O Vale Nerd: Birdo, Seth, Poison e como NÃO fazer uma personagem Trans

Olá todo mundo, bem vindos ao vale! Hoje eu preciso dizer que estou bem puto. Gastei 450 rubis na temporada acrobática de “Mario Kart Tour”, ganhei todos os itens classe A e nem assim consegui pegar classificação suficiente na Copa Mário para ganhar sequer 100 moedas, fiquei tão ruim no ranking que caí para liga 39, e não é para isso que eu pago passe de ouro!

P.S.: Por algum motivo estranho meu marido tem dito que estou viciado nesse jogo, acho que ele disse isso logo depois de assistir ao 13º episódio seguido de “Vis a Vis”.

Vocês já devem ter notado que o tema de hoje é game. Como todo Nerd que se preze eu amo videogames; a título de curiosidade meu primeiro console foi um “Atari”, e por conta desse amor, tenho pensado em escrever uma matéria sobre personagens LGBTQIA+ nos games há um bom tempo, entretanto, em minha pesquisa sobre o assunto esbarrei em um problema: existem péssimos exemplos de personagens nessa mídia, e aproveitando essa vibe puto de hoje resolvi descer o sarrafo nos absurdos encontrados só para desestressar.

Já que eu comecei falando de “Mario Kart” vou abrir a lista com Birdo. Birdo é uma personagem que já nasceu errada, isso porque o jogo em si também nasceu errado. A primeira aparição da dinossaurinha cor de rosa que dispara bolas de ping pong pela boca foi no jogo “Super Mario Bros 2”, a questão é que existem duas versões completamente diferentes desse jogo, uma japonesa e uma americana.

Preparem-se porque hoje eu usarei minha super técnica do #resumotosco a dar com pau.

#resumotosco1: “Super Mario Bros” faz muito sucesso no mundo todo, Nintendo japonesa faz sua sequência, Nintendo americana não gosta, Nintendo americana faz uma modificação no jogo “Yume Kōjō: Doki Doki Panic” (totalmente desconhecido no ocidente) trocando as personagens por Mario, Luigi, Peach e Toad e cria seu próprio SMB 2 #fim1.

Super Mario Bros The Lost Levels

Assim nasciam as duas sequências de “Super Mario Bros”, hoje em dia você deve conhecer o cartucho americano como “Super Mario Bros 2” e a versão japonesa como “Super Mario Bros – The lost levels”. E por que eu estou falando tudo isso?

Só para me mostrar mesmo!

O importante nisso tudo é a Birdo, que seria a primeira personagem Trans da Nintendo. Parece meio aleatório introduzir uma personagem Trans no meio dessa bagunça? Não parece, é aleatório! Pense comigo, Birdo é só um dos inimigos que aparecem no meio da fase de um jogo de plataforma dos anos 80 que mal tem uma história, então que diferença faria a identidade de gênero dela? A resposta é nenhuma! É como se eu dissesse que os “Goombas” não são animais e sim plantas, isso mudaria algo para você? Ou você continuaria pulando na cabeça deles?

Para mim esse é o primeiro ponto da discussão, introduzir uma personagem trans dessa forma, não serve para absolutamente nada, não muda o contexto do jogo, se ninguém te disser, você nunca descobrirá, e, com certeza, não ajuda em nada ao movimento Trans. Ainda tem a questão de que ela seria a namorada de Yoshi, o que faria com que Yoshi fosse lésbica. O quê? Nunca parou para pensar que Yoshi é fêmea? Ela bota ovos, não?

A última pá de cal nessa história totalmente descabida é o fato de que a transgeneridade da personagem teria sido causada por um erro de tradução no manual. Isso mesmo! Jogaram o manual de “Doki Doki Panic” na mão do estagiário, deram um dicionário Michaellis para ele e disseram “Traduza”. O resultado é a frase “Birdo é um garoto que acredita ser uma garota, e prefere ser chamado de Birdetta”. Simplesmente absurdo, a frase não define o que é ser Trans, a falta de bom senso de quem deixou isso passar é descomunal, e não acrescenta nada à personagem. E é por conta dessa enorme confusão e que Birdo é um péssimo exemplo de introdução de personagem Trans em um game.

