O Vale Nerd: Castlevania – Bem-vindo ao vale, Drácula!

Por Everton Nucci
[ATENÇÃO] Esta matéria é para maiores de 16 anos [ATENÇÃO]

Olá todo mundo, bem vindos ao vale!

Eu sou Everton Nucci e hoje vou falar de uma total quebra de paradigmas.

Digam a verdade, não parece um sonho poder unir duas paixões em uma só? Parece! Mas nem sempre essa união funciona quando o assunto é videogame e cinema/TV. Digam a verdade novamente, quantas produções baseadas em videogame você assistiu que realmente valeram à pena? HQ, desenho, série? Se o assunto é cinema então… misericórdia!

E se eu adicionar à essa equação a descrição “exclusivo Netflix”? O que já foi sinônimo de qualidade com “House of Cards”, “Orange is the New black”, “Stranger Things”, se transformou em sinônimo de decepção com “Death Note”, “Cavaleiros do Zodíaco”, “Os Defensores”. Quem assistiu ao anime “Death Note” ou leu o mangá e depois assistiu ao filme da Netflix nunca mais conseguiu olhar a plataforma com os mesmos olhos, esse filme é simplesmente uma atrocidade, ele não foi feito, ele foi cometido.

Defensores e Cavaleiros até tem como defender um pouco (bem pouco), mas a adaptação da história do livro da morte é completamente indefensável. Esse é o problema, basta olhar os exemplos citados para notar que a plataforma tem um histórico muito melhor com obras originais do que com adaptações. E eram esses os paradigmas que a Netflix tinha para quebrar: não só fazer uma adaptação de videogame que valesse a pena, mas também fazer uma adaptação por si só que não deixasse os fãs da obra original com vontade de cancelar a assinatura do serviço de streaming.

Então esse era o cenário, um game de enorme importância para a cultura nerd estava na mira da Netflix, e essas adaptações para TV e Cinema não costumam dar bons resultados, desenhos animados também não renderam bons frutos. Quem não se lembra de “Super Mario Brós”, “Megaman”, “Mortal Kombat e os Defensores da Terra”? Ok temos algumas jóias raras como “Street Fighter – Victory”, mas claramente são exceções à regra. E o jogo em questão era “Castlevania”, o game que -ao lado de “Metroid”- criou um gênero próprio dentro da indústria: o gênero de plataforma de exploração. Esses dois jogos foram tão importantes na indústria dos games e na cultura nerd que hoje em dia todo jogo lançado nesse estilo é classificado como “jogo no estilo Metroidvania”. O resultado dessa soma era um enorme ponto de interrogação.

Se você jogou esse Castlevania, você está velho!

Se você nunca jogou nenhum “Castlevania” saiba que esse é um jogo realmente importante, contando com mais de 30 títulos lançados nos mais diversos consoles, fora os remakes e remasters. O jogo sempre aparece em listas de melhores jogos, mais inovadores, mais importantes. Eu particularmente me lembro de um vídeo com uma lista de jogos chamada “TOP 5 – Games que mais forçaram o Snes!!!”, que eu assisti em 23 de abr. de 2016 (excelente memória a minha, não? Sim eu pesquisei meu histórico do youtube!). Bem, na lista o apresentador explica como o título “Super Castlevania IV” utiliza o chip “mode seven” do console para criar um goblin capaz de ficar gigantesco, ficar minúsculo, rotacionar e se movimentar de forma impressionante pelo cenário. O que eu quero dizer com isso tudo é: A Netflix não podia errar com essa animação!

Antes de começar a falar sobre o desenho em si, eu preciso deixar claro que eu nunca joguei “Castlevania”! Sei que nesse momento toda a comunidade gamer que acompanha esse canal acaba de me cancelar. Sim, eu sei que é uma heresia se declarar gamer sem nunca ter jogado sequer um título da série, mas eu afirmo que o fato é apenas circunstancial. “Castlevania” não foi o único título que acabei sacrificando para poder jogar outros de igual interesse, nessa lista também posso acrescentar “Yoshi’s Island”, pelo menos meia dúzia de “Megaman” e “Megaman X”, todos os “Far Cry” e por aí vai, a vida é feita de escolhas. Mas preciso deixar isso claro para poder falar sobre a obra, pois assisti ao desenho com olhos de fã de animações e não com olhos de fã do game.

