Entrevista: Walter Júnior, criador do Universo Overdrive e autor da Graphic Novel “Eu, Vilão”

Walter Júnior iniciou sua carreira em 1988, com a criação do Fanzine SAGA, ganhador do prestigiado troféu HQMIX, o chamado Oscar dos Quadrinhos Brasileiros, nos anos de 1990 e 1992. Em 1994, ganha o prêmio Ângelo Agostini e o Troféu Nova com a Graphic Novel Semideuses.

Passou então um período trabalhando como designer gráfico, ilustrador e diretor de arte. Em 2014, lança o curta-metragem “Os Sapatos de Haruka” pela Vertigem Filmes, vencedor das categorias “Melhor Edição de Filme” e “Melhor Atriz” no 2º Festival FIAMFAAM de Cinema Independente (2015).

Confira a seguir a entrevista que fizemos com o autor sobre sua carreira, seus personagens, o selo Overdrive Comics e a Graphic Novel “Eu, Vilão”.

Em 2016 lança o seu primeiro livro de contos “7”, e em 2017 cria o Selo Overdrive Comics, por onde lança a Graphic Novel “Eu, Vilão” e a HQ Seriada Overdrive.

Super Ninguém: A Graphic Novel “Eu, Vilão” está longe de ser o seu primeiro trabalho nos quadrinhos, muito pelo contrário, você está nessa desde o final da década de 80 (foi mal por entregar sua idade), com o fanzine SAGA, que teve duração de seis anos e ganhou dois troféus “HQMIX”. Qual foi o motivo que levou ao fim do fanzine e o quanto essa época contribuiu para o artista que você é hoje?

Walter: A época do SAGA (1988/1995) foi muito intensa e mal deu pra saber o que estava acontecendo. Foi tudo muito rápido para todos nós e como éramos bem jovens, não capitalizamos bem o barulho todo que fizemos. Depois dos HQMIX (1989/1992) veio o Trófeu Angelo Agostini de melhor lançamento com a Graphic independente de super-heróis “Semideuses” e aí que a ficha começou a cair. Mas demos passos muito largos, sem muita estrutura, quisemos abraças todas ideias ao mesmo tempo e aí não deu. A recém-criada editora não aguentou. O almanaque SAGAVERSO só teve o primeiro número lançado e foi praticamente o que encerrou as portas da editora e do grupo. Ainda somos amigos e nos falamos constantemente, mas nunca mais fizemos projetos de quadrinhos como um grupo. Isso ajudou a todos nós a encarar o mercado de hoje de outra maneira. A cena está mais contida, mais setorizada e apesar das redes sociais mostrarem uma união, ela ainda está longe de existir de verdade. Isso desde aquela época de fanzine SAGA.

Fanzine SAGA, ganhador de dois troféus HQMIX

Super Ninguém: Muitos artistas começam suas atividades através de Fanzines, certo? Não dá para negar que o “SAGA” é um caso de sucesso. No que se refere a esse tipo de publicação, você diria que as coisas mudaram muito daquela época para agora. Que tipo de dicas você daria para quem quer começar um fanzine?

Walter: Olha, não sei se um fanzine, nos moldes de como eram feitos nos anos 80/90 teria alguma aceitação, a não ser que fosse bem setorizado. Pra um nicho bem específico mesmo. A internet ocupou esse espaço. Mas eu mesmo vivo escrevendo projetos de fanzines para quem sabe algum dia vejam a luz do dia… setorizados, mas nos velhos moldes. O conselho que dou é: Se você tem uma ideia, tem vontade e acredita nela, por que não fazê-la! Siga seus instintos e seu coração. O que importa é você fazer e não lamentar-se depois de não ter feito. Se vai dar certo ou não, é apenas uma consequência que não deve ser levada em consideração como objetivo. O objetivo é a realização.

Super Ninguém: Com o final do fanzine, veio a Graphic Novel “Semideuses” com a participação de “Overgirl” e “Feedback”, ambos super-heróis criados por você. Quais escritores e quais histórias em quadrinhos você lia e que serviram de inspiração para a criação deles?

