O Vale Nerd: Ficção, Horror e Sangue no Vale

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindos ao vale! Eu sou Everton Nucci e sou fã absoluto da ficção e de seus sub-gêneros, dentre eles, o gênero do terror. Mas foi com a série da qual irei falar hoje que aprendi que há uma diferença muito grande entre terror e horror, a obra de horror tem o intuito de chocar e causar desconforto no espectador com cenas gráficas, muito gore, sangue, criaturas medonhas e/ou repulsivas. O intuito principal do horror não é provocar medo, arrepios ou fazer o espectador pular da cadeira, esse é o papel da obra de terror. É muito importante saber disso quando se começa a assistir “American Horror Story”, afinal essa não é uma série de terror, e sim, uma série de horror.

Essa é uma série que eu amo, e considero uma das melhores da TV americana dos últimos tempos, ao lado de “Breaking Bad”, “Game of thrones” e “House of Cards”.

Primeiramente, o que há de tão diferente nessa obra? Certamente é a narrativa! AHS foi na contramão do sucesso, quando as séries dramáticas e procedurais predominavam na TV, Ryan Murphy e Brad Falchuk (“Nip/Tuck”, “Glee”) resolveram investir em uma série de antologia. Agora preciso fazer duas pausas, uma para dizer que Ryan Murphy é gay, o que faz com que o assunto seja abordado na série com muita propriedade, e a outra para explicar o que é cada uma dessas coisas.

Série dramática, é o nome que se dá a narrativa de histórias que se estendem ao longo da obra, como “LOST”, “Stranger Things”.

Série procedural, são as séries cuja história se resolvem -geralmente- num só episódio, como “C.S.I.”, “Star Trek”.

Série antológica, são séries com histórias independentes entre si, a cada episódio são novos personagens, atores, só o que se mantém é a temática, como  “Black Mirror”, “Love, Death & Robots”.

Cartaz Nona Temporada de American Horror History

Algumas séries trazem uma mistura de narrativas, por exemplo, “Arquivo X”, “Gray’s Anatomy” e “Supernatural” misturam episódios procedurais, sempre trazendo sua doença a ser curada ou seu monstro a ser morto no dia, ao mesmo tempo em que trazem uma história principal que se desenvolve ao longo da temporada, os dramas e relacionamentos dos médicos, a busca por respostas de Mulder, Scully e dos irmãos Winchester. “American Horror Story” por sua vez traz uma mistura ainda mais inusitada, uma antologia que conta uma história que se desenvolve ao longo da temporada, em vez do tradicional único episódio, mas também uma dramaturgia que se desenvolve dentro de um mesmo universo. Sabe o que a Marvel faz com seus filmes? AHS faz com sua série! Cada temporada se passa em um período histórico diferente, trazendo estilos diferentes, desde o mais caricato fictício até o mais realista e depressivo, desde a comédia do absurdo até o drama pesadíssimo do abuso. Como ávido fã da série, eu tenho meu ranking de temporadas preferidas, que é esse que se segue abaixo:

– Cult – Sétima temporada; Período – 2017.

– Coven – Terceira temporada; Período – 2013.

– Hotel – Quinta temporada; Período – 2015.

– Murder House – Primeira temporada; Período – 2011.

– Freak Show – Quarta temporada; Período – 1952.

– 1984 – Nona temporada; Período – Adivinha só!

– Roanoke – Sexta temporada; Período 2014 e 2016.

– Asylum – Segunda temporada; Período – 1964.

– Apocalipse – Oitava temporada; Período 2020 a 2021.

American Horror Story – Daqui a pouco ele vai falar sobre isso.

Você pode concordar ou discordar com meu ranking, não importa, essa é a beleza da série.

Há uma variedade de estilos que se alternam de temporada para temporada. “1984”, por exemplo, traz uma enorme homenagem aos filmes de “slasher” dos anos 80.

A premissa é a mais básica possível: Um grupo de jovens fica preso em um acampamento de férias, o que poderia dar de errado? Você disse Dieizu? Não! Não seria “American Horror Story” se fosse tão simples, os jovens dessa temporada não serão aterrorizados por um serial killer, nem por dois, mas sim por três serial killers, fantasmas vingativos, um satanista imortal, empresários artísticos, jovens intrometidos. É o suficiente para vocês? Não para Ryan Murphy e Brad Falchuk, a história ainda brinca com a linguagem dos “thrillers” trazendo reviravoltas surpreendentes  a cada episódio, num certo ponto da história não há mais como afirmar se a personagem é vítima ou se é vilã. E ainda sobra tempo para críticas sociais sobre exploração midiática de tragédias, saudosismos excessivos, problemas familiares, ética médica, loucura e sanidade, assédio sexual em Hollywood, como o sistema judicial é falho. E isso é só o que eu consigo me lembrar no momento. Para aproveitar tudo só assistindo mesmo.

