Nemo: A Insustentável Invisibilidade da Ficção Científica.

2001 – Uma Odisseia no Espaço

Filme de Stanley Kubrick tornou-se um dos maiores clássicos do cinema e influenciou gerações

Por Sidemar de Castro

Estou (re)lendo uma das obras seminais do escritor britânico Arthur C. Clarke, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, reeditada pela Aleph num belo estojo que lembra um monólito negro. O próprio livro é negro como um monólito. Quem assistiu ao filme sabe a importância desse artefato na trama.

Claro que o filme é mais conhecido, mas ao contrário do que normalmente acontece, um não foi baseado no outro; foram produzidos ao mesmo tempo, realizados de maneira umbilical, muito embora a trama original tenha sido baseada em contos anteriores de Clarke, contratado pelo diretor Stanley Kubrick para realizar o que pretendia ser “o maior filme de ficção científica de todos os tempos”.

Livro 2001 – Uma Odisseia no Espaço publicado pela editora Aleph

É preciso entender que até então, nos anos 1960, salvo honrosas exceções (sobre as quais escreverei um dia), filmes de ficção científica eram sinônimo de produções B de baixo orçamento.

Fitas baratas de “monstros de olhos esbugalhados”, garotas em perigo, cientistas loucos e naves toscas de papelão. Kubrick queria fazer o primeiro filme classe “A” do gênero.

Uma nova versão da clássica Odisseia de Homero e suas maravilhas, marcando um novo patamar na representação da jornada humana, começando antes mesmo dos antigos gregos e remetendo a um futuro tecnológico. E conseguiu. Mas demorou anos, foi preciso mobilizar de artistas a cientistas do mais alto nível e custou bem caro. 2001 pode parecer um filme datado hoje, duas décadas depois que esse futuro chegou, mas o filme foi tão importante e impactante, tão bem feito e desenvolvido que influencia até hoje outras produções e a cultura pop.

Durante o recente lançamento da Space X, a primeira espaçonave privada a fazer transporte espacial, é impressionante como o moderno display da Dragon é mais parecido com o visual do filme de Kubrick de 1968 do que qualquer nave Soyus ou ônibus espacial americano posteriores ao filme. Não foi por acaso ou adivinhação. Kubrick cercou a produção dos maiores especialistas do mundo de vários países para descortinar o que viria com o máximo de realismo e rigor científico, e estes técnicos já estavam antenados com a revolução digital anos antes da analógica desaparecer. O design de naves e máquinas, evolução da computação, trajes espaciais e outros conceitos tecnológicos tiveram impacto nas próximas gerações de cientistas e ajudaram a moldar o futuro. Isso não livrou o filme de furos (político-econômicos, estes sim quase impossíveis de prever) como a queda da URSS, o fim da Guerra Fria e a falência da Pan Am, além da perda de interesse em viagens espaciais após o fim da Corrida Espacial. A realização do filme desenvolveu novas tecnologias, maquiagens, efeitos ópticos e angulações de câmara até hoje imitados. Assim como li o livro duas vezes, assisti outras dezenas o filme, e a cada vez me surpreendo com uma nova descoberta ou perspectiva, metáforas ou sense of wonder que 2001 evoca.

A Espaçonave Discovery, objeto mais avançado já criado pelo homem.

1968 – O Ano que não acabou

O ser humano ainda levaria um ano para chegar à Lua, quando o diretor Stanley Kubrick (Spartacus, O Iluminado, Laranja Mecânica) lançou, no começo de abril de 1968, aquele que se tornou um dos maiores clássicos da história do cinema em qualquer gênero. O filme seria lançado no Brasil no final do mês; tempo insuficiente na época, sem internet, para que os críticos brazucas, perplexos, soubessem como lidar com uma produção tão incomum. Por outro lado, o lançamento no exterior teve recepções igualmente antagônicas, indo do céu ao inferno conforme o crítico. Mas o tempo se encarregou de conceder ao filme sua verdadeira posição entre os 100 mais importantes já realizados na história.

