Evento: Live “This is América, CAP!”

Neste próximo sábado, dia 04 de julho, quando os Estados Unidos da América comemoram o aniversário de sua independência, Sávio Queiros Lima, Mestre em História, e Rodrigo A. A. Pedroso, Mestre em História Social, Doutorando em História Social pela USP, e autor do livro “Vestindo Ainda Mais a Bandeira dos EUA – O Capitão América Pós Atentado de 11 de setembro” participam da Live “This is América, CAP!”.

A Live ocorrerá no Instagram do Professor Sávio, às 18:00:

@savio_roz

Na entrevista que vocês conferem a seguir, batemos um papo com o professor Rodrigo, sobre a Live, o personagem Capitão América, a Marvel, o 11 de setembro e o seu livro.

Super Ninguém: “This is América, CAP!”, o nome da Live tem inspiração no Clip “This is América” de Childish Gambino?

Rodrigo: Sim, de fato o nome foi criado pelo meu colega Sávio que sugeriu a live.

Capitão América e o 11 de setembro

Super Ninguém: O Capitão América foi criado em 1940, com o mundo mergulhado na Segunda Guerra Mundial, seus primeiros grandes confrontos foram contra os nazistas, que eram muito fáceis de se identificar, eles vestiam o uniforme e a suástica. Durante a Guerra Fria, enfrentou os soviéticos. A dicotomia entre bem versus mal, bandido versus mocinho ficava muito clara. Então veio o 11 de setembro, o terrorismo e tudo mudou. Na sua opinião o personagem Capitão América acompanhou a mudança dos tempos?

Rodrigo: Sim, do meu ponto de vista o personagem muda de acordo com o período histórico em que ele é publicado e, também, de acordo com as políticas editoriais e os autores que criam suas histórias. Isso faz com que o personagem tenha uma identidade não muito constante. No entanto, desde meados dos anos 1970 o Steve Rogers tem sido apresentado como um símbolo de ideias liberais dos EUA e do Sonho Americano, é um personagem que protege seu país, mas também tem uma postura crítica com relação a quem está no poder.

Super Ninguém: Já que mencionamos o Clip de Childish Gambino, ele é uma crítica muito bem elaborada sobre uma série de problemas internos nos Estados Unidos, entre eles, o racismo, o preconceito, a mídia e a cultura de massa. A Marvel tem personagens que claramente abordam estes temas, como X-Men e Pantera Negra; o Capitão América já se envolveu com essas questões?

Rodrigo: As HQs do Capitão América do final dos anos 1960 e 1970 abordam questões referentes ao racismo, principalmente a fase que ele faz parceria com o personagem Falcão. Nos anos 1980 tem algumas HQs que ele combate supremacistas brancos. No pós-11 de setembro ele procura mostrar pro povo americano que nem todo árabe é um terrorista em potencial etc. Existem vários momentos em que o personagem discute o racismo, no entanto é preciso ter um olhar mais crítico, é preciso entender que apesar de ser uma mensagem positiva, ela é a visão de homens brancos sobre o problema racial nos EUA. Logo é uma visão parcial e as vezes simplista.

Super Ninguém: Você escreveu o livro “Vestindo Ainda Mais a Bandeira dos EUA – O Capitão América Pós Atentado de 11 de setembro”. Você poderia nos falar um pouco sobre ele? Como surgiu a ideia de escreve-lo e como foi a pesquisa para elaborá-lo?

Livro Vestindo Ainda Mais a Bandeira dos EUA – O Capitão América pós-atentados de 11 de setembro, de Rodrigo Pedroso

Rodrigo: A ideia surgiu meio por acaso quando estava terminando a graduação em História, achei num sebo as revistas “Marvel 2002” que traziam HQs do Capitão América pós-11 de setembro, e achei interessante estudá-las. Nunca gostei do Capitão América, tinha aversão pela imagem dele, esse negócio de vestir a bandeira dos EUA, não achava legal. Achava que era só um personagem que defendia e divulgava os EUA pelo mundo. Nunca tinha lido nada do personagem até encontrar essas HQs. Depois de alguns anos tive a ideia de montar um projeto de mestrado analisando essas HQs e por sorte consegui entrar no programa de pós-graduação em História Social da USP em 2012. Aí, com a ajuda do meu orientador Marcos Antonio Silva, fui analisando minuciosamente essas HQs (são apenas seis edições), e fui lendo outros quadrinhos do personagem pra tentar construir um contexto representativo dele, e com isso entender melhor as mudanças na imagem do Capitão. A parte mais difícil foi encontrar referências bibliográficas (ainda há poucas pesquisa em História que usam quadrinhos como fontes) e as edições originais mais antigas do personagem, por sorte encontrei quase todas digitalizadas para download. O livro é basicamente minha dissertação de mestrado.