Essa uma vantagem de uma série de antologia, não é preciso acompanhar desde a primeira temporada. As únicas que eu realmente não recomendo para iniciar são “Cult” e “Apocalipse”. Os motivos são simples, “Cult” apresenta uma desconstrução da linguagem criada por AHS, e não se pode apreciar verdadeiramente a beleza de uma desconstrução se você não conhece a tradição. Já de “Apocalipse” precisarei falar mais tarde.

Eu sempre me pergunto o que aconteceu com o desavisado que assistiu à primeira temporada (“American Horror Story – Murder House”) que termina num gancho gigantesco e foi louco assistir ao primeiro episódio da segunda pensando que a história continuaria. Esse desavisado se deparou com uma coisa completamente diferente e eu o imagino surtando na poltrona. Para sorte dessa pessoa a segunda temporada se revelaria a melhor de todas. Eu sei que você voltou a lista e viu que eu não coloquei a segunda temporada em primeiro lugar, mas isso é culpa de “Apocalipse” já falo disso. “Murder House” apresentou ao público a linguagem da série, um sem fim de subtramas muitíssimo bem amarradas que te deixam aflitos querendo ver o próximo episódio e te fazem maratonar a tudo no fim de semana, parem de me julgar eu sei que vocês fazem o mesmo. A temporada também deixa claro que naquele universo há regras, a murder house do título é uma casa assombrada, e isso é uma constante da série.

Murder House, nem os “Irmãos a Obra” dão um jeito nela.

A casa da primeira e da sexta temporadas, o hotel da quarta, o acampamento da nona. São palcos de tragédia, e palcos de tragédia se tornam amaldiçoados, todos os que morrem ali ficam presos ali. Essa é só uma das regras desse universo de ficção, os mortos que caminham na terra no Halloween é outra. A primeira temporada também deixa claro que veio para cutucar feridas ao apresentar a personagem de um adolescente que promoveu um atentado terrorista no colégio, assassinando vários colegas e depois se matando. E o brilhantismo está no fato da série utilizar a linguagem da ficção para discutir problemas reais, nessa temporada o grande mote são as relações familiares. O médico que trai a esposa, com uma mulher mais jovem ao mesmo tempo que assedia a empregada, a filha que não se entende com os pais, o casal de fantasmas gays que assombra a casa e não consegue superar a crise conjugal, e por aí vai.

“Asylum” vai ainda mais fundo ao abordar preconceitos sociais, a história fala de um famoso manicômio dos Estados Unidos, mas nesse manicômio é internada uma mulher cuja única loucura foi amar outra mulher (a torturante cena em que ela é submetida ao processo de “cura” causa agonia), outro interno é um rapaz honesto e trabalhador que cometeu a loucura de ser branco e se casar com uma mulher negra. O manicômio é dirigido por padres e freiras mas a maneira como eles tratam os “loucos” é tudo, menos cristã. Ah! E eu já ia me esquecendo, nessa temporada temos cientistas loucos nazistas, freiras possuídas por demônios, anjos da morte, alienígenas, personagens da literatura, dois serial killers, e um número musical com o jogo do nome. Se a primeira temporada mostra que a série tinha regras, a segunda mostra claramente que refrear a criatividade não é uma delas. Essa temporada também vem testando os limites da censura televisiva, apresentando uma obra muito mais pesada e densa do que a anterior, temos até um psicopata que contrata uma prostituta lactante para saciar seus fetiches sexuais. Pode esperar por muito desespero e aflição ao acompanhar.

American Horror History Asylum

É claro que nada no mundo é perfeito e algumas temporadas podem acabar agradando menos. “Coven”, por exemplo, foi muito conturbada, inclusive nos bastidores, o que fez muitos fãs torcerem o nariz. Eu não gosto de “Hotel” pois acho a narrativa perdida demais, é como se a cada episódio a história fosse interrompida para contar o passado de uma personagem. “Cult” eu realmente odeio, pois o sobrenatural é deixado de lado para investir no horror da crueldade humana e da política estadunidense. Mas nem por isso eu deixo de recomendar a série, pois, para mim, mesmo a pior temporada de AHS ainda é melhor do que muita série de sucesso, por aí. “Coven” foi confusa, mas “Apocalipse” redimiu a temporada completamente (já falo disso). Hotel mostra a comovente história de uma mulher trans e ainda alfineta de maneira brilhante o movimento anti vacina, “Cult” é detestável, justamente por ser real demais, a prolixidade, o político em volta de quem a história gira é irritante, mas o paralelo estabelecido entre a vivência do casal de lésbicas vindas do governo progressista de Barack Obama, e o retrocesso conservador da eleição de Donald Trump é sublime.