O próximo exemplo vem da Capcom, mais precisamente, do jogo “Street Fighter V”, e esse é outro jogo que já nasceu errado. Não que isso seja novidade, afinal a Capcom é mestre na arte das práticas reprováveis da indústria dos games, lançando o mesmo jogo dúzias e dúzias de vezes,  basta ver seus “Street Fighter-Super”, “Turbo”, “Champion Editon”, “Arcade Edition”, “Ultra” e claro, tudo com preço de jogo novo, nada de preço de DLC. No caso de “Street Fighter V” o grande  problema foi o fato da empresa lançar um jogo nitidamente incompleto, sem modo história, sem modo arcade, sem modo online funcionando e já com a previsão de, posteriormente, lançar muitas outras personagens novas. O jogo lançado em 2016, de forma obviamente apressada, teve que receber inúmeros updates para torná-lo aceitável, como se isso não bastasse eles resolveram implementar uma pequena alteração em uma das personagens. O segundo dessa lista: Seth.

Seth em Street Fighter 5

#resumotosco2: Seth é chefão de SF IV, ele é um sintetizoide (tipo um robô), ele é destruído no final de SF IV, em “Street Fighter V – Champion Edition”, Juri (uma das lutadoras) manda um computador reconstruir Seth, o computador pergunta o sexo do robô, Juri básica diz “Fod@-$&”, o computador constrói Seth com aparência feminina. #fim2

E é isso! Uma piada sem nexo, sem graça e sem nenhum contexto. Para explicar melhor, Seth não é um ser humano, ele nem sequer é um androide com órgãos, ou mente humana. Ele é 100% artificial, basicamente uma inteligência artificial criada pela organização Shadaloo para roubar poderes dos lutadores. Se for levar a discussão à fundo pode-se dizer que não importa o formato do corpo. Seth continua a referir-se no masculino, o que faria com que a sua versão de “Street Fighter V” fosse a de um homem Trans, acontece que essa discussão é ridícula, totalmente vazia e completamente infrutífera. A mudança de Seth não leva a lugar algum, ou você acha que discutir identidade de gênero de uma inteligência artificial que foi posta por equívoco num corpo com formato feminino realmente faz algum sentido? E pelo despropósito Seth é o segundo da lista.

Continuando em “Street Fighter” a próxima personagem a ser discutida é a Poison, uma das musas do jogo de luta também é uma personagem Trans (a primeira humana dessa lista).

Dessa personagem em sí eu gosto bastante, acho que personagens femininas fortes em jogos de luta devem ser valorizadas, visto que costumam ser minoria. Eu poderia falar dos estereótipos ligados à personagem, como o chicote, que sugeriria alguma ligação com sadomasoquismo, mas francamente não acho esse um problema, visto que Poison tem um background muito mais interessante do que os anteriores. No jogo, além de uma lutadora, ela é empresária e está tentando promover seu principal cliente “Hugo”, ou seja, não tem nenhuma relação com prostituição nem está tratando a transxesualidade da personagem de forma pejorativa. O grande problema de Poison está em sua origem, pois ela não foi criada em “Street Fighter”, mas sim no jogo de beat ‘em up “Final Fight” e então senta que lá vem história, e história ruim.

Poison, Personagem de Street Fighter, personagem trans porque a Capcom acha errado bater em mulheres

Prometo que esse é o último #resumotosco3: no final dos anos 80, os jogos de briga de rua estavam em alta, Capcom quer uma fatia do mercado e cria “Final Fight”, para variar um pouco criadores colocam mulheres como inimigas na fase, assim nasce a Poison, Capcom acha errado um jogo em que se bate em mulheres, produtores dizem que ela é trans, Capcom diz “Ok!” #fim3.