Super Ninguém: Outros super-heróis também estão bastante vinculados ao patriotismo e ao culto aos assim chamados valores norte-americanos, embora, não de uma maneira tão evidente quanto o Capitão América. O Super-Homem, por exemplo, defendia a verdade, a justiça e o modo de vida americano. Depois do 11 de setembro, você diria que o “modo de vida americano” sofreu um abalo? Outros heróis também tiveram que se adaptar aos novos tempos?

Rodrigo: De modo geral acredito que não tenha gerado muitas mudanças, fora a sensação de insegurança constante. Acho que o 11 de setembro mostrou para uma parte das pessoas dos EUA que eles estavam envolvidos em um projeto imperialista que acabou gerando um grande ódio contra eles. Outra parte da população mergulhou num sentimento de ódio e buscaram vingança, afinal os EUA são do “Bem” e os terroristas islâmicos são do “Mal”. Em muitos quadrinhos esse sentimento predominou, em outros (como é o caso das HQs que estudei do Capitão) houve uma tentativa de entender os atentados de uma forma menos maniqueísta e de procurar esclarecer os motivos para tamanha agressão. Acho que poucos quadrinhos de super-heróis do período tiveram essa abordagem, afinal o maniqueísmo é predominante nesse tipo de narrativa. O que houve foi o desenvolvimento de críticas as políticas internas adotadas pelo governo do EUA, como o chamado Ato Patriótico, que invadiam a vida privada de seus cidadãos em nome do combate ao terrorismo, isso é abordado na saga Guerra Civil da Marvel. Com relação a DC não sei dizer, sou um “marvete” então não conheço bem os personagens e tramas da concorrente, infelizmente.

Super Ninguém: Sobre a Live, vocês falarão sobre História e Política em Capitão América. Vivemos tempos com bastante polarização e dificuldade em estabelecer um diálogo. Você diria que o Capitão América chegou a se posicionar a favor de um lado, um partido, ou mesmo um político, ou os roteiristas tiveram o cuidado de mantê-lo longe das polêmicas?

Rodrigo: Há uma tentativa de manter o personagem digamos “em cima do muro”, porém o Steve Rogers tem uma postura política liberal que podemos classificar como progressista, logo pode-se associar o personagem com as políticas defendidas pelo Partido Democrata. Outros personagens como o John F. Walker (o Agente Americano), que substituiu Rogers por um tempo nos anos 1980 tinha uma orientação política mais conservadora, que pode ser identificada com o Partido Republicano. Ou o Capitão América dos Supremos, que é explicitamente um soldado antiterrorista que serve ao presidente Bush filho. O Steve Rogers tem uma imagem simbólica que representa os ideias mais utópicos dos EUA, então ele não usa armas de fogo, procura atacar só quando é confrontado, ele é apresentado como um ideal de homem/soldado estadunidense, seu compromisso maior é com o povo de sua nação, não com um partido ou orientação política. Ele está acima disso tudo. Ele deve inspirar o melhor de cada indivíduo e de seu país, porém isso é variável.

Super Ninguém: Por fim, vocês dão um recado na publicidade do evento, “Fiquem em casa, vocês não são Super Soldados!”. Você diria que após essa pandemia, o mundo sofrerá mudanças e os quadrinhos irão refletir, ou retornaremos ao status quo anterior?

Rodrigo: Não sei, não me arisco a fazer nenhum tipo de previsão. Só espero que não fique pior do que já está.

Super Ninguém: É o que a maioria de nós espera, que não fique pior. Agradecemos a sua presença e a entrevista concedida, e, voltando a lembrar, quem quiser acompanhar a live no próximo sábado, dia 04 de julho, às 18:00, é só acessar o Instagram do Professor Sávio Queiros:

@savio_roz

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