Nemo: A Insustentável Invisibilidade da Ficção Científica

Elementar, Sir Arthur Conan Doyle

Criador de Sherlock Holmes também foi um dos pioneiros da ficção científica
Por Sidemar de Castro

Sexta-feira, dia 22 de maio de 2020, completaria 161 anos de nascimento o relativamente pouco conhecido escritor Arthur Ignatius Conan Doyle, criador do mundialmente mais famoso pai de todos os detetives, Sherlock Holmes (com a devida licença ao investigador C. Auguste Dupin, que apareceu bem antes em Os Assassinatos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe). No final das contas, é Sherlock quem virou sinônimo de detetive. Mas o que tem um dos pioneiros do romance policial a ver com ficção científica?

Bom, afora o fato de que o método de investigação desenvolvido pelo personagem de Holmes era totalmente baseado na ciência, Conan Doyle também escreveu O Mundo Perdido (The Lost World, 1912). O livro tem como protagonista outro tipo de investigador, o professor Challenger, que realiza uma expedição a um platô na bacia amazônica, na América do Sul, descobrindo um ecossistema sobrevivente da pré-história com dinossauros e outras criaturas supostamente extintas.

O Mundo Perdido de Sir Arthur Conan Doyle

Sim, é por causa desse livro clássico de aventuras fantásticas que aquele episódio do Jurassic Park e o livro que o originou, de Michael Crichton, chama-se O Mundo Perdido. O professor Challenger ainda participou de outras histórias como A Nuvem Envenenada, em que uma nebulosa cósmica ameaça toda a vida na Terra; A Terra das Brumas, em que o autor começa a demonstrar seu interesse pelo espiritismo (o que vamos comentar adiante); A Máquina da Desintegração, conto publicado juntamente com o anterior, em que o professor Challenger e seus amigos enfrentam uma arma capaz de destruir tudo; e Quando o Mundo Gritou, também publicado com os dois anteriores, um conto que antecipa temas como os limites e exploração do globo e o caráter mercantil da ciência e espetacularização dos eventos na mídia.   

O autor

Escocês de origem irlandesa, médico, Sir Arthur Conan Doyle escreveu 60 histórias com Sherlock Holmes, sinônimo de detetive e literatura policial. A fama de Holmes era tanta, que o personagem praticamente eclipsou o autor, que sempre se ressentiu de que ele “roubava” sua possibilidade de escrever “literatura séria”. Mas Sherlock Holmes é um caso muito sério na literatura e até além dela, invadindo outras mídias com sua influência.  

Embora a obra de Doyle também incluísse histórias de ficção científica, novelas históricas, peças e romances, poesias e obras de não ficção – é evidente como tudo ficou em segundo plano diante do detetive morador do mítico endereço de 221 B Baker Street – que realmente existe, até hoje. Muita gente, inclusive, acreditava que Sherlock Holmes era real, e cartas pediam sua ajuda, enviadas ao endereço londrino. Até a famosa polícia britânica, a Scotland Yard (que na verdade leva o nome do bairro em que se localizava originalmente), buscou sua assessoria (a do escritor, evidentemente) para solucionar alguns casos.

Um Estudo em Vermelho – 1887

Após passar por diversos problemas, como médico da Marinha, Sir Arthur publicou Um Estudo em Vermelho, em 1887, a primeira história em que conhecemos Sherlock Holmes e seu diligente parceiro e amigo, Dr. Watson, muitas vezes narrador das aventuras do detetive, e que funcionava como alter ego do escritor, enquanto o detetive foi inspirado num professor de Conan Doyle, o médico Joseph Bell, cirurgião que lecionava na Universidade de Edimburgo no final do século 19. Ao longo da vida, o autor escreveu 56 contos e quatro romances com Sherlock Holmes.

Após anos de sucesso com as aventuras do detetive, em 1893, Doyle decidiu “matar” Holmes, pois o detetive “ocupava sua mente” com suas intricadas histórias. O resultado disso foi The Final Problem, em que Sherlock se joga, junto ao seu arqui-inimigo, o professor e gênio do mal Moriarty, do alto de uma catarata numa cidade da Suíça. A reação do público foi tão negativa que Conan Doyle se viu na obrigação, bem remunerada, de “ressuscitar” o personagem tempos depois.

Como foi dito acima, Holmes era parcialmente baseado em seu professor da época na universidade, Joseph Bell, com um raro talento investigativo e de dedução.

Ele ajudava a polícia escocesa em algumas investigações, utilizando métodos científicos hoje comuns, mas então pouco desenvolvidos. Mas o homem que criou alguém tão difícil de enganar e com enorme poder de dedução como Holmes, na verdade parecia-se mais com seu crédulo companheiro, o dr. Watson, não por acaso narrador fictício e vivenciador das aventuras.

Sir Arthur Conan Doyle e o Ilusionista Houdini

Atingido pela morte do próprio filho, Kingsley, Arthur Conan Doyle voltou-se ao espiritismo, tornando-se presa fácil de todo tipo de credulidade: dos poderes sobrenaturais do mágico Houdini (apesar de negados pelo próprio prestidigitador) a até… fadas e duendes.

Em 1917, duas meninas pegaram emprestada a câmera fotográfica do pai e produziram as primeiras de uma sequência de fotos que mostravam “fadas” e “gnomos” brincando no jardim. Na verdade, eram recortes de livros de fantasia presos por alfinetes na vegetação. Em 1920, as fotos chegaram ao conhecimento de Sir Arthur Conan Doyle — que após o morticínio da I Guerra Mundial, passara a ser um ardente defensor do sobrenatural. Sir Arthur escreveu artigo e livro a respeito, atestando a autenticidade das imagens, apesar da confissão posterior de uma das meninas, daquilo que era uma brincadeira que foi longe demais.   

Apesar dessa sua faceta pouco conhecida, Sir Arthur Conan Doyle foi o criador do mais instigante personagem da literatura policial mundial, e que mais vezes foi adaptado ao cinema. Sua encarnação mais recente e famosa foi na pele do Robert Downey Jr, também conhecido como Tony Stark, o Homem de Ferro.

“Elementar, meu caro Watson”. Frase, aliás, criada no teatro e que popularizada pelo cinema, jamais foi escrita pelo escritor de Sherlock Holmes. 

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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