Pois é! Um pensamento antiquado e preconceituoso, e uma “solução” ainda mais antiquada e preconceituosa. Em vez de remover a Poison do jogo, a empresa preferiu afirmar que a personagem era uma newhalf (uma gíria japonesa depreciativa usada para mulheres trans). Agora por favor reflitam comigo, na cabeça dessas pessoas, colocar personagens masculinos para bater em personagens femininos era errado. Em outro contexto eu também digo que violência contra a mulher é ruim e deve ser combatida, mas achar que não há problema nenhum se a mulher for mulher Trans? Que diabos de conclusão é essa? Como é possível alguém pensar algo do tipo? Eu sei que o jogo tem mais de vinte anos e os pensamentos naquela época eram outros, mas nada justifica combater a violência contra um ser humano e achar normal praticar em outro.

Definitivamente a decisão que levou a criação de Poison é tenebrosa e exemplifica muito bem a maneira como a violência contra a comunidade LGBTQIA+ era vista. Felizmente, nos games, o problema foi parcialmente resolvido e hoje em dia Poison se tornou uma boa personagem. Infelizmente, na vida real, alguns radicais ainda acham normal espancar pessoas Trans; como todos sabem o Brasil lidera o ranking mundial de assassinato de Transexuais e Transgêneros, fazendo com que sua expectativa de vida seja de apenas 35 anos, metade da média nacional. E por passarem pano na violência contra mulheres Trans, os produtores são o terceiro péssimo exemplo dessa lista, e a Poison continua sendo uma ótima personagem.

Esses são alguns exemplos dos quais me lembrei quando pensava em escrever sobre games aqui no “Vale Nerd”. São exemplos do quanto falta conhecimento sobre o universo LGBTQIA+, e é por isso que pessoas como eu se dedicam tanto a “militar” e a “problematizar” questões de gênero.

É preciso que as pessoas de fora do vale ouçam um pouco do que temos para dizer para que elas possam tentar nos entender.

Pense o seguinte, durante muito tempo na história da humanidade era inimaginável ver uma mulher andando pelas ruas usando calças, assim como até bem pouco tempo, era impensável utilizar o pronome feminino para alguém que se apresentasse com o nome de Pabllo. Felizmente isso mudou e com tempo, diálogo, muita informação e esclarecimento, nós, do vale, esperamos que ocorram ainda mais mudanças para que um dia possamos ser vistos com a mesma normalidade de uma mulher vestindo calças.

E se você ficou em dúvida, nos casos acima você deve dizer A Birdo, O Seth e A Poison. Por hoje é só isso, e se você quiser jogar “Mario Kart” comigo, meu código é 4771 5375 5367. Críticas, elogios e sugestões, deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é: tente queimar a largada de propósito e usar um bilhete de item logo em seguida, isso aumenta bastante as chances de você conseguir um Frenesi logo de cara. Por hoje é só isso, até a próxima semana e fiquem em paz.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão e um dos piores jogadores de Mário Kart da história recente…e não tão recente também.

3 Comments

  1. Julie disse:

    Gostei de saber notícias do jogo Street Fighter (como vc disse da Capcom), conhecer nomes de personagens, como sempre aqui no seu blog a gente aprende várias coisas e gostei muito da matéria de hoje. Everton, sei que você joga Mario kart no celular, pq uma vez vc me convidou…Mas gostaria de saber se você joga videogame, se sim qual? Eu tenho um PS4 e gosto muito de jogar Mortal Kombat e Plants x Zombies.

    • Everton Nucci disse:

      Oi Julie, atualmente não tenho jogado videogame não mas só por falta de tempo mesmo. Meu último console de mesa foi Nintendo Wii e meu único portátil foi um Nintendo 3ds, antes disso eu tive um Super Nintendo, antes um Nintendo clonado (Phantom System) e meu primeiro de todos foi um “Atari” da CCE. Fora tudo isso eu jogava muito no PC onde também joguei muito Mortal Kombat 9.
      Continue acessando, adoro seus comentários.

      • Julie Any Garbin Frizarin disse:

        Então vc jogou Mortal Kombat no PC 🤔😍Mas ultimamente troquei ele pelo plantas x zombie ( tem um gráfico incrível), que bom que gostou do meu comentário 😘

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