Estariam os valores defendidos pelo Super-Homem ultrapassados?

Por Fernando Fontana
Contém Spoilers!!!

Em sua excelente abertura, a animação “Super-Homem Contra a Elite” (2012) nos mostra uma série de imagens de quadrinhos e animações antigas do Homem de Aço, uma época, por assim dizer, mais ingênua do herói, em uma combinação perfeita com a história que estamos prestes a assistir, mais uma vez questionando os valores defendidos pelo último dos Kryptonianos.

Baseada na história “What’s so Funny about Truth, Justice & the American Way?”, escrita por Joe Kelly, ilustrações de Doug Mahnke e Lee Bermejo, e publicada em “Action Comics #775” (2001), a animação coloca o herói contra uma equipe de anti-heróis conhecida como “A Elite”, cujo seu líder e maior protagonista é Manchester Black, um indivíduo com extensos poderes mentais, incluindo telecinese e telepatia.

O que é tão engraçado sobre verdade, justiça e o modo de vida americano?

Criado por Jerry Siegel e Joe Shuster no distante ano de 1938, tendo sua primeira aparição na revista “Action Comics #1”, Super-Homem era mostrado como um defensor da verdade, justiça e do modo de vida americano.

O título da história escrita por Kelly questiona justamente o que há de tão engraçado nestes valores, e por qual razão eles deveriam ser substituídos.

O traço , assim como sua abertura, homenageia as antigas histórias do homem de aço, incluindo um Clark Kent com terno e chapéu, roupa semelhante à utilizada por Christopher Reeve no icônico filme de 1978.

No inicio da animação vemos o Caveira Atômica (Atomic Skull no original), criminoso capaz de projetar energia atômica e desintegrar indivíduos comuns com um simples toque, percorrendo as ruas de Metrópoles, matando e ferindo diversas pessoas, só interrompendo seu rastro de destruição ao ser confrontado pelo Super-Homem.

O herói, é claro, não mata o Caveira, apenas o neutraliza e o leva para uma prisão de segurança máxima.

Esta á uma característica tão marcante no personagem quanto sua capa vermelha ou seu “S” no peito, o Super-Homem não mata, ainda que o vilão tenha assassinado centenas ou milhares de pessoas, essa é uma linha que ele não admite cruzar.

Super-Homem Vs Caveira Atômica

Já houve, é verdade, histórias onde ele tenha sido obrigado a quebrar seu juramento, como “O que Aconteceu ao Homem de Aço” (1986) de Alan Moore, onde ele matou um insano e maligno Mxyzptlk, ou em Superman #22 (volume 2), escrito e ilustrado por John Byrne, quando o herói julgou e executou o General Zod e outros dois Kryptonianos, responsáveis pelo extermínio de todos os humanos do planeta Terra de outra dimensão. Em ambos os casos, a culpa foi tão grande que resultou em graves consequências, como a aposentadoria na história de Moore ou o auto-exílio na fase de Byrne.

Não por acaso, um das decisões mais polêmicas do filme “Homem de Aço” (2013) foi permitir que o Super-Homem matasse Zod (embora muita gente esqueça que o Super-Homem de Reeve tenha feito a mesma coisa em Superman II (1980), ainda que de forma menos dramática).

Enquanto o Super-Homem defende estes valores, o grupo comandado por Manchester Black não vê qualquer problema em exercer o papel de juiz, júri e executor, matando o Caveira Atômica quando ele, inevitavelmente, foge da prisão e volta a causar pânico e destruição em Metrópoles.

A Elite, composta pelo líder “Manchester Black”, Fusão, Chapéu e Zoológica.

Para piorar, o ato de matar o Caveira Atômica é comemorado por quem assistia, e, mais do que isso, a população de Metrópoles, ou pelo menos a maioria, passa a enxergar “A Elite” como o futuro, como a solução definitiva para os vilões.

Encorajado, Manchester leva o seu grupo a assassinar os líderes de duas nações que estavam em guerra (as fictícias Bialya e o Pokonistão), para assim interromper o conflito, algo que o Super-Homem se recusava a fazer, preferindo uma via diplomática, enquanto elimina o poderio bélico sem causar mais mortes.

Magog, por Alex Ross

Também não é a primeira vez em que a população de Metrópoles se volta contra o seu herói, preferindo uma nova geração “mais adequada” aos novos tempos. Em “O Reino do Amanhã” (1996), arte de Alex Ross e roteiro de Mark Waid, o anti-herói Magog mata o Coringa (já preso e algemado) após o vilão assassinar diversos funcionários do Planeta Diário, incluindo Lois Lane.

Levado a julgamento, Magog foi inocentado e recebido de braços abertos por Metrópoles, o que levou o Super-Homem a se retirar para sua Fortaleza da Solidão, onde permaneceu por dez anos.

Já na animação, considerando-se em vantagem, “A Elite” decide enfrentar o Super-Homem, que pretende leva-los à justiça por seus crimes, não apenas enfrentá-lo, mas mata-lo, assumindo permanentemente o seu posto como defensor de Metrópoles e do mundo.

É durante o confronto final que o Super-Homem utilizará seu melhor argumento contra a “Elite”.

O Raciocínio de Manchester Black se baseia no fato de que é correto uma pessoa ou um grupo de pessoas fazer justiça com as próprias mãos, julgando e executando indivíduos de acordo com seus conceitos de certo e errado.

O que ele faz é aceitar esta premissa e voltá-la contra o grupo. Se este raciocínio está correto, e se o Super-Homem considera a Elite culpada por uma série de crimes, então lhe é permitido assassiná-los baseado unicamente em seu próprio julgamento.

Super-homem insano e disposto a matar?

Não é comum um Super-Homem assustador, principalmente por sua conduta e por estar constantemente se contendo para não ferir gravemente os oponentes. No episódio 39 de “Liga da Justiça Sem Limites”, intitulado “Destruidor”, eis o que ele diz ao enfrentar Darkside:

Eu sinto como se vivesse em um mundo feito de papelão, tomo um cuidado constante para não quebrar nada e nem machucar ninguém, eu nunca me permito perder o controle, nem por um momento, pois alguém pode morrer, mas você aguenta, não aguenta, Darkside? O que temos aqui é uma rara oportunidade de eu finalmente me soltar e mostrar a você a verdadeira extensão da minha força!

Superman, Liga da Justiça Sem Limites.

Com o Super-Homem “perdendo o controle” e partindo para cima do grupo de anti-heróis, eles finalmente percebem que estão enfrentando um poder muito superior ao deles, que estão indefesos, sem poder contar com alguém que os salve ou lhe dê um julgamento justo.

Não apenas a Elite percebe isso, mas o restante da população de Metrópoles também.

É disso que se trata esta animação, a eterna resposta para a pergunta: Por que o Super-Homem não mata? E embora esse tema já tenha sido explorado em outras oportunidades, como mencionado neste texto, ainda assim, vale a pena dar uma conferida nela, ainda mais durante os dias conturbados e violentos que vivemos.

Se preferir podemos fazer referência à famosa frase de um certo aracnídeo que pertence a outra editora: “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”, e, sendo assim, alguém com poder suficiente para destruir cidades inteiras carrega a maior das responsabilidades.

Mas e você, o que acha? O Super-Homem deveria matar os vilões que enfrenta para proteger a vida de inocentes? Interferir e matar líderes mundiais que adotem políticas que ele considere nocivas para a humanidade?

Manda ver, deixe sua opinião nos comentários.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

1 Comment

  1. Everton Nucci disse:

    Essa animação é realmente muito boa. E nem tem o Batman!

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