Algumas animações são um tiro certeiro, não arriscam, não inventam a roda, pegam algo que já foi escrito de forma brilhante por alguém e simplesmente transportam para a tela.

Alguém poderia dizer: “ei, porque eu assistiria algo que é exatamente igual ao que eu já li nos quadrinhos?”

É uma pergunta justa, mas, lembre-se, nem todo mundo leu, e há quem já tenha lido e que goste de assistir, você sabe, ver as imagens em movimento. Vai entender? Fato é que essas pessoas existem, e “Batman Ano Um” (2011), dirigido por Sam Liu e Lauren Montgomery é um prato cheio para elas.

Baseada no quadrinho homônimo escrito por Frank Miller (autor de “O Cavaleiro das Trevas” e “A Queda de Murdock”, respectivamente duas das melhores histórias, senão as melhores histórias do Batman e do Demolidor), e ilustrada por David Mazzucchelli (que também ilustrou “A Queda de Murdock”), a animação acompanha o primeiro ano de Bruce Wayne como Batman e de Jim Gordon como policial em Gotham City.

Muito bom, mas árvore não revida!

Bruce retornou para a cidade após um longo período de treinamento e está disposto a combater o crime naquilo que se transformará em sua jornada perpétua, mas ele sente que falta algo, ainda não consegue inspirar medo no coração dos bandidos que assolam a cidade.

Gordon divide o tempo de animação com o Batman, vemos também sua escalada rumo a se transformar no Comissário de Polícia de Gotham e um dos principais aliados do morcego.

É interessante perceber que ele não gosta de estar na cidade, tão pouco do seu trabalho, mas foi transferido e agora precisa cumprir o seu dever, o que não será fácil, pois logo ele irá perceber que a fronteira que separa o crime da polícia de Gotham é quase inexistente.

Os policiais, em sua grande maioria, são corruptos e violentos sob as bençãos do então Comissário de Polícia Gillian Loeb, e a presença de um “homem honesto” no departamento não é bem vinda.

A Swat de Gotham pronta para levar uma surra do Morcego.

Wayne, é óbvio, irá encontrar o seu símbolo, tornando-se uma lenda, um mito, o morcego gigante que vaga pela noite aterrorizando criminosos. Sendo o vigilantismo ilegal, torna-se inevitável um primeiro confronto entre Gordon e o Batman, embora ambos saibam que não são inimigos de fato.

Na realidade, eles lutam contra os criminosos, sejam eles da máfia ou da própria polícia, e estão tentando aprender as regras do jogo. Mesmo vestido como Batman, Wayne comete erros grosseiros, e, por mais de uma vez, coloca sua vida em risco e fica perto de morrer em confronto com criminosos de segunda, que anos mais tarde jamais seriam considerados uma ameaça.

Gordon, por sua vez, precisa deixar clara sua posição no Departamento, enfrentando os policias que não o querem por perto. Outra característica marcante tanto do quadrinho quanto da animação é o fato dele não ser um homem perfeito, cometendo erros que arriscam seu casamento e ferem aqueles que o amam.

Gordon enfrentando a própria consciência

Vale destacar que no original, Gordon é dublado por ninguém menos que Bryan Cranston (protagonista de Breaking Bad) e Batman/Wayne por Ben McKenzie (o Gordon da série Gotham), e ambos fazem um excelente trabalho. Apesar da dublagem nacional ser muito boa também, vale a pena conferir o original por conta deles.

A Mulher Gato também faz sua aparição, vestindo o uniforme pela primeira vez, mas seu papel é secundário, assim como o promotor Harvey Dent, que aparece em uma ponta, mas não sem se transformar em Duas Caras, o mortal inimigo do morcego.

Miau!

Temos ação e ela dá conta do recado, com destaque para a cena em que Batman se vê cercado por um esquadrão da Swat em um prédio e precisa derrubá-los um a um.

É claro, nós já sabemos o final, Batman e Gordon serão grandes aliados, com direito a Bat-Sinal e tudo, o primeiro como vigilante de Gotham, o segundo como Comissário de Polícia, mas trata-se de narrar o início da jornada e isso o roteiro de Miller, transferido para as telas, faz de forma muito competente.

Quanto ao desenho em si, ele lembra o traço de Mazzucchelli nos quadrinhos, embora não seja possível pedir por perfeição.

Resta saber se você é daqueles que gosta de ver os quadrinhos em movimento.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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