Um Super-Homem Espanhol com Complexo de Inferioridade

Por Fernando Fontana

Certas coisas não combinam. Super-herói e espanhol? Não. Alemão talvez, ele poderia ser alemão, mas espanhol? Que piada. Quem é o vilão? A pontualidade?

Luisa Lanes

Você não precisa de mais do que cinco minutos assistindo Super Lopez para perceber que não é um filme que pretende ser levado a sério, embora, no decorrer do longa, aqui e ali, surja uma crítica a baixo autoestima espanhola, outrora uma potência que se lançou ao oceano para grandes descobertas, agora submissa ao poderio econômico e cultural norte-americano, incluindo, é claro, o cinema.

Baseado no personagem homônimo dos quadrinhos, criado em 1973 por Juan López Fernández, Super Lopez nasceu no distante planeta Chitón, dominado pelo general Skorba, um tirano que faz questão de dar bom dia antes de começar uma conversa. Seus pais, cientistas, o criaram para que fosse a arma definitiva contra o general, mas se viram obrigados a envia-lo ainda bebê para a Terra, mantendo-o a salvo do vilão.

E para onde os pais do garoto o enviam?

Para os Estados Unidos, é claro, a região mais avançada do Planeta e melhor lugar para um super-herói crescer.

Super Lopez, o Super-Homem Espanhol

Infelizmente, após colidir com um satélite, a rota da nave sofre um desvio e o pequeno bebê cai em Barcelona, uma cidade bem diferente de Metrópoles.

As referências ao Super-Homem estão por toda a parte, desde os pais enviando o bebê em um foguete do planeta Chitón (lembra Krypton e ao mesmo tempo é uma gíria local que quer dizer “cala a boca” ) até a cena onde os Lopez estão voltando para casa em sua caminhonete e testemunham a queda de sua nave.

É claro que o pequeno Kal-El não ostentava um vistoso bigode, que retornava para o rosto segundos depois de raspado. Aliás, essa é uma característica marcante de todos os homens do planeta Chitón, o bigode.

Enquanto Jonathan e Martha Kent ensinavam Clark e o preparavam para um destino glorioso, ajudando e salvando pessoas, os Lopez ensinam Juan a não se destacar dos demais. Ainda jovem, após ninguém aparecer em seu aniversário, ele pergunta aos pais a razão de não ser querido pelas demais crianças e obtém a seguinte resposta:

“Porque você está na Espanha! Em qualquer outro lugar, Alemanha, França, Noruega, seria premiado. Aqui, quem se sobressai é excluído. Quem se destaca é eliminado”.

Nem um pouco sutil, e como resultado, Juan (Dani Rovira) cresce como um cidadão comum, sem jamais explorar todo o seu potencial, trabalhando em um escritório com seu amigo, Jaime Gonzalez (Julián López).

Super Lopez em Quadrinhos

É no escritório que ele reencontra uma antiga amiga de faculdade, Luisa Lanas (Alexandra Jiménez), que se transformará em seu par romântico.

Sim, Luisa Lanas, mesma aliteração, você pegou a referência, e ela também irá cumprir o papel de mocinha em perigo para ser salva por Super Lopez, ao ser capturada pela vilã, Ágata Müller (Maribel Verdú), filha do general Skorba, que vem para a Terra, com a missão de capturar o filho dos cientistas rebeldes.

Ela foi enviada ainda criança em um segundo foguete, mas, este sim, caiu nos Estados Unidos.

A vilã, já adulta, é interpretada de forma extremamente caricata por Maribel, e essa interpretação combina perfeitamente com o clima debochado da produção. O trio de protagonistas (Dani Rovira, Julián López e Alexandra Jiménez) não se destacam e nem comprometem.

Para quem está esperando algumas cenas engraçadas de Lopez bancando o super-herói, pode ficar um pouco decepcionado. Ele salva um metrô desgovernado, mas ainda sem uniforme, que ele só vai colocar após os 55 minutos de filme.

Uniforme que, aliás, é um capítulo a parte; feito pela mamãe, ele não é perfeitamente ajustado ao corpo, como o colante do Super-Homem ou do Batman, fica folgado, nada imponente e, ao contrário dos quadrinhos ou dos filmes, onde super-heróis colocam e tiram seus trajes sem problemas, rapidamente ficando prontos para a ação, Lopez tem grande dificuldade para vesti-lo, proporcionando algumas boas risadas.

As crianças já não são como antigamente, ao verem o herói trajando seu uniforme e capa, a reação não é exatamente de admiração.

Super Lopez é uma comédia despretensiosa, um “o que aconteceria se o super-homem fosse espanhol”, com uma pitada de crítica social, mas que quase não altera o resultado, que, no fim das contas, é um filme que cairia bem em uma sessão da tarde com um balde de pipoca, nada além disso.

O filme está disponível no catálogo da Netflix, assista em um daqueles dias em que não está a fim de queimar os neurônios com alguma produção repleta de camadas e discussões profundas.

Trailer Super Lopez (espanhol, sem legendas)

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor do livro “Deus, o Diabo e os Super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, é também colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre quadrinhos e filmes antigos.

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