Walter: Meus escritores favoritos são Lovecraft e Stephen King… nada a ver com super-heróis, rs… Na época de Semideuses estava lendo de tudo, muita FC clássica, terror, Senhor dos Anéis, era uma máquina de ler… praticamente um livro por semana então não posso dar apenas a um autor o crédito das minhas influências… tem de tudo. Nos quadrinhos, sempre foi John Byrne e as fases clássicas da Marvel da era de bronze, assim como mangás e animes da mesma época. Os filmes e música dos anos 80 e 90 também ajudaram muito na formação da minha linguagem narrativa.

Super Ninguém: Tanto “Overgirl” quanto “Feedback” fazem parte do selo “Overdrive Comics”, criado em 2017. Você poderia nos contar como surgiu a ideia de cria-lo e um pouco sobre o seu universo?

Graphic Novel Semideuses, ganhadora do Troféu Angelo Agostini de Melhor Lançamento

Walter: A ideia de trazer Overgirl e Feedback de volta me ronda desde o final do grupo SAGA… em 1999 escrevi o primeiro projeto do que seria a Overdrive como conhecemos agora. Seria um projeto em inglês para tentar levar para a então SDCC de 1999. Mas uma enorme mudança na minha vida pessoal, acabou enterrando o projeto. Levou um tempo até eu decidir que era a hora de voltar aos meus “velhos filhos” e dar uma chance a eles. Então depois de publicar meu primeiro livro de contos, “7”, em 2016, me vi empolgado em iniciar esse projeto. Criei um pequeno selo editorial, a Overdrive Comics, para poder lançar, sem pressão e de acordo com meu tempo, os quadrinhos que sempre quis fazer, do jeito que eu gostaria que fossem. Ainda tem defeitos, claro, sou uma “editora de uma pessoa só”, mas vamos nos aperfeiçoando e melhorando com nossos erros. Estou satisfeito por enquanto. Quanto ao universo de Overdrive, ele basicamente se molda em torno da história de Overgirl, que vai aos poucos se desdobrando e revelando que a sua criação foi responsável pelo surgimento de quase todos outros personagens da trama, ou então estão fortemente relacionados com ela, através da Essência.

Super Ninguém: Até agora quantas revistas a “Overdrive Comics” já publicou e qual a periodicidade delas?

Walter: O primeiro lançamento da Overdrive Comics foi a Graphic “Eu, vilão”. Foi um lançamento que teve uma produção conturbada mas acabou saindo “quase” de acordo como eu queria. Tem falhas, mas prefiro não me prender a isso e usar como lição para o próximo nível. Já a revista Overdrive, já tinha um plano desde 1999 como disse, então já era mais estruturada. Só tive que reescrever algumas coisas e eliminar outras menos importantes. Também mudei meu estilo de desenho, para um estilo mais simples, menos rebuscado e cheio de detalhes, que estava muito preso aos extremismo dos anos 90. Overdrive teve periodicidade semestral, sendo publicada entre 2018 e 2019, completando 4 edições. Agora estou preparando um novo formato para Overdrive e espero que fique pronto para o próximo ano.

Capa da Graphic Novel “Eu, Vilão”, primeiro lançamento do Selo Overdrive Comics

Super Ninguém: Imagino que competir de igual para igual com gigantes como Marvel e DC Comics esteja fora de cogitação por serem realidades completamente diferentes, mas como você enxerga o mercado para HQs e super-heróis nacionais?

Walter: Totalmente ilusório querer competir com a Marvel e DC e esse nunca foi o meu pensamento. A ideia sempre foi seguir a mesma estrada, caminhar a mesma trilha de meus heróis de infância e autores favoritos. Não temos mercado nacional para quadrinhos, muito menos de super-heróis então, como disse, faço os quadrinhos que gostaria de ler, com o coração, e assim acabamos atingindo pessoas que também pensam assim e se identificam com seu trabalho. Não é um pensamento de “dominação mundial”, mas é um pensamento do coração, honesto e sincero.