Posso afirmar que a própria Netflix tinha consciência do fato de que não poderia errar. Tanto que optou por lançar a primeira temporada com apenas quatro episódios, e usar como termômetro de público para descobrir se deveria continuar a investir na série ou não. O resultado foi avassalador, sucesso de público e de crítica e imediatos pedidos por mais episódios. A série é uma criação de “Warren Ellis” (de quem eu já falei na matéria sobre “The Authority”, que você pode conferir aqui: O Vale Nerd: A Autoridade mora no Vale.

É toda criada no estilo animê, embora não seja uma produção japonesa, e é simplesmente impressionante. A qualidade da animação, o traço, os efeitos, as cores, os cenários, tudo nesse desenho animado está acima da média. Mas por favor, atenção à classificação indicativa antes de assistir isso com seus filhos, pois a animação está repleta de cenas impróprias para crianças. Logo no primeiro episódio vemos sangue jorrando pela tela, membros sendo arrancados e um olho voando. Mais pra frente veremos nudez e sexo, então a mensagem é clara: para maiores de 16 anos.

Trevor Belmont, caçador de vampiros em Castlevania da Netflix

A trama acompanha a trajetória do último membro da família de caçadores de vampiros: Trevor Belmont, da membro do grupo dos “Oradores”: Sypha Belnades, e do filho do próprio Drácula: Alucard, em sua quest para encontrar o castelo vivo do rei dos vampiros e acabar de vez com seu domínio sobre o reino das trevas. Essa primeira temporada é realmente incrível e poderia ser comparada a uma enorme cutscene de videogame, apresentando a história de cada uma das personagens, suas motivações, características e a missão principal. Se fosse um videogame de verdade, o final do quarto episódio seria o momento em que você pegaria no controle e começaria a andar pelos mapas matando os monstros, recolhendo itens em busca do Boss da fase. Não posso deixar de mencionar que o episódio no qual é mostrada a história do Drácula, no formato de flashback, é uma das coisas mais impressionantes que eu já vi em toda a minha vida.

Infelizmente, a qualidade da primeira temporada, fez de “Castlevania” uma vítima do próprio sucesso, e o que se veio a seguir foi incapaz de atingir às expectativas criadas pela primeira temporada. Não que a segunda e a terceira temporada sejam ruins, também são excelentes, mas fica claro que os resultados positivos, fizeram com que a produção tomasse novos rumos para obter maior retorno financeiro. Para começar, a segunda temporada tem o dobro de episódios e a terceira tem ainda mais: dez episódios. Em princípio isso pode parecer ótimo para quem achou a primeira temporada curta demais, mas a realidade é que isso obrigou os produtores a esticar um pouco mais a história, o que resulta em alguns episódios bastante monótonos (as famosas “barrigas na trama”). Mas não se preocupe, se você gostou da primeira temporada vai continuar gostando da segunda e da terceira.

Alucard de Castlevania na Netflix

Eu diria que a terceira temporada é a que mais sofre, pois o final da segunda obriga os roteiristas a introduzirem uma completa mudança de rumos na história o que desagradou em muito os fãs, principalmente os dos jogos. Muitas novas personagens são introduzidas, e muitas tramas paralelas, os fãs de Alucard ficaram indignados com sua participação nessa parte da trama considerando-a como um desperdício completo (eu não sou um desses fãs). Na minha opinião esse arco do vampiro serve tanto para humanizá-lo quanto como preparação para seu ponto de virada.

Nessa temporada conheceremos o casal de vampiras Morana e Striga, duas importantes membros de um concelho de vampiras. Também temos maior destaque para Carmilla, a rainha dos vampiros. Uma personagem inspirada nos romances de ficção gótica do escritor irlandês Joseph Sheridan Le Fanu. Na literatura essa é a primeira vampira mulher existente, nos contos é sugerido que ela sente forte atração por suas vítimas mulheres.

E então chegamos ao ponto mais polêmico desta temporada: a cena do “ménage à trois”. Sem entrar em detalhes para não entregar spoilers, uma personagem do gênero masculino se envolve sexualmente com duas outras personagens, um homem e uma mulher. A cena é bem intensa, bastante gráfica e, embora não seja explícita, fica claramente sugerido que ele fez de tudo na relação, foi ativo e foi passivo o que deixou muita gente revoltada.