O elenco é um show à parte, destaque pessoal para maravilhosa Jessica Lange (“King Kong”, “Peixe Grande”), a sensacional Sarah Paulson (“Vidro”, “Birdbox”) e o surpreendente Evan Peters (“X-Men – Fênix Negra”, “Kick-Ass”). O destaque é realmente por razões pessoais, mas o elenco todo é afinadíssimo, e é tanta gente boa que não consigo citar aqui, então deixo o link da lista na wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Elenco_de_American_Horror_Story. E como se não bastasse o elenco recorrente ainda tem os convidados especiais, como Lady Gaga interpretando a rainha vampira e desfilando figurinos dignos de “RuPaul’s Drag Race”, Cuba Gooding Jr., Neil Patrick Harris e já temos o anúncio de Macaulay Culkin para a próxima temporada.

E pelo que eu vejo já escrevi mais do que deveria e não falei nem 10% do que eu gostaria. Talvez eu volte para o assunto algum dia, mas não prometo. Por hoje é só isso. Será que me esqueci de algo?

Brincadeirinha! Vou sim falar de “Apocalipse” e do porquê de eu ter feito tanto mistério. Como eu disse, todas as temporadas de AHS se passam no mesmo universo, e qual a importância disso? Alguns personagens aparecem em mais de uma temporada, como a Pepper de Naomi Grossman, ou a bruxa Queenie de Gabourey Sidibe. Mas é na temporada oito que as conexões explodem. Lembra quando eu disse que a primeira temporada termina em um enorme gancho? Pois é, os produtores aguardaram até a oitava para continua-lo, e o que acontece nessa temporada é um enorme crossover na qual uma batalha entre “bem” e “mal” é travada, e aqui rola de tudo. Atores interpretando três ou quatro personagens ao mesmo tempo, histórias e personagens de outras temporadas retornando quando você menos espera, viagens no tempo, replicantes, anticristo, hecatombe nuclear. Quando eu disse que a criatividade não é refreada em AHS eu falei sério, essa temporada é o equivalente de “American Horror Story” aos “Vingadores” da Marvel, e isso atingiu em cheio meu coração nerd. Em outras palavras “Asylum” é a melhor temporada mas “Apocalipse” é melhor ainda. Mas cuidado, o início da temporada mostra o sofrimento claustrofóbico de pessoas isoladas em bunkers para sobreviver ao inverno nuclear, e pode ser gatilho para pessoas sensíveis (eu tive crises de ansiedade).

E se você quiser conversar comigo sobre “American Horror Story”, me mandar seu hanking de temporadas preferidas, mande seu e-mail para:

contato@superninguem.com.br

Ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a segunda temporada da série: “American Horror Story – Asylum”. Apenas assista e depois me conte.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, não conseguiu dormir depois de assistir AHS Asylum e seria desligado deste site se não tivesse falado sobre AHS Apocalipse.

4 Comments

  1. Henrique disse:

    Vou por na lista.

    no momento é a 13° série…

    • Everton Nucci disse:

      Essa está bem fácil, só nove temporadas!
      Obrigado por ler a coluna Henrique, continue acessando o site.

  2. Julie disse:

    Everton, não sei se já disse que você escreve tão bem, que parece que está falando com o leitor e sabe surpreender também, você mencionou em um momento sobre o programa Irmãos a obra, não sei se é uma série, mas por acaso eu adoro! Em falar em adoro, gostei muito do Episódio do Black Mirror, onde lembra Star trek. Quanto a sua indicação de American Horror, se for tão bom quanto suas outras indicações como Sense 8, etc…tenho certeza que irei adorar👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

    • Everton Nucci disse:

      Oi Julie, o comentário dos irmãos à obra é mérito do Fernando Fontana, ouvi dizer que ele é nerd e adora referências! O episódio de Black Mirror que parodia Star Trek também é um dos meus preferidos e cuidado com American Horror Story, essa série pode te viciar irreversivelmente. Ela está disponível na Globo Play e vai estrear na Amazon Prime.

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