Super Ninguém: “Eu, Vilão” começou como uma história pequena com apenas cinco páginas; como ela evoluiu para uma Graphic Novel de 88 páginas? Você é responsável tanto pelo roteiro quanto pelos desenhos?

Walter: Eu, vilão começou a se formar com uma pequena história de 5, 6 páginas e com o passar do tempo, a própria sociedade foi mudando. As redes sociais passaram a ter uma influência gigantesca na formação de opinião do mundo e isso acabou me dando a ideia de utilizar aquela pequena hq em algo maior. Ou, como gosto de falar, uma “pegadinha”, em que eu a utilizo pra contar algo maior. Levou uns dois anos e meio, quase três pra terminar todo projeto, pois eu estava muito tempo parado e precisava definir muita coisa na hq. Ficou boa, me orgulho dela, apesar dos defeitos. E sim, como sempre, fiz tudo, só não fiz a impressão pessoalmente porque não tenho gráfica em casa, rs!!!

Super Ninguém: Você poderia nos contar um pouco sobre a história da Graphic e sobre seus dois protagonistas?

Walter: Bom, a história é um conto urbano que pode ser contado em qualquer metrópole atual, sobre intolerância, discriminação, julgamentos e manipulação de massas, mas para evitar a comparação fácil com nossa realidade, incluí uma variação que foi dar aos personagens poderes e colocá-los como super-seres. São dois personagens amargurados cada um com seu fardo para carregar, julgados constantemente pela sociedade e tendo que manter aparências. Nesse meio, temos aquele personagem que é como qualquer um de nós, que passa despercebido e que muda o rumo da história, até que surja um próximo assunto nos trending topics da vida. Nunca os “15 minutos de fama” foram tão autênticos quanto nessa nossa atual realidade.

Capa de Overdrive 2, de 2018

Super Ninguém: Já que você mencionou Manipulação em Massa, eis aqui um trecho que está na breve sinopse que você nos enviou: “possui elementos levemente inspirados em como a sociedade é direcionada através dos veículos de opinião”. Você diria que estes veículos, no Brasil e no mundo, são capazes de criar heróis e vilões, e transformar um em outro, de acordo com seus próprios anseios?

Walter: Os veículos são os condutores de opiniões, e portanto direcionam elas para diversos caminhos, de acordo com a música que está sendo tocada no momento. Cabe ao receptor interpretá-las da forma que mais lhe convém, aí sim, cria-se o “vilão” ou o “herói”. No final, é o receptor o pai da criação, ou seja, todos nós.

Super Ninguém: Quais são os planos para o futuro da “Overdrive Comics”? Planejam publicar uma nova Graphic Novel? Publicar material de outros artistas?

Walter: A Overdrive tirou o ano de 2020 pra fazer novos planos. Calhou da pandemia “ajudar” nesse processo. Para o ano de 2021 temos uma nova Graphic novel planejada para o segundo semestre, com uma pegada no terror, mas sem deixar o mote de super-heróis de lado. Overgirl e Feedback retornarão em uma nova Overdrive, dessa vez, em formato diferente e provavelmente em tiragem sob demanda. Quem sabe no futuro, outros artistas darão suas contribuições nas aventuras do Overdrive? Já andei fazendo “experiências” nas edições de Overdrive com a galeria… Quem sabe…

Super Ninguém: Finalmente, onde o público pode encontrar e adquirir “Eu, Vilão” e as demais revistas da “Overdrive”?

Walter: Muito fácil!

www.walterjunior.com.br

Também na amazon.com.br, e lojas Comix e Ugra. Lembrando que comprando no site oficial, as revistas saem autografadas!

1 Comment

  1. Carlos Baku disse:

    Meu amigo o conheci na Exposição super- herois do Brasil. Grande Artista e uma grande pessoa.

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