uma chave de grifo, são basicamente inúteis.

Outra cena que merece destaque é a em que Libby, ao mostrar pela primeira vez sua fantasia de parceira mirim, tenta fazer diversas poses sensuais, em uma clara crítica à forma como super-heroínas são mostradas nos quadrinhos.

O roteiro também não deixa passar o fato de existir uma parceira mirim e dela ser colocada para lutar contra criminosos armados, o que, vamos concordar, não é lá um ato muito responsável.

O terceiro ato traz bem mais ação, e você, de fato, se importa com os personagens, embora, não haja desenvolvimento deles durante o longa.

O final certamente não é o que o grande público esperava, mas se encaixa com a proposta do roteiro, embora, talvez, ele tenha sido suavizado para não causar uma reação negativa generalizada.

É fácil compreender porque “Super” fez bem menos sucesso do que “Kick-Ass”, é um filme bem mais autoral, menos Hollywoodiano, e com uma história que não se encaixa perfeitamente dentro de um gênero, como drama ou comédia, com mais camadas do que deixa transparecer. Quem for assisti-lo na esperança de um filme de super-heróis convencional acabará se decepcionando.

Se você está tentando fugir um pouco da fórmula Marvel e dos heróis da DC Comics, em seus filmes com orçamentos milionários e roteiros engessados, “Super” é uma excelente pedida.

Avaliação: Muito bom

Trailer “Super”

____________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro ‘Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *