O que nos atrai tanto em Charles Bukowski?

Bate Papo sobre o Velho Safado com a Psicóloga Juliana Raquel Betoschi, Especialista em Psicologia Clínica-Fenomenológica-Existencial e Humanista

Super Ninguém: Quais livros você já leu do Bukowski? Qual seu preferido?

Juliana: Bem, os dois livros que tenho do Buk chegaram até mim na forma de presente. São eles: “Mulheres” e “Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém”. Não li outros, porém, através de páginas que sigo, pela internet, acabei me aproximando mais dele, talvez pelo seu modo realista de enxergar o mundo, e não pessimista, como dizem.

Interessante que amo tanto esses livros e gostaria que todos pudessem ter o prazer dessa leitura, emprestei para duas pessoas, e até hoje não me devolveram, talvez essa poderia ser uma nova pauta, por que diabos as pessoas não devolvem livros?

Difícil escolher, dentre os quais tive o prazer de ler por completo, mas a leitura que mais gosto e me identifico de Buk é o poema “The bluebird” –  O pássaro azul….

Super Ninguém: Também é um dos meus preferidos, o leitor pode conferi-lo em um vídeo no final desta entrevista, narrado pelo próprio autor. Entre as duas opções, ser a terapeuta de Bukowski ou amiga de bar dele, qual você preferiria?

Juliana: Sem dúvidas, amiga de bar, não preciso nem pensar…haahahahahaha. Não só amiga de bar, talvez até uma de suas “mulheres”. Sempre me imaginei sentada com ele em um bar, ouvindo suas histórias, compartilhar das desgraças e dos amores da vida, falar mal de todos e do mundo (coisa que como terapeuta jamais poderia fazer). Entorpecidos pelo álcool e cigarros, numa falsa ilusão de que pequenos prazeres e a felicidade pode ser uma possibilidade, pelo menos enquanto drogados, penso que seria muito interessante.

Bom, melhor não entrar nos detalhes de como seria, ahahahaha, mas adoraria amanhecer deprimida ao lado de Buk, de ressaca, tomar um café forte e sem açúcar, fumar e terminar com o uísque que ficou em cima da mesa aberto, meia garrafa…

“Como, diabos, pode um homem gostar de ser acordado às 6:30 da manhã, por um despertador, sair da cama, vestir-se, alimentar-se a força, cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego para chegar a um lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro os bolsos de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber essa oportunidade?”

Charles Bukowski

Super Ninguém: Ele quase morreu devido ao alcoolismo, chegou a ficar entre a vida e a morte. Dizia que o álcool e a máquina de escrever eram o que tornava a vida tolerável. Ambos, álcool e ficção, seriam uma espécie de fuga da realidade?

Bukowski e uma de suas “muletas existenciais”, o álcool.

Juliana: Pela abordagem que sigo na prática, o viés existencialista, viver é um risco, buscamos a todo momento uma segurança, um sentido que nos dê o mínimo de conforto, ou na tentativa de “dar conta de” estar vivo. Cada pessoa luta com as ferramentas que tem, e aí posso apontar o álcool, outras drogas, a compulsão, a ficção, a religião, vícios, esporte, qualquer coisa que amenize no homem o desespero e a angústia de olhar para uma existência vazia e sem sentido, tanto em estar aqui e para quê estar aqui…Estar vivo é caminhar em direção ao fim, a morte inevitável, única certeza que temos…

Tornar a vida tolerável como diz Bukowski é uma possibilidade, através de “muletas existenciais” que vamos construindo durante a vida, elas são fundamentais, pois o homem precisa “buscar” o significado, acredito que exatamente para poder dar conta de viver. Porém, sem o reconhecimento de limites, desconhecendo possibilidades, o homem adoece, se torna dependente, das próprias amarras que construiu, porém, talvez essa seja uma crítica, Buk sim era alcóolatra, se responsabiliza por isso, mas justificando seu vício, culpando as pessoas e o mundo pela sua existência vazia. E aí o princípio de uma psicoterapia existencialista, facilitar a responsabilidade com as escolhas, como Sartre nos presenteou “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim..”

Mas ele viveu com o que tinha de recursos, não me cabe julgá-lo, quem sou eu para..kkkkkk, dentro de suas restrições e de seu desespero existencial, deixou aí um legado riquíssimo permeado com suas próprias experiências, assim como grandes nomes da filosofia, Kierkegaard, Camus…entre outros.

Super Ninguém: A literatura de Bukowski é bastante autobiográfica, Henry Chinaski é uma espécie de substituto do autor nas histórias, e, em Misto Quente, talvez um dos seus livros mais conhecidos, vemos uma relação extremamente complicada com os pais, em especial com o pai, que o ofendia e espancava constantemente. Existe a possibilidade do alcoolismo e da falta de capacidade em lidar com as pessoas estarem vinculadas com a infância problemática do autor?

Juliana: Existe sim, não li essa obra, me faltam referências para falar sobre essa relação em Buk. Porém, pelo olhar da psicologia, tudo que somos hoje, está vinculado ao que fomos ontem, ao modo que fomos construídos, aos padrões que se internalizaram, mesmo quando re-modelamos os padrões e colocamos nosso modo de fazer e/ou ser, nossa história continua enraizada, não é possível excluir o passado, o que pode ser feito é mudar o olhar para, que permite a desconstrução de valores que não fazem sentido hoje.

Parece que Buk foi uma criança vítima de violência, aí podemos relacionar as consequências disso em seus comportamentos agressivos, ao isolamento, ao ódio pelas pessoas, as compulsões, não dá pra afirmar, mas seria interessante uma análise da história de vida de Buk pelo olhar da psicoterapia existencialista. Olha que ideia legal..hahahaaha

Bukowski, um autor que retratava os excluídos

Super Ninguém: Vou te falar, se um dia eu fizer uma segunda faculdade, vai ser psicologia, e o meu tema vai ser esse. Seus livros falavam sobre os excluídos, os viciados, os desempregados, as prostitutas, os bêbados, os indigentes, enfim, aqueles que vivem a margem do sistema. Por que você acha que suas histórias atraíram tanto uma parcela do público, a ponto dele se tornar um autor cult, com suas frases pipocando nas redes sociais tanto tempo depois da sua morte?

Juliana: Sinceramente, acredito que a grande maioria não leu mais que dois livros dele (me incluo aí)…esse modo de “ser cult” que tem se reproduzido em redes sociais na contemporaneidade me parece mais uma necessidade de ser reconhecido, de ser visto como alguém que “entende” de literatura…enfim, posso estar equivocada, talvez responder a essas questões e pensar em Buk, tenha me levado a esse olhar para as pessoas nesse momento haahahaha.

Fácil é colocar uma legenda em foto, pesquisar na internet sobre e aí já se apropriar de um saber que sequer foi construído, foi dado, estava lá, e aí se reproduz o que está pronto. Difícil é sentar a bunda na cadeira, abrir o livro, ler, (importante pontuar o “ler”, mesmo porque essas mesmas pessoas apenas tiram foto do livro aberto para se mostrarem “cult” em suas redes sociais – abrir o livro é uma coisa, ler é outra completamente diferente) e aí sim falar com propriedade do que se escreve e/ou diz.

Não me eximo também dessa responsabilidade, já que como lhe disse, li apenas dois livros dele, mas eu poderia ter digitado lá no Google e trazer aqui respostas completamente prontas e talvez mais interessantes de serem lidas, exclusivamente por pessoas “cults” modinha.

Talvez esse “modo próprio” que Buk tem de escrever, de ver o mundo atraia as pessoas a conhecer o seu universo, mesmo porque ele diz e faz o que todos temos vontade de fazer/dizer. Porém, ele não foi hipócrita como nós somos, e aí minha admiração, ele não estava interessado se iriam gostar ou não, ele não tinha medo de perder pessoas, referências, ele foi sua própria referência.

