Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindos ao vale!

Eu sou Everton Nucci e alguém precisa parar Ryan Murphy! E o que ele fez de errado? Nada que eu saiba! Então por que alguém deve pará-lo, você me pergunta? Porque eu não consigo parar de assistir às séries dele. E eu não posso fazer uma coluna só de séries do Ryan Murphy! Ou posso? Fernando?

Nota da Administração do Site: Não, não pode!

De qualquer forma, eu quero escrever sobre outras coisas nerds. Ainda não escrevi sobre nenhum livro, tem muitas HQs, games e filmes dos quais quero falar por aqui. Mas… Eu assisto mais séries do que eu consigo escrever (o que é muito engraçado já que minha amiga disse que eu indico mais séries do que ela consegue assistir). Resumidamente, acho que devo começar dizendo “Oi. Eu sou Everton, e sou viciado em séries! E a culpa é do Ryan Murphy!”.

Ryan Murphy, responsável pelo vício em séries do autor dessa matéria

Para quem não se lembra, Ryan Murphy é um dos produtores de “American Horror Story” (e você pode conferir minha análise dessa série clicando aqui:

O Vale Nerd: Ficção, Horror e Sangue no Vale

Sei o que vocês estão pensando e não, não canso de fazer propaganda das minhas próprias matérias. Mas não é só isso, basta você dar uma rápida pesquisada no Google para notar que o cara está em simplesmente tudo: da provocante “Nip/Tuck” (“Estética”), à comédia musical adolescente “Glee”, e até a excêntrica “Popularidade”, séries inspiradas em histórias reais, como “American Crime Story” e agora a série que cria a sua própria versão da realidade. Esta da qual falarei hoje: “Hollywood”.

A nova série é uma produção original da Netflix e uma parceria de Murphy com Ian Brennan, que já havia trabalhado com o produtor em “Glee” e “Scream Queens”. Creio que “Hollywood” é a coisa mais nerd que alguém pode fazer na vida, é o princípio básico da ciência, olhar para algo e perguntar “E se?…”. Isso porque tudo nessa história é baseada em eventos reais, entretanto os produtores tomam a liberdade de reimaginar a história, e em vez da triste realidade dos fatos, narrar os eventos conforme eles deveriam ter acontecido, num mundo onde a tolerância reina no lugar da ignorância e onde o preconceito não vence no final.

Tudo começa com a premissa mais clichê de todas: um aspirante a ator que se muda para a cidade de Hollywood em busca de fama e sucesso. Em vez disso, ele encontra desprezo e frustração. Como dinheiro não cai do céu ele acaba indo buscar um emprego que pague as contas e o encontra num posto de combustível, e é aí que a trama realmente começa. O posto é na verdade um prostíbulo disfarçado, os frentistas são os garotos de programa e o dono do posto é o cafetão. Ele só esqueceu de avisar o novo contratado desse pequeno detalhe então “Surpresa!!”.

Hollywood – Terra dos Sonhos, Série da Netflix, cheia de surpresas!!!

O engraçado é que eu não sabia que Ryan Murphy estava envolvido na série quando meu marido resolveu assistir; isso porque a premissa não havia me chamado a atenção nenhum pouco: “Enquanto a grande chance não vem, um ator trabalha num posto de gasolina que oferece muito mais do que combustível aos seus clientes”.

Francamente, eu não sei quem escreve as sinopses na Netflix, mas essa pessoa precisa ser demitida urgentemente. Por conta desse desconhecimento e da minha falta de empolgação com a sinopse ele começou a assistir enquanto eu jogava “Mario Kart – Tour”.

Nota da Administração do Site: E a culpa de não ter tempo para escrever é do Ryan Murphy??

Entretanto, no decorrer do episódio eu notei que minha atenção era desviada para a tela da TV o tempo todo, e comecei a achar a série muito bem produzida, muito bem escrita. Toda a trajetória do ator que eu descrevi no parágrafo anterior acontece muito rápido e de forma muito surpreendente. O que parecia ser mais um daqueles roteiros batidos revela-se uma série cheia de reviravoltas com uma montagem, ágil, dinâmica e cheia de sagacidade.

E quando os créditos do primeiro episódio apareceram é que eu entendi. Lá estava ele novamente: Ryan Murphy, obviamente fazendo mais uma coisa genial.

Mas vocês sabem que uma série sobre um garoto de programa aspirante a ator não estaria aqui no “Vale Nerd” se não houvessem LGBTQIA+ na história. É claro que não, e como “Hollywood” se passa nos anos 40, o preconceito é discutido de forma profunda. Não só com relação a orientação sexual das personagens mas também com relação ao racismo e a xenofobia americana.

Hollywood é mesmo a Terra dos Sonhos?

