Quadrinhos: Wilson

Por Fernando Fontana

Wilson surgiu quando Daniel Clowes (Mundo Fantasma, Paciência) precisou ficar junto ao seu pai que estava muito doente em um quarto de hospital. Para fugir do tédio, ele começou a esboçar diversas tirinhas com um personagem ainda sem nome, uma versão sua, porém mais sombria e direta quando se trata de apontar os problemas do mundo.

Tempos depois, o escritor e desenhista decidiu organizar as tirinhas que fizera de modo a formar uma história, transformando-as em um encadernado publicado em 2010, e que seria adaptado para os cinemas em 2017 com direção de Craig Johnson e Woody Harrelson no papel do protagonista.

“Quero dizer, Cristo, você percebe o quão ridículo soa isso?”

Você já deve ter trombado com alguém semelhante a Wilson, aliás, hoje em dia, eles surgem aos borbotões na internet.

Eis aqui um trecho que revela um pouco de seu pensamento:

“Tantos livros e nenhum que fale de mim? Eu sou tão terrível assim? Por que mais um livro sobre Lincoln? Ele usava cartola e libertou os escravos – a gente já sabe!” Não é a toa que as livrarias estão fechando”.

Sim, livros que falem sobre o homem comum são importantes, um dos meus preferidos de José Saramago é “Todos os Nomes” que fala justamente do valor que as pessoas desconhecidas possuem, mas essa não é a questão aqui. Wilson não se considera um homem comum, ele acredita saber tudo sobre tudo e constantemente recrimina as pessoas pelo seu modo de viver, pelo seu comportamento, pelo trabalho que escolheram, ignorando que sua própria vida não é exemplo para ninguém, tanto profissionalmente quanto emocionalmente.

É algo como um sujeito completamente falido e atolado em dívidas que se considera um grande conhecedor de economia, recriminando os demais e sendo sarcástico sobre suas escolhas de investimento.

A relação de Wilson com seus pais era extremamente problemática, quase não se falavam, se divorciou, vive sozinho, não possui amigos ou emprego, e suas habilidades sociais são quase nulas, ainda assim, olha para o mundo como se fosse o detentor da verdade absoluta e estivesse cercado de idiotas.

Woody Harrelson como Wilson em filme baseado na obra de Daniel Clowes

Falta-lhe um pingo de bom senso.

É o tipo de pessoa que senta ao lado de um completo desconhecido no ônibus, ainda que existam inúmeros assentos livres, puxa conversa, e se não é correspondido ou obtém as respostas que esperava, lhe chama de imbecil.

Há, no entanto, momentos em que, debaixo de todo o egoísmo do personagem, encontramos uma crítica genuína aos nossos hábitos, alguns dos quais o próprio autor considerava sem sentido.

Como eu disse, há inúmeros Wilsons por aí, e eles se sentem ainda mais a vontade para criticar e ofender escondidos e protegidos pela tela de um computador. Há uma tirinha em que o personagem se conecta a internet e começa a conversar com pessoas, provavelmente em uma rede social, nela, ele critica o progresso tecnológico sem estar atrelado a progresso como indivíduos:

“Será que o progresso sempre foi assim? Parece que só passamos de inovação em inovação sem nem ao menos parar para experimentar algo em profundidade. Se estou conectado com tanta gente porque eu me sinto tão sozinho toda vez que ligo essa coisa?”

Wilson

A arte das tirinhas se modifica completamente, variando do desenho cartunesco até o realista, mas a mudança não incomoda de forma alguma, mantendo o foco na história, na visão de mundo do protagonista e na crítica aos costumes.

Wilson é uma mistura de drama e comédia que funciona e que vale a pena ter em sua estante.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, também é colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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