2001 foi concebido pelo diretor em parceria com o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke (A Cidade e as Estrelas, O Fim da Infância), com base em um conto seu, “A Sentinela”, e teve dois extremos: de um  lado, a concisão científica nunca antes vista no cinema. Por exemplo, ao contrário de Star Wars, no vácuo do espaço não há sons. Somente ouvimos a respiração dos astronautas, dentro dos capacetes, onde há oxigênio para conduzir o som. De outro, há uma quase onírica especulação quanto à presença dos alienígenas na evolução humana e nas cenas de viagem entre as estrelas “acima da velocidade da luz”, uma impossibilidade, segundo a física de Einstein.

Kubrick, cujo realismo das cenas era tão grande que deu origem à teorias da conspiração envolvendo a NASA

O realismo das cenas no espaço e na Lua são tão grandes, que se tornaram um dos fetiches dos adeptos da teoria da conspiração de que o “homem jamais foi à Lua”, e até hoje (talvez ainda mais hoje com a volta dos terraplanistas) abundam fake news negacionistas de que o homem jamais foi à Lua e o próprio Kubrick teria filmado em estúdio todas as cenas da Apollo 11 contratado pela Nasa… A piada é que o diretor era tão rigoroso, que filmava apenas in loco

Mas voltando ao mundo real, o filme começa na “aurora da humanidade”, em que uma tribo de homens-macacos encontra um fabuloso monólito negro, marca da presença alienígena no filme, nunca mostrados. O artefato provoca um salto evolucionário nos australopitecos, que originaria o homo sapiens. Uma das cenas mais emblemáticas do cinema se dá quando o homem-macaco usa um osso como arma e o atira para cima; temos um corte de um milhão de anos, e o primeiro e mais tosco instrumento da humanidade se transforma no último e mais sofisticado: uma espaçonave em órbita da Terra.

Outra marca de 2001 é a trilha sonora. Começa com o impacto de “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, música agora impossível de ouvir sem evocar as imagens da “conjunção planetária” do filme.

A sequência do “balé cósmico”, em que a nave transportando o dr. Frank Poole (Gary Lockwood), primeiro, à uma Estação Espacial Internacional e depois à Lua foi magistralmente exibida ao som da valsa “Danúbio Azul”, também de Strauss. Assim como as cenas cósmicas do Portal das Estrelas, que receberam o som das músicas psicodélicas de György Ligeti.

Da Lua, onde foi encontrado outro monólito, posto lá à espera que a humanidade “saísse do berço”, seguimos à terceira sequência do filme e livro, quando acompanhamos a jornada da espaçonave Discovery até a órbita de Júpiter, onde um terceiro monólito aguardava no espaço.

No caminho temos outro evento genial (spoiler): o embate entre homem e máquina, representado pelo computador de bordo, HAL 9000, que elimina quase toda tripulação da espaçonave, exceto David Bowman (Keir Dullea), que consegue desligá-lo. Uma vez no seu destino, surge outro monólito negro e o astronauta é projetado através dele num “portal de estrelas” até sua evolução para um novo ser, uma “criança cósmica”, cuja cena final é novamente ao som de “Assim falou Zaratustra”, retornando à Terra.  

A data de 2001 pode ter sido passada, mas com efeitos de ponta e visual que virou referência, o filme não apenas marcou época, inspirando até o pop com “Space Oddity”, de David Bowie e centenas de outras produções (Interestelar, Gravidade, Blade Runner, Westworld) como é atual até hoje. 2001: Uma Odisseia no Espaço é uma obra de arte atemporal. Embora muitos considerem um filme de ritmo lento (e é) nunca deixa de impressionar quem se apaixona por astronáutica e astronomia e mergulha na sua jornada através do tempo e do espaço.  

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

1 Comment

  1. Julio Miceli disse:

    Sidemar, apenas uma pequena observação : Acho que na sequência do “balé cósmico”, não foi o astronauta Frank Poole viajando até uma estação espacial e depois à Lua, e sim o Dr. Heywood Floyd (William Silvester).
    Saudações..

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