Super Ninguém: Quando nascemos parece haver uma série de obrigações impostas pelo sistema, você deve estudar, arranjar um emprego, uma família, pagar as contas em dia, comprar carro, casa, celular, “vencer na vida”. Será possível vincular a popularidade de Bukowski a um desejo de romper com essa programação, assim como Chinaski e ele próprio, até certo ponto, romperam?

Juliana: “Vencer na vida”….tsctsc…é ridículo estar vivo não é mesmo? A gente sabe que vai morrer, estamos mais perto da morte a cada e ainda assim buscamos “vencer na vida”…para quê? Me questiono…qual o sentido de tudo isso? Quem me garante que irei viver para vencer? Se é que isso é possível…Mas vamos lá..kkkkkk

A partir do nosso nascimento nesse mundo de dementes, somos lançados sem nenhuma programação prévia ou destino. Apenas estamos…e assim vamos..nos construindo a partir de uma família que a gente não escolheu, de crenças e valores que não construímos, que foram dadas e internalizadas.

Buk e um dos seus gatos, no final da vida, o escritor teve vários deles.

Por mais que tentamos, durante a vida vamos reproduzindo essa impropriedade, fazer e ter o que todo mundo faz, ser assim ou de outro jeito, como o “fulano” faz, “quando eu crescer quero ser igual a A ou B”, e aí na vida não tem nada de novo, você apenas reproduz o que está pronto, e um momento vem a angústia e o desespero “mas eu fiz tudo certo, porque me sinto assim?”.  Acreditamos por vezes romper com padrões impostos, como somos iludidos, hahahaahah, nem percebemos que outros padrões já foram construídos e apenas estamos reproduzindo.

A angústia como uma condição, como um chamado existencial para a propriedade se manifesta exatamente em experiências quando nos sentimos estranhos diante de nós mesmos, como se o “vencer na vida” fosse alcançado, mas não foi, porque não somos felizes com tudo que construímos, e é compreensível, porque apenas reproduzimos, não fizemos o que queríamos…fui só escolhendo a partir do que estava ali, dado, não reconheci o que era possível e tudo se perdeu…Aí adoecemos..não tem sentido!!

Penso que a popularidade tem muito a ver sim com esse rompimento de imposições, de regras, valores, mas sofreu as consequências desse rompimento, o alcoolismo, a solidão, foi uma escolha, não deixou de sofrer por romper com os padrões. Pelo contrário, quanto maior a consciência de si, mais dor, ou como diz Hamlet de Shakespeare “esta consciência, que faz de todos nós covardes”..

A zona de conforto parece segura, viver dentro de modelos..mas estar vivo é um risco, sempre, permanecer dentro de um modelo não nos blinda da morte e nem de nenhum tipo de sofrimento, e Buk está aí para nos mostrar que mesmo rompendo, a nossa vulnerabilidade e fragilidade está escancarada no mundo.

Super Ninguém: Bom, o que posso dizer? É sempre um prazer conversar com você e ter a sua presença neste site, ainda mais falando sobre um autor que gosto tanto foi fantástico. Espero que os leitores gostem tanto quanto eu gostei.

Juliana: Bom, espero ter colaborado, não tenho uma bagagem significativa de Buk, mas busquei responder sendo sincera com a minha experiência. Adorei relacionar alguns temas com a psicologia, isso daria, talvez, até uma live…hahaahahaha….BUK iria odiar isso..kkkkkkkkkk

Super Ninguém: Ah, com certeza ele ia odiar.

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Juliana é docente no curso de Psicologia do Imes, e também atua como psicoterapeuta na cidade de Catanduva, presencial e online. Dizem que ela tem a incrível capacidade de fazer você duvidar de suas certezas e ter certeza de que tem dúvidas.

“Blue Bird” Narrado por Charles Bukowski

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