Essa é uma época em que atrizes asiáticas eram consideradas “exóticas” e relegadas a papéis de gueixas, espiãs, todo o tipo de estereótipos e chegando até ao cúmulo de perder o papel de protagonista oriental para uma atriz americana. O que dizer então de atrizes negras, sempre submetidas a papéis subservientes, e não bastava estarem ali servindo os brancos em seus papéis de ama, ou de empregadas domésticas. Elas precisavam demonstrar sua inferioridade com corpos curvados, cabeça baixa e falando de um modo chucro. Elas não podiam ser apenas pessoas negras elas precisavam ser aquilo que os brancos preconceituosos acreditavam ser uma pessoa negra.

Nos cinemas daquela época, obviamente não havia personagens do vale na tela, é por isso que a série explora a sexualidade dos atores, muitas vezes reprimidas e praticada na obscuridade, pois um simples boato de que um ator pudesse ser gay, seria capaz de destruir toda uma carreira promissora. E eis que entra em cena Jim Parsons, o ator que na vida real, “saiu do armário” diante do mundo todo e até dedicou um de seus vários prêmios recebidos, enquanto interpretava o eterno Sheldon Cooper de “The Big Bang Theory”, ao seu marido Todd Spiewak. Percebem como isso é incrível? A metalinguagem contida na situação nos faz repensar em quanto evoluímos, ao mesmo tempo em que nos faz pensar em como somos pobres enquanto sociedade ao permitir que comportamentos como esses afetem as vidas de pessoas.

Jim Parsons em Hollywood – Série da Netflix, difícil dissociá-lo da imagem de Sheldon

A atuação de Jim é ótima como sempre, infelizmente, os 12 anos interpretando a personagem da sitcom o deixaram marcado demais, e fica difícil distanciá-la da imagem de Sheldon.

Mas se a questão é a evolução da sociedade, eu me entristeço muito ao constatar o quão pouco evoluímos quando o assunto é racismo. A série aborda a história de Hattie McDaniel, a primeira pessoa negra a ganhar um Oscar, ela ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em “E o vento levou” em 1939, mas foi impedida de entrar no salão e assistir à premiação. Os promotores do evento não queriam uma pessoa negra no auditório e ela só pôde entrar no local quando foram-na buscar às pressas para receber a estatueta. E  sabe o que o Oscar fez pela carreira dela? Absolutamente nada! Ela continuou a fazer os mesmos papéis de coadjuvante e subserviente de sempre.

Talvez você possa estar pensando que isso é coisa dos anos 40, mas a coisa não é bem assim. Sabia que a primeira e única mulher negra a ganhar um óscar de melhor atriz foi Halle Berry pelo filme “A última ceia” em 2002? E apenas 4 homens levaram o óscar de melhor ator? Na verdade, em todas as suas 92 edições (até o ano de 2020) foram distribuídas mais de 3.100 estatuetas, e dessas, apenas 44  (dentre as diversas categorias) foram para pessoas negras? Agora com relação aos oscars entregues aos LGBTQIA+ fica um pouco mais difícil de calcular, visto que muitos gays e lésbicas que estiveram envolvidos em produções premiadas simplesmente nunca saíram do armário, por isso acho injusto levantar esses dados. Seriam incorretos.

Halle Berry recebendo o Oscar, esqueçam Mulher Gato, ela é uma boa atriz.

Pois é, o mundo real é realmente triste. E por isso que “Hollywood” é tão incrível. Nesse mundo surreal da série, um escritor negro e gay pode tentar a sorte num grande estúdio e receber um abraço em troca. Nesse mundo paralelo, um grande estúdio pode ser dirigido por uma mulher que resolve revolucionar a indústria, desafiando até mesmo os estados em que a segregação era legalizada; dois atores gays podem entrar de mãos dadas no tapete vermelho, uma atriz asiática pode receber um papel digno de seu talento tendo sua vez de brilhar e um velho e desiludido aspirante a ator pode finalmente ter a chance de aparecer nas telas.

O evento do qual a série se baseia é a produção do filme “Peg”, que realmente existiu e conta a vida de uma atriz que se mudou do interior para a cidade de Hollywood para tentar o estrelato. Após muita luta ela finalmente entra em um filme, mas na última hora, a única cena em que ela apareceria é cortada. Isso levou a garota a um profundo estado de desilusão e depressão, o que fez com que ela se jogasse do alto da letra H, do letreiro da cidade. O filme existiu, e a história que inspirou o filme aconteceu de verdade, mas a série reimagina isso tudo também.

Tudo aqui é muito bem pensado, bem narrado, bem construído. Não há personagens descartados, cada trama é única e te leva a refletir sobre como o mundo poderia ser. Pelo menos o mundo ideal, onde o amor vence o preconceito e o ódio.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre “Hollywood” e as milhares de outras séries de Ryan Murphy. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é, na verdade um dever de casa. Eu sugiro que você assista à essa série e depois pesquisem o que é fato e o que é ficção na obra, garanto que pode ser muito legal. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e toda vez que via Jim Parsons em Hollywood fica esperando ele dizer “Bazinga”!!!

2 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Essa série vai entrar na minha lista com certeza!

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