Eu tenho algo a dizer sobre isso: Nossa sociedade é hipócrita! É isso!

O tempo todo é deixado claro que essa não é uma produção para crianças, também temos outra cena de sexo na série, essa heterossexual. Vimos muitos seios, nádegas e até vaginas e pênis, o que é um completo tabu em termos de desenho animado. Ressaltando que a produção está cheia de pessoas sendo degoladas, desmembradas, estripadas, devoradas, e todo o tipo de gore. Mas algumas pessoas só se sentem ofendidas com uma cena de sexo.

Chorando lágrimas de sangue por conta de uma cena de Castlevania

Eu me pergunto: Que mundo é esse no qual vivemos em que uma imagem relacionada ao amor é muito mais incômoda do que uma relacionada ao ódio? Por que essas pessoas se ofendem tanto ao ver duas pessoas do mesmo gênero se beijando mas não ligam de assisti-las se matando? Em outras palavras, onde estão os pastores defensores da família e moral cristã que protestaram contra “Super-Drags” quando “Castlevania” começou a ser exibido? É provável que eles tenham acordado somente na cena do ménage bissexual, e dormido durante todas as cenas de violência nada cristãs. Fica aqui o questionamento!

Quanto à tal personagem que deixou alguns fãs tão revoltados eu digo o seguinte: Com tantas coisas a serem discutidas acerca da sua personalidade, é sério que sexualidade é a primeira delas? Ele é alguém que há muito já se distanciou da humanidade. Ele é alguém para quem conceitos como orientação sexual não devem fazer o menor sentido. E acima de tudo: ele é alguém solitário! Alguém pode culpá-lo por fazer sexo com as duas únicas pessoas que lhe demonstraram afeição?

E se você quiser conversar comigo, falar sobre a animação da netflix ou sobre os jogos preferidos da série. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o game “Castlevania – Symphony of the Night” e vem do meu amigo João Victor Barbieri, um especialista no assunto a quem tive de recorrer já que nunca joguei nada da série (me desculpem gamers). Segundo ele, o título é um dos melhores da franquia, além de quebrar alguns padrões ao colocar Alucard como protagonista da história em vez de um membro da família Belmont. Obrigado especial ao meu amigo por indicar esse jogo para eu poder colocar nessa seção e de quebra ainda complementar com a informação de que a primeira aparição de Alucard é no jogo que inspirou a série da Netflix: “Castlevania III Dracula’s Curse” (sendo até um personagem jogável).

Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

Trailer Castlevania

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e não jogou Castlevania porque estava passando vergonha jogando Super Mario Kart.

8 Comments

  1. Carlos Morgilli disse:

    É estranho o fato de uma cena gerar tanta polêmica nos dias de hoje, mas sempre vão existir pessoas do conta não adianta, eu como grande fã da série não vi problema nenhum e gostei muito até da terceira temporada terceira temporada muito bom o artigo 👏🏼.
    Obs: o João está certo o Symphony of the night é um dos melhores se não o melhor Castlevania até hoje kkkkkk

  2. Everton Nucci disse:

    Pois é Morgilli essa noção distorcida da moral é realmente intrigante. E muito absurdo afetar uma obra sensacional como essa (a batalha do final da terceira temporada é épica). Obrigado por ler a matéria e continue acessando o site. E bom saber que minha consultoria técnica valeu a pena. 😋

  3. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Amei esse debate de jogos que se tornam desenho ou filme, apesar de nunca ter jogado adorei a história/filme do Detona Ralph (sei lá se é assim que escreve). Achei importante você frisar a idade mínima pra assistir a série, e isso ajuda juntamente com a sinopse ajuda a pessoa não levar um susto né 👏🏻

    • Everton Nucci disse:

      Detona Ralph é muito legal. E aposto que vc vai curtir bastante Castelvania. Aproveita que é bem curtinha e assiste aí.

  4. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Nossa o João e o Carlos Morgilli conhecem o Castevlania, são mais novos que eu, só conheci agora porque li o post…

  5. Henrique Nucci disse:

    Carlos morgili vc não sabe o que diz.

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